A realidade de um restaurante no meio da serra, onde o cliente o visita propositadamente, é muito diferente daqueles que, na cidade, abrem a porta a quem passa. Aqui não passa ninguém que não chegue de uma viagem feita exatamente para vir provar o que temos para oferecer. Aqui, cada cliente é um visitante que não vive perto, nem precisa de nós para o dia-a-dia. Vem porque quer descobrir o lugar, os sabores e acima de tudo descobrir o que temos de único. É por isso que fechar foi uma decisão evidente. Porque simplesmente as pessoas deixaram-se de deslocar. Se estivesse numa cidade, como já estive, a ponderação seria outra, talvez. Porque há um lado social na restauração que não podemos esquecer sob o mote de nos tornarmos menos humanos.

Matamos a fome. Dizia mo outro dia a um cliente. Nós matamos a fome. Associamos depois o prazer. O gosto de preparar uma iguaria. Criamos com isso memórias que ficam. Há uns dias que ao cozinhar em casa penso nisso. Que voltaremos em breve à necessidade de matar a fome só para mais tarde redescobrirmos a urgência do prazer à mesa. É por isso que sempre disse que fechar foi a decisão mais difícil que tomei mas a única possível. E que cada um deve ponderar o que é possível no seu caso específico. Porque há quem, mesmo servindo esse lado prazeroso da mesa, mate a fome a quem não pode cozinhar por mais de mil razões.

Um projeto recente como o que construí no meio de um isolamento incomum teve dias e dias de trabalho constante para se “colocar no mapa”. Nesse mapa da mesa. Agora, de portas fechadas passo o tempo a pensar nos dias de imensa luta. Nos que quase estive para desistir. Nos que fui força para além da força. Nos dias em que as horas pareciam não ter fim e nos momentos de pequenas conquistas que ofereceram a mim e à equipa fantástica que me acompanha a certeza de um caminho. Penso nesse trabalho todo que será preciso refazer, se possível, num futuro que não sei quando começa. Na minha opinião, agora é preciso guardar as forças para esse tempo novo. Que será mesmo novo e único. Mas no final de tudo, penso naqueles que me disseram que era impossível o que acabei por conseguir fazer com a equipa que me acompanha desde o primeiro dia. Fizemos o impossível. Agora é pensar que, quando isto passar, vamos ter que repetir tudo outra vez…