Nas minhas aulas de História e Cultura Gastronómica habituei-me a dizer aos meus alunos que cozinhar é uma atitude política, é uma forma de intervir na sociedade. Ser cozinheiro é ser ativista pelas escolhas que fazemos, pelo que decidimos colocar dentro da panela, pela forma como as cozinhamos, pelo modo como partilhamos. Essas são as palavras que marcam a primeira aula na certeza de que o tempo será passado entre o que são as nossas convicções e aquilo que aprendemos pela discussão de ideias.
Pensar assim dá-me conforto. Não de mudar o mundo grande e distante, mas de mudar o pequeno mundo que nos rodeia, que está à nossa volta e que pensa, sente, mexe e estrebucha. Por isso, neste importante momento que estamos a viver quero sentir o consolo de que somos muitos, muitos mesmo contra a inquietude, a ausência de tranquilidade. E penso no poder que todos temos sempre de criar alternativas ao estado sítio em que o mundo de repente se tornou. E os cozinheiros ainda mais. Pelo respeito que todos têm aos homens e mulheres que fizeram da cozinha um lugar tão importante na nossa economia. Pela centralidade que trouxeram ao que pomos sobre a mesa. Escrevi em tempos que a um cozinheiro quase se pede que seja super-herói. Não daqueles com capa e com um superpoder como na banda desenhada, mas como homens e mulheres que estão ativos e pensam no princípio e fim de todo o processo alimentar. As circunstâncias de hoje dizem-nos que o desafio está muito para além das preocupações ambientais ou sociais. Neste momento, é preciso pensar no tempo em que será preciso começar de novo, arranjar fôlego, vencer as dificuldades que se tornaram emergentes.
Aí sentimos a dúvida subir-nos pela espinha e fazer divergir o pensamento. Sobretudo pela incerteza de como tudo vai evoluir. As certezas são escassas e bem nebulosas. Pensar, refletir, analisar, criar espaço para soluções ativas, perceber até onde podemos e conseguimos ir. No entretanto, deixa-me feliz pensar que, hoje, ouvi de um cozinheiro que um idoso lhe pediu para todos os dias lhe levar a casa uma sopinha e uma sandes para assim não ter de sair à rua e enfrentar um vírus que lhe pode tirar a vida. Isso fez-me sorrir e mudou o meu dia.
