Impossível. Não dá. Não vai dar. Não pode ser assim. Hoje só penso nas vezes sem conta que ouvi estas palavras há quase um ano quando me aventurei a aceitar um desafio, principalmente a mim mesmo, de ir para um lugar isolado fazer a cozinha em que acredito. Deixando a segurança de um projecto que teve o seu lugar na minha vida desde o início, habituado a uma estrutura de dimensões grandes, entrei num lugar desconhecido. Impossível. Ninguém aguenta o Inverno ali, no meio da serra, onde só há uma estrada de onde se chega e parte. Ouvi, dias e dias seguidos isto. Ou que o caminho que estava a seguir era o errado. Que não podia ser assim ou assado. Sei lá o que ouvi. Sempre respondi que sim. Que estava a ouvir. E estava. Mas o caminho, esse, decidi eu. Bem ou mal. Agora é a mesma coisa mas mais difícil ainda. Porque não é um começar do zero. É um recomeçar de algo sem ainda saber bem como o fazer. Sei uma coisa. A cozinha de proximidade, de valorização dos produtos, da partilha e da relação com a memória, isso já lá estava. Os clientes que chegavam eram recebidos pelo nome. Numa relação sempre muito pensada e atenciosa entre a sala e quem os sabia acolher como poucos. As histórias contadas, as memórias recordadas, as viagens que se faziam em momentos que definem um lugar, estavam lá todas. Estava lá tudo. Depois de muito acreditar que era possível fazer diferente. Nem melhor, nem pior. Diferente. Era uma personalização da experiência, atenciosa. De bem-estar, sem pressas. E quem nos visitava era próximo. Traziam coisas para contar que ouvíamos e acolhemos ao longo do tempo e algumas vezes acabavam em sabores que eram servidos à mesa. No final, agora que nos dizem que tudo isto, todo este tempo e esta surpresa em que nos encontramos torna quase tudo impossível ou para outros é um mar de oportunidades para criar, só penso nisso. No tanto que todos têm sempre para dizer do alto das suas certezas infindáveis. Que os restaurantes de cidade é que vão sobreviver, que os do interior (sim, ainda há interior no país para alguns) é que vão sobreviver, que os grandes é que vão sobreviver, que os pequenos é que vão sobreviver, todos com argumentos mais que válidos e de sapiência reveladora, eu não sei nada. Eu tenho todas as dúvidas do mundo. E talvez foi sempre isso que me fez andar em frente. Todas essas dúvidas para as quais procuro sempre resposta na força de continuar e de fazer o que dizem ser impossível. É uma força que vem de dentro. De dizer simplesmente, não esperes por nada nem ninguém para fazer por ti. Faz, mesmo com dúvidas. Continua, mesmo com medo. Quando tudo isto passar, um dia, quem sabe, olharei para estas palavras com as certezas que os outros vão tendo mas eu não…