Um restaurante é um negócio. A negação do ócio. Mas vive, em parte, disso. Do ócio dos outros em bons momentos. Penso nisto, quando me falam de mil coisas a criar e mudar para tornar o lugar onde se devia estar bem, numa espécie de lugar asséptico, quase hospitalar, para dar segurança a quem visita. Andamos a trocar os pés. Digo eu. Porque é simples. Ou caímos no extremo de querer “purificar” um espaço seguindo normas, regras e demais soluções que ainda não são exigidas nem reguladas porque só de conversas são feitos ou recusamos a lógica de mudar tudo porque assim deixa de fazer sentido esta coisa da restauração. E mesmo que venha a sair o tal guia ou as tais normas uns dirão que será assim ou assado que se aplicam. E muitos vão dizer que se assim não for tudo está mal. E muitos não vão colocar ou ter capacidade de colocar as coisas nos devidos lugares, modos e processos porque não farão sentido ou simplesmente porque não entendem a razão maior de o fazer. Penso nisto, depois de ter a certeza que recomeçar implica mudança. Mas a mudança só pode acontecer quando tem sustentabilidade. Pensar o contrário é ser idiota. Sabemos que vamos ter a capacidade reduzida em 50% e sabemos que desses 50% outros tantos, os nossos clientes esclarecidos ou racionais, não regressam tão cedo ou ao regressar será limitados na acção, tempo e lógica do que seria um bom serviço há dois meses antes de tudo isto acontecer. Precisamos pensar tudo. Sem aquela ideia de uma acção imediata que só pode ser prejudicial a médio prazo. Esperar, dizem os antigos, é uma virtude. Esperar demais pode ser mortal para a restauração. Mas também pode ser uma salvação. É preciso o equilíbrio. Os dias passam e há quase dois meses que escrevo aqui. Os meus pensamentos vão de um lado ao outro. As mãos já sentem falta da cozinha. A razão está presa no que há e no que ficou por e para fazer. Passos pequenos e seguros. Repito-me. Digo a mim mesmo, em voz alta. Dá passos pequenos e seguros. Começar por recompor o que estava por fazer. Depois, recomeçar. Isso implica tanta coisa. Só isso implica tanta coisa. Porque não há apoios para gente pequena e independente que só tem uma coisa nas mãos: os sonhos. Isso não dá para trocar por uma garantia bancária com mil itens. Nem dá crédito junto de quem nos coloca as coisas nos lugares e precisa do mesmo do que nós. A verdade é que é sempre mais difícil quando se luta contra as montanhas só com a força das mãos e da vontade. Mas é isso que é preciso. Mais do que nunca. Passos pequenos, seguros, força e vontade. O resto, uns dirão que é assim. Outros que é assado. Por isso, primeiro passo: esperar pelo que nos dirão ser o que é necessário fazer para depois pensar e ver o futuro. Entretanto, pensar a cozinha. No final de contas é disso que andamos esquecidos. Da cozinha. A alma e razão de um restaurante. Seja em que circunstância for. Mesmo nesta. Imprevista, impossível, única…
