Neste tempo de tenebrosa pandemia aumentou a acuidade da frase: «cautela e caldos de galinha nunca fizerem mal a ninguém». Há quem diga e escreva – cautelas –, e o rigoroso jornalista Afonso Praça irado acrescentava: «e se as cautelas estiverem brancas?». O Afonso além de ser admirável cultor do bem falar, legou-nos obras de teor diverso, entre os quais o Novo Dicionário de Calão. Na sua Biblioteca recheada de obras autografadas e valiosos Dicionários que destruíam dúvidas e escoravam termos fora do comum empregues por ele. Oxalá estejam a recato de tentações. Toda a cautela é exígua.

Ora, a pandemia exige-nos cautela redobrada em todas as andanças mesmo as do Demónio tal como as contidas nos dois volumes de Jorge de Sena – Andanças e Novas Andanças do Demónio – que num País culto seriam lidas nas Escolas e Bibliotecas em virtude da qualidade da escrita e notável engenho no conteúdo. Porém, Portugal está longe de ser culto, daí a preferência à comida fast-food e não aos caldos refulgentes em odores provenientes de bons produtos e melhores cozeduras. Os receituários da cozinha popular, burguesa e nobilitada estão prenhos de receitas relativas a caldos e sopas, ou não fossem tais preparações expressões do talento dos nossos ancestrais após o Homem ter aprendido a criar e domesticar o fogo, o melhor invento desde sempre na História da Humanidade.

O caldos grosseiros e todas as suas derivações permitiram ao longo dos milénios sustentarem a vida dos famintos e dos deserdados da sorte, também aplacarem os distúrbios cuja causa resulta do excesso, do desvario, da extravagância dos possidentes, nababos e glutões. Não por acaso o ínclito Bartolomeo Scappi na sua monumental Obra inclui um livro onde ensina a tratar os doentes ministrando-lhe caldos, ou não tivesse sido cozinheiro de papas e cardeais. Os caldos de galinha e a cautela dietética revigoravam e revigoram os doentes de tudo, até da descrença em viver.

A história da alimentação está polvilhada de episódios insólitos cujo fundo encerra aforismos e reflexões morais. O autocrata Dionísio, tirano de Siracusa sabedor dos hábitos colectivos dos Espartanos que incluíam caldos servidos a todos quantos estivessem enquadrados entre os sete e os setenta anos, mandou vir para a sua corte um cozinheiro de Esparta e após a sua chegada pediu-lhe um caldo. Foi-lhe servido provocando-lhe um explosão de desagrado dado ser um composto líquido de gorduras e de sangue. Chamado o espartano à sua presença este disse-lhe: ao caldo falta-lhe tempero, falta-lhe fadiga, fome e sede!