Lentamente percebemos que continuar é preciso. Há cinquenta dias que escrevo aqui. E há cinquenta dias que não cozinho no restaurante que deixei e ficou até agora de porta fechada. Não serei dos que vão a correr a abrir logo no próximo dia dezoito. A prudência, adaptação, visão de futuro e sustentabilidade, assim como, o repor das prioridades é relevante para cada gesto ser feito com o necessário cuidado. Não teremos lugar para erros porque os erros agora custam um pouco mais. A saúde e a confiança na relação que estabelecemos com os clientes e entre nós. É preciso ir devagar. E perceber que as escolhas que se fazem serão determinantes. Não fiz a aposta no takeaway nem nas entregas pois as condições de quem não está no centro de tudo não são as mesmas. E mais, não acredito que, sem ser desenhada uma opção alternativa, isso a médio prazo não tenha um certo peso final. Cada um, faz e fez o melhor que sabia. Porque nenhuma de nós, cozinheiros ou gerentes, esteve alguma vez neste lugar. Penso, depois de ler uma notícia sobre a situação espanhola, que sim, teremos em breve e ainda no nosso tempo útil, um momento exponencial da restauração e do turismo. Uma espécie de vingança deste encerramento da vida a que fomos obrigados. Porque vamos desejar fazer aquilo que não foi feito simplesmente porque sabemos agora, simplesmente, o valor de não o podermos fazer. E a comida, o estar com os outros, os restauro das forças pela alimentação de corpo e alma serão essência maior desse momento. Mas é preciso chegar lá. Sobreviver e chegar lá. É por isso que neste tempo que medeia entre sabermos que vamos poder reabrir, por ordem sanitária, e a reabertura, teremos que pensar. Organizar. Avaliar o futuro num cenário nunca antes vivido. Pensar que planear o incerto é prudente e será o que nos fará segurar esses dias para além dos passar como até aqui. É por isso que as datas, fixas, marcadas no calendário como certas, não são as que dão certeza a quem nos deseja visitar. Tomemos o futuro, de volta, às nossas mãos e sabemos que, tal como na cozinha, será o tempero e a paixão que vamos colocar em acreditar que é possível que, efectivamente, fará o dia de amanhã ser maior. Melhor. Seguro no que nos é permitido. E isso sim, dará a quem nos visita a confiança para regressar. E a nós, para reabrir a tal porta fechada há tantos dias…