Quando decidi fechar, ainda não havia qualquer informação sobre o que era esperado de cada unidade de restauração. Olhei pela janela e a água corria normalmente. Já cheirava a primavera e as primeiras andorinhas chegavam. Fechei os olhos por instantes. Aqui, no meio da serra do Espinhal, em Penela, isolados do mundo, quase que só ganhamos vida com a visita de cada cliente. O sentimento de segurança é diferente. Porque podemos até ver os carros que chegam e partem pois ninguém passa para além dos que nos visitam.

Cerrei as mãos e disse à minha equipa que tudo tem feito para colocar este cantinho perdido no meio do arvoredo no mapa: tomei a decisão de encerrar. Não sei o que nos espera. Não sei como vamos superar isto. Mas estamos, nós e quem nos visita, em primeiro lugar. Olhei para as contas por e para pagar. Olhei para eles. Olhei para mim e para os meus. Olhei para as imensas horas de trabalho que aqui tem sempre o triplo da dificuldade porque não estamos perto de nada e cada dia foi um imenso desafio para fazer valer a pena o caminho até aqui. Olhei para a tempestade que já enfrentámos com cheias e tudo o mais. O sermos um projecto recente, sem fundos de maior, sem stocks infindáveis, sem crédito que não fosse o nosso trabalho e vontade de continuar e fazer bem. Decidi. Sem rede. Porque não tive qualquer apoio das entidades oficiais/estatais para abrir. Não o tive para manter. Não o tive para decidir fechar. Não o terei, se conseguir voltar a abrir. 

Olho em volta. Sei que as andorinhas continuam a chegar lá. Mas eu e a minha equipa estamos em casa. A dizer várias vezes: não sei. Não sei quanto tempo aqui vamos estar. Não sei como vamos fazer. Não sei. No primeiro dia que escrevo estes parágrafos é esta a sensação que me invade. Que a certeza de ter feito o melhor por nós é a mesma incerteza de saber o que vou conseguir fazer no futuro. Mas ao menos que tenha valido ganhar esse futuro, isso já é algo de maior. Porque enquanto “houver estrada para andar, a gente vai continuar…”