Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Óscar Correira (Grupo Plateform), António Cordeiro (Business and Life Coach) e Alejandro Chávarro (Vinhos Livres) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): O atual momento da restauração é particularmente exigente. Vocês os três não se conhecem mas eu conheço-vos aos três e sei que estão ligados ao tema das pessoas a diferentes níveis. O António Cordeiro está ligado à restauração, é fundador da Pizza Na Brasa, está no negócio da restauração há muitos anos e agora está ligado mais aos temas da personalidade. O Óscar Correia está ligado a um grande grupo de restauração e o Alejandro Chávarro é uma pessoa que eu conheço há pouco tempo e que está ligada ao serviço e também forçosamente, e com muito gosto creio, que ele pensa no tema das pessoas. Nós estamos aqui perante um desafio enorme na restauração e na humanidade e gostava que nós pudéssemos ir falando de vez enquanto sobre estes temas das pessoas.

PA: Todas pessoas são diferentes, não é António?

António Cordeiro (AC): São sim senhora, apesar de poderem ter semelhanças. Eu trabalho na área comportamental fundamentalmente através de uma ferramenta, o Eneagrama, que o Paulo conhece e que nos alinha em nove tipos de personalidade. As diferenças começam logo por esse aspeto — não tem a ver com questões diretamente ligadas ao nosso comportamento, o comportamento é uma resultante — mas sim com nove grandes motivações inconscientes e profundas, motivações essas que cada um de nós tem e que vai influenciar muito tudo aquilo que são depois os nossos comportamentos, as nossas decisões, os nossos relacionamentos. E fundamentalmente é isso.

PA: Por vezes, tendemos em imaginar que as pessoas têm que fazer desta maneira mas cada um entende à sua maneira. Na restauração, a chefia, há uma que compreende e outra que não, que dá uma ordem, mas é que cada uma ouve da sua maneira. É que depois até a implementar é outra coisa.

AC: Isso é diretamente assim. Eu penso que não há duvidas relativamente a esse aspeto, uma coisa é aquilo que nós comunicamos, outra coisa é o que no processo de comunicação a outra pessoa percebe exatamente. E essa perceção das outras pessoas tem muito a ver com os filtros, com as nossas crenças, com as nossas convições, com as nossas vivências. Portanto é importante que haja um alinhamento em relação a isso para nós entendermos do que estamos a falar.

PA: Numa altura como esta em que temos que gerir relações à distância que contributo humano é que nós podemos dar?

Óscar Correia (OC): Eu hoje de manhã escrevi aqui uma ideia que me veio à cabeça super deliciosa para te responder a isso. Acho que hospitality right now is a very tasty link, eu acho que estamos na altura de desafios em que a hospitalidade acho que é um meio para poder chegar aos outros. O que nos está a criar este tempo enquanto restauradores é a perspetiva de competência emocional, como é que nós hoje como restauradores e contadores de histórias, pessoas que realmente têm capacidade romântica constantemente e ainda bem que nem todos os restaurantes são obcecados pelo controlo. Como é que agora conseguimos ter competência emocional sendo que estamos no lado de fora dos restaurantes a falar dos restaurantes. E penso que aqui a hospitalidade tem um grande papel, porque se está a criar conexão. Nós, no nosso caso, esperaríamos que todos aqueles que estão a fazer alguma coisa na hospitalidade hoje em dia, dado que temos um inimigo invisível sabendo que o inimigo tem um nome, mas de qualquer das formas é uma maneira de juntar todos à mesa com todas as suas diferenças, porque na verdade eles têm razão. A hospitalidade aqui é conectar e é o que tens estado a fazer tão bem ao criar estes debates e estas plataformas, porque isto é provocar a intenção que os humanos já têm e têm que pôr cá para fora. Não sei se o Alejandro se revê nesta situação mas isto está a puxar pelo melhor de cada um, agora não podemos criticar seja quem for. A ideia é conseguir fazer alguma coisa, há muitos que vão seguir a manada e nós se calhar vamos ser daqueles que vão tentar sair de uma estrada para um precipício que ninguém sabe qual é. Ninguém sabe o que é que vai acontecer amanhã. E aqui é bom lembrar que ainda somos humanos e a importância é fazer bem do princípio ao fim. Com uma boa comunicação para que as pessoas entendam e para que possam estar de certa forma disponíveis para ajudar os outros.

PA: Que lugar resta agora à técnica?

Alejandro Chávarro (AC): Eu acho que estamos numa situação um bocadinho binária, porque como estava a dizer o Óscar, agora temos que voltar a rever todo o sistema, não é esquecer do que foi feito, mas pensar como nos reinventamos, porque vamos sair com algum sofrimento desta crise. Muitos vão ter poucas ferramentas para voltar a iniciar. Acho que as pessoas quando voltarem para os restaurantes vão estar com imensas expectativas para passarem um momento agradável e nós aqui a tentarmos dar o melhor. Acho que o importante aqui é a técnica que se vai dividir em duas partes. Muito simples no trabalho do dia a dia com uma questão de gestão e depois é a técnica de como gerir as pessoas e a si próprio. Há uma carência muito grande da gestão do sofrimento, da gestão da ansiedade, nós nunca tínhamos pensado porque estamos sempre a 1000% e nunca pensamos nisto. Agora que estamos todos calmos e tranquilos, temos tempo para tratar da família, para tratar da relva da casa, organizar aqui e ali, porque temos tempo. Este excesso de tempo também é de certa forma negativo porque não sabemos lidar com ele, então a ansiedade torna-se maior e há pessoas que perdem muito mais rapidamente as ferramentas normais de como gerir o dia a dia. E eu acho que é uma parte importante aqui, e acho que vamos ter que nos reinventar com duas valências. Temos que criar obviamente um ambiente diferente, temos que recriar um bocadinho o nosso serviço. A gentileza e o amor também é importante, ou seja, nós estamos a voltar a ser humanos, a criar conexões e estamos a voltar a pensar que é importante ter uma comunidade. Se ajudarmo-nos uns aos outros, todos podemos puxar por isto todos juntos. E as pessoas também vão estar em carência de afeto e de ligações humanas. Eu acho que nós, empregadores, temos que arranjar novas ferramentas para gerir as pessoas, as equipas e focar um bocadinho mais no trabalho da gestão do stress, da ansiedade, porque já vamos ter isto tudo mexido nestas poucas semanas que já vamos estar em casa. Isto vai nos ajudar muito a conectar connosco próprios e a gerir esta parte interna para sermos cada vez melhores.

PA: Vejo com bastante alegria o equilíbrio entre fazer o que devemos fazer agora e a ideia que muito rapidamente as pessoas vão começar a trabalhar porque é preciso voltar a trabalhar em ambiente de restauração. Mas no entretanto, António, tu és a pessoa que aqui estamos nós à distância e tu também estás muito habituado a acompanhar pessoas e equipas à distância. Comenta lá como é que se acompanha pessoas e equipas à distância?

AC: Paulo há aqui uma questão que é fundamental para mim que é eu estou muito atarefado. Como estou muito habituado a utilizar os meios de comunicação da internet isto no fundo, nesse aspeto, é só uma continuidade, não estive que me estar a adaptar a isto. Eu vou bastantes vezes ao Brasil porque tenho lá uma ligação empresarial numa área mais técnica, mas muito mais do que lá ir é as vezes que estou em contacto, o que é permanente. Isto é normal já há vários anos porque fisicamente é impossível de as pessoas estarem constantemente a contactar-se, isto entra como uma normalidade. Agora um aspeto que eu tenho mais holístico trata-se, no fundo, para uma revolução também de mentalidades. Nada vai ficar igual se nós quisermos, acho que há aqui toda uma oportunidade de criar todo um novo paradigma. Viver o aqui e o agora. Eu agora tento não ter uma preocupação com o que vai acontecer depois, o que é que vamos fazer depois, é uma vivência do que é que vai ser o agora. Se nós tivéssemos essa preocupação aqui há duas ou três semanas afinal aquilo que tínhamos planeado não valeu para porra nenhuma, isto está tudo virado ao contrário. Muito menos a gasolina descer para preços baixíssimos ou estarem as estradas aí todas abertas, mas podemos ver aí muita beleza nisso. Eu chego-me ali à janela de manhã e ao final da tarde é super calmo, a única coisa que ainda me interrompe é um comboio de vez enquanto, e que faz ali um barulhito. Eu quase que oiço as ondas do mar a partir daqui. Nós estamos no meio da restauração e a restauração é para nos nutrir como uma outra nutrição muito importante para o ser humano, nós não deixámos passar isto despercebido. Podemos ser apelidados de sonhadores ou do quer que seja, mas isto é muito importante. Nós temos que começar a viver verdadeiramente no aqui e no agora. É agora que temos que começar a tratar das coisas, é o nosso momento fundamental. Isto são momentos de profunda reflexão que todos nós devemos fazer e que nós não estamos habituados mas este momento é excelente para isso.

PA: Óscar, na tua paragem parece que tudo agora tem uma cor mais definida, uma porosidade. Eu hoje à porta do talho olhava para um prédio de esquina e estava entretido nos pormenores naqueles andares, na cor do prédio, na tinta, no acabamento, no telhado enquanto esperava a minha vez cá fora para depois entrar.

OC: Isso é verdade o que tu estás a dizer. O teu valor, a tua identidade, a tua resiliência de sobrevivência ao momento atual e ao teu amor que provavelmente que tens pelo detalhe das coisas que simplesmente aquilo que te provocou, não foi? Agora olhamos para nós próprios e se tivermos esta sensibilidade curada nós vamo-nos lembrar que tudo existe à nossa volta, mesmo aquela que aparentemente é amorfa como olhares para os detalhes de um prédio.

PA: Dá para treinar isto da pessoa olhar para ela própria? É que o tema da restauração vai do ponto de vista do relacionamento com o cliente à parte do relacionamento com a equipa. Hoje, a nossa conversa aqui é mais a apontar para o relacionamento com as pessoas da sala, por exemplo. Há uma exigência grande da compreensão do indivíduo dele próprio de se conhecer a ele mesmo para estar perante os outros. Dá para treinar isto agora que as pessoas têm mais tempo? Dá para centrar para fazer aí uma afinações?

AC: Oh Paulo, tudo é treinável, agora tem muito a ver com os treinadores.
(Intervenção OC: Se for para tirar vantagem e fazer negócio esses treinadores podem ficar neste momento. Precisamos de pessoas que tenham essa vontade de treinar, mas é um treinar desinteressado, porque o momento agora é de olhares para que todos sejamos curadores uns dos outros, sem interesses. Para que depois de curados possamos continuar as nossas atividades económicas. Agora se aparecem oportunistas no meio destes dias é a mesma coisa que não abrir a porta se alguém aparecer a dizer que tenho um problema na televisão.)
Ok, eu penso só uma coisa, é que nós não podemos pensar que isto vai mudar tudo, que nós vamos ser todos uns gajos porreiros, que toda a gente vai ser porreira para nós e que vamos estar todos bem. Não. Os oportunistas vão lá estar e as oportunidades também, isso é que é importante. Nós vivemos num planeta que é caracterizado por uma coisa que é o dualismo. Tu para teres quente tens que ser frio, para teres alto tens que ter baixo e para teres progresso tens que ter regressão e isto faz parte. Agora cabe-nos a cada um de nós decidir onde é que nós queremos estar. E se eu tiver um treinador que é macaco ele pode achar que eu posso fazer umas fintas e não se quê e andar para a frente e eu estou completamente iludido. Eu penso que nós temos muita responsabilidade e muito sentido de ética no sentido de fazer com que as pessoas olhem para dentro e olhem para si.
Quando nós não temos vida para isso é porque não temos vida para outra coisa, quando a nossa agenda está cheia é porque nós somos os mais disponíveis, porque aquela malta que nunca está disponível para nada é porque nunca faz muita coisa, quem está disponível arranja sempre um espacinho.
(Intervenção OC: Olha, até porque neste momento de revolução é evolução do ser humano e portanto quem agora não tiver tempo para estar disponível acho que a seguir, depois deste tempo, ninguém se vai lembrar deles.)
(Intervenção AC: Pois é, é mesmo isso.)

PA: Por outro lado, se cada um segue o seu caminho desinteressado isso também tem a relevância que tem. Vamos lá centrar naquelas pessoas que possam estar a ouvir-nos e que estão perante altos desafios humanos. Eles são proprietários ou são funcionários e têm agora os seus estabelecimentos fechados. Vocês têm aqui alguma solução, alguma sugestão para fazer a essas pessoas? Óscar, tu que gostas de ler e escrever o que é que sugerias? A quem está ligado a este ramo da hospitalidade, para além de poder ouvir estas nossas conversas, aproveitar a família, cozinhar e apanhar um bocado de sol, que mais é que tu sugerias?

OC: Olha, eu posso falar um bocadinho do texto que já te enviei sobre a pergunta que estás a fazer agora. Mas adiantando um bocadinho aquilo que ainda vai sair, o meu conselho é que as pessoas devem investir agora na perspetiva da moldura humana incluindo nela própria, não desistirem, terem coragem, terem ânimo, pensarem que a necessidade faz a criatividade e que a criatividade alimenta a necessidade. Portanto na melhor das hipótese, se eu aparentemente ainda tenho emprego hoje, mas se não tiver amanhã vou desmoralizar ou vou passar bem, já que não consigo dar ajuda pelo menos peço a ajuda a alguém. Depois há que reconectar com aquilo que se estava a fazer porque as coisas não vão desaparecer, Isto vai ser momento agora, de facto, em que este isolamento aparentemente pode ser claustrofóbico, pode se transformar em algo positivo e fazermos o que estamos a fazer agora. Alimentar a nossa mente com esperança, com ideias novas e se calhar aquilo que eu acho que vai acabar por acontecer é uma coisa muito simples: quem reabrir agora os seus negócios vai precisar de pessoas e ao precisar dessas pessoas vai precisar que elas sejam multifacetadas e que sejam de certa forma disponíveis para poderem compensar alguma perda porque não vai ser possível recomeçar com todos on board. Portanto o melhor é poderem rever o formato do negócio, começarem provavelmente com uma oferta mais limitada e com uma oferta que vá ao encontro da expectativa do ponto de vista daquilo que é o seu mercado. E, depois, dentro do seu mercado recomeçar, porque da mesma maneira que as pessoas dos restaurantes vão começar, imagina os agricultores. Eles não podem parar, têm que continuar a produzir, as pessoas que distribuem os bens alimentares têm que continuar a fazer o seu trabalho e portanto há muita gente que à parte dos restaurantes está a contribuir para a humanidade. Portanto essa humanidade depois há de ser novamente reposta para nós reabrirmos estes espaços e durante este momento eu acho que há pessoas que podem eventualmente começar a partilhar algumas sugestões de receitas da nossa gastronomia portuguesa. Nós gastronomicamente começámos a ficar também modernos e de repente começamos todos a fazer a mesma coisa e, se calhar, onde é que está a gastronomia portuguesa? Aquela gastronomia da aldeia, da avó e que se calhar agora faz sentido voltar aos básicos. Então se os chefes hoje em dia aproveitarem este tempo agora para envolverem os seus filhos e fazerem alguma demonstração, como fazer receitas para crianças ou então fazer algumas receitas que possam ser fáceis para fazer em casa, nada profissional. Acho que também nos vais conduzir no futuro a uma coisa: vamos ter uma gastronomia de especialidade e vamos ter uma gastronomia provavelmente de cozinhas de áreas, de espaços sociais. Penso que neste momento há espaço para tudo.

Paulo Amado – Alejandro, estamos a falar de resistir, das características humanas de cada um para aguentar a tensão e a que tensões estamos todos sujeitos. Queres partilhar alguma coisa ou queres ouvir um bocado e depois já partilhas?

AC: Eu quero ouvir um bocado primeiro.

PA: Ok. Estamos aqui na partilha de como pode ser interessante a concentração no momento presente e como a antecipação só prejudica. Dizia o António ainda à bocado, se há duas semanas pensássemos que isto iria acontecer, qual era a relevância. Portanto será que agora conseguimos nos concentrar no dia a dia? Será que agora conseguimos isolar a pressão a que estamos sujeitos enquanto empresários ou funcionários de ter famílias às nossas costas e de poder saber que as coisas se vão resolver, mas enquanto se resolvem e não se resolvem há uma pressão. António, este tema de como as pessoas lidam com a pressão, mais uma vez nós temos porosidade de definição de cada um. Cada um lida com a pressão como lida.

AC: Sim, não tem a ver só com a personalidade, se nós pensarmos só no biológico, no hereditário, na influencia cultural e até na influência familiar e no momento que a pessoa tem são factores fundamentais em relação a essa noção de pressão. Eu penso que a questão não estará tanto aí, que é a pressão a olhar para fora, mas esta questão fundamental que isto custa a fazer que é de olhar para dentro e é aí que há dois vetores parecidos mas são diferentes. A decisão de nós estarmos a sofrer ou não essa é sempre nossa e vem do nosso interior.

PA: Eu estou a ouvir e a pensar sobre isso, ninguém é alheio a este tema, eu próprio estou perante os meus desafios, aliás estamos todos, e eu estou numa qualidade de pessoa que tem pessoas a cargo. Entre família e colaboradores todos temos alguém que depende de nós e hoje é o dia do pai.

AC: Eu queria aproveitar para partilhar uma coisa convosco em relação a isto tudo. Eu estou há menos de dois anos em Portugal para criar uma empresa, uma empresa que teve investimentos grandes, como muitos de vocês que têm empresas muito maiores. Mas pronto, para mim a escala já era uma mudança de vida, uma escala de investimento grande e isto parar de um dia para o outro é uma queda gigantesca, é um black out. Eu tenho praticado nos últimos cinco, seis anos diferentes elementos como o António estava a dizer anteriormente, esta gestão do agora, do aqui e agora. Estamos sempre numa matemática de antecipação e depois não estamos focados no presente e com isto vem o cansaço, as doenças, os problemas aqui, os problemas ali e é complicado de gerir. Existe um cansaço físico que depois passa para o emocional e o emocional para outras coisas. Agora isto é uma coisa completamente diferente, não temos que nos mexer muito, estamos tranquilos, mas depois cá dentro estamos num turbilhão, estamos a criar uma guerra gigantesca de emoções. Esta é uma gestão do agora e do aqui. É bastante importante ver as prioridades para nós e para os nossos problemas daqui para a frente. Temos que ver as prioridades de cada um, fazermos coisas que nunca fizemos. Estes momentos permitem reconectarmo-nos connosco próprios. Há medos gigantescos, há muita coisa que não queríamos ver e que agora temos que ver, não é? Não há outra forma.
Eu não conhecia muito em Portugal, a vida comunitária, e começo a sentir agora pessoas a criar redes, sinergias e a terem afinidades com outros e acho isso porreiro. Temos que voltar a refazer o tecido para pelo menos sobrevivermos. Em comunidade vamos ajudar alguém e esperar que nos ajudem também.

OC: Há aqui um tema que vale a pena falar aqui também. Há pessoas afetadas, há pessoas que se perderam. As palavras podem não expressar mais do que combater tristeza e dor, mas eu acho que a nível do tempo que agora temos, as falhas de reação são aquelas que vão ser mais prejudiciais. Portanto, eu acho que a nível de hospitalidade hoje é preciso preencher este gap. No fundo, aquilo que achamos que vai acontecer e aquilo que realmente precisa de acontecer é que, todos os dias, temos agora cada minuto a oportunidade de fazer qualquer coisa que crie impacto na vida dos outros. E eu não quero agora ser tão purista a dizer que a hospitalidade resolve tudo, porque também não vai resolver tudo, mas vai pôr pessoas à mesa e vai pôr pessoas que se conseguirem partilhar uma refeição e uma conversa. Ao partilharem uma conversa podem lembrar-se de alguém que já não sai de casa há não sei quanto tempo e pensar porque é que eu não vou lá bater à porta perguntar se a pessoa necessita de ajuda.

AC: A questão fundamental é nós não metermos energia, praticamente nenhuma naquela que nós não podemos estar e não podemos decidir, é o que é. A energia deve de ir toda para a nossa decisão do largar e do pegar que é para sairmos. É que isto vai ser em V. Eu tenho essa sensação profunda. Ou seja, a queda é abrupta, mas o treino também se faz assim. Ou seja, eu coloco uma carga física sobre um praticante e ele vai a baixo em termos de forma física, mas o que é que vem depois? Vem o momento de exaltação e é exatamente nesta estrutura em V que eu acredito. A queda é muito forte, mas vai para cima muito rapidamente.

OC: António, vamos precisar de pessoas que possam ter esta capacidade de leitura, de entendimento e que possam ter esses exemplos práticos. Isto, na verdade, é o toque mágico de quem tem capacidade de um colibri que vai lá deixa o pólen e faz magia.

PA: Fiquemos com esta metáfora natural. No entretanto, é fazer aquilo que os seres humanos mais sabemos fazer que é viver, resistir e numa perspetiva positiva.

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