Tenta-se pensar no futuro. Mesmo que o presente seja feito da incerteza de como suportar tudo pois tudo parece ir demorar mais do que se falava. Nunca acreditei que fosse de curto prazo de resolução. Nunca acreditei que isto fosse passar como qualquer outra coisa. Falámos, em equipa, muitas vezes no restaurante sobre isto.

Abrimos em maio do ano passado e toda a gente dizia que seria impossível aguentar o inverno aqui, onde ninguém vinha. Mas as pessoas começaram a vir, a chegar e a reservar mesa. Chegámos a ter lista de espera de quinze dias e aos domingos chegou às três semanas. Isto fruto do esforço do trabalho de equipa que resultou num bom acolhimento a quem chegava e dos sabores que as pessoas sentiam falta de (re)descobrir. Agora tento pensar o futuro. Se consigo ou não reabrir. Essa dúvida é alimentada pela constante mutação das decisões, que se por um lado entendo, por outro lado assusta. Assusta porque não podemos continuar a pensar num modelo que já não dá resposta ao necessário e urgente e estava pensado para um motor económico a funcionar regularmente. Pensar fora das linhas, mas cumprindo as regras para que o edifício social e económico não se desfaça era mais do que preciso. E eu penso nisto, tal como penso na melhor forma de me reinventar quando reabrir.

A lógica seria aquela que tinha pensado. Seria esta semana, exactamente hoje, que iria estrear a carta de primavera do restaurante. E até estava o dia perfeito para tal. Tinha o faisão, a caldeirada de enguias, o pão-de-ló com doce de ovos e tanta coisa que me andava a encantar depois de uma carta de contenção como a que foi servida no inverno. Penso ser isso que ainda alimenta a esperança que preciso de ter todos os dias e a serenidade revoltada para não descansar. A serenidade para me obrigar a rotinas que me mantenham atento. Nem que sejam em papel com receitas novas para um novo tempo. Porque até nisso precisamos pensar, nesse novo tempo que vai surgir e que alguns teimam em não ver ou não querer antecipar. Nas decisões mas também na esperança que isso cria e nas respostas do futuro que não são feitas com as perguntas do agora. Gostava de ver essa clarividência em quem nos pede para continuar mas nos dá soluções que não respondem ao que precisamos para amanhã…