Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Bernardo Agrela (East Mambo), Rodrigo Castelo (Taberna Ó Balcão), Leandro Araújo (Cafezique) e Vítor Adão (Plano) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Boa tarde, bem-vindos a esta nova edição do Boca Mole para partilhar e para falar. Temos hoje aqui um especial grupo de quatro pessoas: o Rodrigo Castelo está em Santarém, o Leandro Araújo está no Algarve, o Vítor Adão está em São Domingos de Rana e o Bernardo Agrela que está em Lisboa. Vou começar pelo Bernardo, porque ele depois tem que ir enrolar comida e outras coisas do género. Hoje o teu restaurante e o do Shay. Têm uma iniciativa especial, conta aí.

Bernardo Agrela (BA): Então, no meu ponto de vista, um dos grandes problemas das plataformas de entrega ao domicilio são a margem de 30%, o que seria facilmente contornável se tivesse escala, mas os novos restaurantes são muito pequeninos e o algoritmo da plataforma manda-nos sempre para baixo. Porque nós não íamos ter reviews suficientes comparativamente com um McDonalds ou com um KFC, portanto além de toda a política que eu não concordo, incluído a maneira que essas plataformas gerem os colaboradores é um ponto que não vai a favor dos pequenos restaurantes. Então, a solução que nós encontramos em conjunto [o Shay e eu] e para alargar em breve para mais restaurantes é de nós criarmos uma cooperativa em que os restaurantes controlam as entregas ao domicilio. Nós estamos a experimentar no primeiro fim de semana que vai ser hoje e amanhã e hoje já temos reservas. O que nós fizemos foi: criámos quatro horas cada hora é uma slot. Cada slot, nós limitámos a 20 pedidos por hora para nós percebermos como é que a coisa vai correr, as pessoas vão à internet escolher a hora, o menu e pagas por paypal. E nós assim vamos conseguir controlar a que horas, quantas pessoas e em que sitio de Lisboa os estafetas têm que ir. Estamos a começar agora com dois estafetas de uma empresa que nós descobrimos que fazia que também ficou sem trabalho e que cobramos só uma taxa de entrega que está incluída no preço final do menu. Estamos a fazer o menu conjunto, ou seja, nós damos o pão e eles dão outras coisas e assim basicamente não precisamos de ir às compras. Ou seja, juntámos as equipas no mesmo espaço e dois passámos a ter só um [restaurante].

PA: Mas, olha, falaste que este tipo de solução podia ser partilhada com outros restaurantes. Como é que tu vês isso? Por exemplo o Adão eventualmente interessava-lhe ir à cozinha com mais um ou dois cozinheiros e tentar experimentar um menu, como é que podia fazer?

BA: Basicamente, a ideia é criarmos uma cooperativa ou uma associação e cada pessoa que quer participar paga um x de adesão à associação. Depois esta associação é a responsável por agilizar a comunicação entre os estafetas e os restaurantes. Se cada restaurante quer fazer por si só ou se quer juntar a outro a ideia é conseguir ter o maior número de conceitos diferentes debaixo do mesmo chapéu-de-chuva.

PA: Antes que tu saias, Adão faz lá aí uma pergunta pertinente.

Vitor Adão (VA): Diz-me uma coisa, quem gere a associação?

BA: Todas as pessoas que pagam a cota têm opinião sobre a maneira como a associação deve ser gerida, ou seja, ficas logo com o dinheiro do teu lado e não há uma terceira entidade. Se acontecer um acidente com o estafeta ao entregar sou eu que pago e porquê? Se eu já pago os 30% e ainda tenho que pagar aos fornecedores e eu não consigo comportar essa margem, eu acho que têm que ser os donos dos restaurantes a ter o poder de descoser o que é que querem e como querem que as entregas funcionem. E termos uma rede que de facto nos ajuda a nós e que é controlada por nós que é criares uma ligação com o estafeta e tu pagas ao teu estafeta. Portanto, acho que é uma logística bastante mais justa.

PA: Como é que é o negocio que têm com o estafeta? Pagam ao dia ou ao serviço?

BA: Temos umas metas que depois posso partilhar que é a cada x número de entregas. Nós concordámos em dar 13 entregas diárias por estafeta. A questão é: se nós formos uma associação a funcionar como os táxis funcionavam antigamente, eu posso fazer duas entregas, o Adão mais duas entregas e nós assim conseguíamos chegar facilmente aos objetivos diários para os estafetas. A maneira da associação funcionar agora fazemos um bocado de uma maneira pré-histórica, porque sou só eu e ele, mas era um bocado cooperativa de táxis.

VA: Imagina que eu, por exemplo, tinha interesse em fazer isso contigo. Como é que eu poderia agilizar?

BA: Hoje ainda estamos a experimentar, ainda estamos a ver. Temos 20 pedidos e já atingimos o máximo e são quatro e meia da tarde. Para te ser sincero ainda não sei muito bem mas posso juntar-te ao nosso grupo do WhatsApp. É para agilizar um pouco as entrega, facilita a nossa e os desgraçados que ficaram sem trabalho.

PA: Olha, o teu projeto que apresentaste na StartUp, da criação de galinhas de campo, como é que é isso ficou? Foi suspenso, não?

BA: Está parado, ya.

PA: Então pronto, tens aqui onde te agarrar e parece-me bastante bom voltaremos a falar sobre isso. Entretanto partilhas com o Adão. Bom, que corra tudo bem. Eu amanhã vou fazer a minha encomenda.

VA: Olha, última questão. Qual é o raio máximo de entrega?

BA: Centro de Lisboa a ir até ao Campo Grande, Benfica, não passamos de Xabregas depois a sul do rio.

PA: Então vá, bom trabalho, obrigada. Bem, pareceu-te bem esta ideia, Vítor?

VA: Muito bem, tanto que nós em Lisboa estamos com um problema que é temos muito produto ainda por escoar. Temos muito pessoal parado e acho que qualquer iniciativa que seja para girar dinheiro, haver fluxo de entrar e sair acho que já seria ótimo.

PA: Ok, isto é também um teste à conexão, neste caso, de se juntarem restaurantes com uma ideia comum.
Castelo, aí em Santarém também já há um conjunto de restauradores, houve agora recentemente aquele apelo do Vasco que depois se conectou lá em baixo com o Rui Silvestre e a Noélia. Tu ficaste mais ou menos aí conectado com isso em Santarém. Haveria ambiente com certeza em Santarém para fazer uma iniciativa destas.

Rodrigo Castelo (RC): Sim, não duvido disso. Para já, em relação ao hospital, nós vamos andar. Começámos hoje a fazer as entregas no hospital, estamos organizados e, infelizmente, esta altura não está a ser boa para todos. Houve uma união muito grande nos restauradores de Santarém. Temos um grupo de WhatsApp à semelhança do que deve haver em todas as cidades. Eu nem sabia que havia tantos restaurantes em Santarém, são uns 50 e tal. E estamos bastantes, até cafés e bares, e todos os dias há bastante partilha e estamos muito unidos. Unidos ao ponto de querermos continuar depois. Não sabemos se vamos continuar ou não mas há bastante vontade. No que diz respeito ao take away, uns querem outros não, mas os que estão a fazer, os dados que partilham são bastante valiosos ao ponto de serem honestos. Uns dizem que está a correr bem ,outros dizem que não está a correr tão bem e são dados fidedignos, as pessoas estão mesmo para se ajudar. O que é ótimo se tivesse que haver sinergia haveria até porque tu sabes que temos ótimas condições na Casa do Campino. Há uma cozinha que está parada e já pensámos inclusive ir para lá cozinhar todos e fazer de lá o nosso quartel para pudermos cozinhar depois para o hospital.

Essa ideia eu acho que é uma ideia genial do Bernardo e se tivéssemos que nos juntar para fazer um take away a partir de lá com os alimentos que temos não sei até acho que o Ricardo Gonçalves, Presidente da Câmara de Santarém, era o primeiro a dizer que sim. Em relação ao take away, eu estou à espera, não vou dizer que não. Também já há a Uber Eats em Santarém, que come-nos uma grande parte sendo que 50% do nosso negócio é do estado se nós vamos dar mais 30% à plataforma, nós ficamos sem nada. Eu estou reticente em entrar no Uber Eats, nesta fase até poderia fazer sentido para o dinheiro entrar e sair, porque ajuda-me a pagar contas, mas se calhar ainda ia cavar um buraco maior. Confesso que estou nas mãos do meu contabilista em quem eu confio bastante. Mudei, também confiava no outro mas com este estou muito satisfeito e agora é ele que me dá todas as diretrizes. Eu estou numa fase que estou a estudar bastante, estou a estudar duas ou três maneiras para me safar desta, porque se me tiver que safar, vou me safar de uma forma ou de outra. Já me tive que refazer várias vezes, esta é só mais uma. Como tu sabes, eu tenho uma doença autoimune, sou do grupo de risco e não posso sair de casa e eu também me custa estar a pedir aos meus para irem para o restaurante fazer o que quer que seja, sem eu estar lá a acompanhá-los. Mas se eles tiverem que ir vão e estão mentalizados disso e querem. Graças a Deus, tenho uma boa equipa e eles querem, não querem estar em casa, já me disseram que vão. O take away levanta algumas dúvidas.

PA: Olha, então abriste o teu restaurante há quanto tempo, Leandro?

Leandro Araújo (LA): Há dois meses, abrimos a 17 de janeiro e fechámos a 17 de março. O restaurante não é meu, eu estou só como chefia de gerência com o João Valadas. O restaurante é dos donos mesmo. Estamos a pagar uma renda como é óbvio. Isto está-me a doer como está a doer a eles certamente, não sou proprietário, mas sinto como se a casa fosse minha. Entrei no projeto como se fosse meu basicamente.

PA: Ok, Loulé e o Algarve nós conhecemos como sendo turísticos, esta ideia de uma plataforma seria um pouco difícil de aplicar?

LA: Neste caso, bastante difícil. Pensámos num take away no início, mas por causa da plataforma decidimos para já que não. Há a Uber Eats mas não abrange Loulé todo, ou seja, não temos uma plataforma em Loulé para fazer um take away. O que metemos agora a andar foram os vouchers, que para já tem funcionado.

PA: O restaurante está fechado, não é?

LA: Está fechado, estamos fechados desde o dia 17 de março.

PA: Bom, ok, e quantas pessoas faziam parte da equipa?

LA: Cinco pessoas. Não é uma equipa muito grande porque estávamos a iniciar, mas já estávamos a fazer novas contratações, que tiveram que estar agora paradas, tínhamos pessoas a entrar agora em março.

PA: O que fizeram até agora? Férias?

LA: Férias, não. Vão assumir agora os ordenados de março e para abril vamos ver. Estamos à espera de novas medidas. Estávamos a ponderar o take away mas por causa das plataformas está complicado e é os vouchers. E de resto não podemos fazer mais nada.

PA: Adão, como é que está o Plano?

VA: Pá, o Plano está como 97% da restauração portuguesa — em stand by. Estamos a analisar várias hipóteses. O meu sócio, como tu sabes, é contabilista e ainda estamos a perceber dentro das medidas o que vale a pena, porque o meu estilo de comida é um pouco diferente para servir em take away e não sei até que ponto seria viável. Estamos a pensar não excluir o take away mas pensar algo de raiz. Para ter take away faz sentido se for para prolongar, não faz sentido como recurso agora. São coisas que nós estamos a ponderar bem, qual é a linha e o fio condutor. Nós ainda estamos muito à deriva porque o último decreto-lei saiu ontem ou hoje e estamos a tentar perceber o que fazer e não fazer. Vamos ter uma reunião hoje depois disto para tentar perceber o que vamos fazer. Entretanto as pessoas que temos a trabalhar que são oito, tem sido complicado, porque quando nós precisámos deles. eles estiveram lá e agora que isto aconteceu, eles continuam a estar lá. Não nos podemos esquecer de ninguém, estamos a tentar perceber a fórmula melhor que conseguimos para ter os empregados e a parte da empresa salvaguardada. Embora vá ser quase impossível haver alguma coisa salvaguardada. Nós temos um problema grande porque não sabemos quando isto vai terminar e muitas das empresas eu não sei como vai ser depois o voltar de cliente, principalmente estrangeiros. Lisboa trabalha 70% com o turismo. Vai ser um problema grande que vamos passar, não só agora mas a nove meses um ano porque o mercado nacional, este mercado está completamente parado, como o mundial não vai existir. E nós vivemos muito do turismo, principalmente no verão, nos meses mais fortes.

PA: Pode ser um verão tardio, como é que sabes que não vai existir? Não sejas negativista, calma.

VA: Mas repara, as pessoas vão passar dois meses ou três em casa, vai haver um poder de compra cada vez menor. Claramente, eu não vejo o mercado internacional voltar. Os nossos grandes mercados como Estados Unidos, Brasil, França estão a ser completamente esmagados com esta crise. Se não vierem nós vamos perder muito poder de compra.

PA: Pode ser que eles não venham durante um tempo, no entanto pode ser uma possibilidade daqui a uns meses as coisas estabilizarem e eles voltarem aos sítios onde queriam ir. É uma incógnita, não sabemos.

VA: Eu acho que nada vai voltar ao que estava depois de acabar isto. Eu não acredito que depois de este ano as pessoas voltem em massa, mesmo que acabe para a semana. Atenção, eu não sou vidente, vejo na minha perspetiva. Felizmente 95% dos clientes são portugueses, mas eu acho que vou conseguir ter clientes novamente mais rápido do que alguns. Eu não sei até que ponto nós vamos ter nos próximos meses. Isto é a minha forma de ver, se calhar estou errado, percebes?

PA: Não sabemos, não é?

VA: Sim, é tudo muito vago.

PA: E tu Castelo, a tua comida adaptar-se-ia a take away? Como está em Santarém? Tu antes dos restaurantes fecharem tiveste que ir para casa por causa da tua doença, não foi?

RC: Sim e já estou aqui há tempo a mais para pensar no que vou fazer. Eu adaptava uma linha muito de conforto. claro. O meu restaurante tem pratos que seriam difíceis de adaptar e outros que nem tanto, mas teria que me adaptar e é nisso que estou a pensar. Agora numa linha de take away que a pessoa se sinta confortável, isto do take away a cabeça da pessoa está muito feita à pizza, ao hambúrguer e ao frango assado. As pessoas dão uma borrifadela e pronto. Se calhar em relação ao resto não estão tão confortáveis. Epá uma linha de take away se eu a fizesse, eu só pensava nos confecionados não pensava nas saladas, nem alimentos que não fossem nada confecionados agora numa primeira etapa pelo vírus. Porque as pessoas ainda estão com muito medo. Pensava só mesmo nisto.

PA: Como é que tens passados os teus dias, Adão? Para além de passear o cão.

VA: Os meus dias foram passados de duas formas. Há muita coisa que eu tinha em atraso que decidi pôr em dia e segundo, também dar amor a algumas coisas que não tínhamos. Imagina, eu passava 90% do meu tempo fora ou a dormir, eu não tinha contacto indiretamente com a casa ou com a minha namorada. Com nada, percebes?

PA: Tens feito umas receitas?

VA: Tenho feito umas receitas, também estou a fazer o diário. Já era para ter começado há dois dias e comecei ontem. Estou a fazer uma receita para a Time Out e para o Boa Cama Boa Mesa e algumas coisas para me entreter.

PA: E tu Leandro, voltaste ao restaurante depois?

LA: Não, o João e a Sara [que é a proprietária] moram em Loulé, eles é que estão a tratar de ir lá de vez em quando ver como está, temos algumas plantas que têm que se regadas. Exige algum cuidado então vão eles tratar disso. Eu aqui em casa o que tenho feito é estar com a minha mulher e com a minha filha a cozinhar, a fazer mudanças em casa. Aproveitar o temos que não tínhamos antes e que agora temos em excesso e fazer o que nunca era feito.

PA: Olha, o Algarve nos últimos anos é por excelência uma região turística, portanto já está mais ou menos habituado a estes solavancos da baixa estação, dos picos. Como é que está o Algarve a aceitar esta situação?

LA: Falo do nosso caso, como abrimos há pouco tempo a maior parte dos clientes eram portugueses. Era pessoal de Loulé, de Faro, aqui à volta. Agora em março já tínhamos começado a ter alguns clientes estrangeiros, não sentimos muito a falta dos clientes estrangeiros. Claro que agora no verão a maioria iam ser estrangeiros. Os outros restaurantes que trabalham na sua maioria com estrangeiros agora vão sentir a falta deles que não virão agora durante estes meses e não vão voltar tão em breve.

PA: E da conversa que tens com os teus colegas de outros restaurantes e hotéis, está toda a gente parada ou há gente a adotar outros modelos?

LA: Neste momento os únicos que eu conheço que estão a fazer take away são o Filipe [Martins] da Kubidoce, o resto está tudo parado em casa à espera de medidas. Penso que devo ser dos únicos a ter vouchers aqui na zona. O resto está tudo parado.

PA: Estávamos de facto num momento bastante especial, não é? Não era só em Lisboa e Porto, o Algarve também começava a ter restaurantes portugueses. Faro [estava] com uma movimentação boa, não era?

LA: Sim, já se estava a ver coisas novas cá por baixo e sítios improváveis. Tem estado a haver movimentação e boa energia aqui no Algarve.

PA: Castelo, tu estiveste recentemente daquele que foi início das celebrações dos 40 anos do Festival de Gastronomia de Santarém que tinha um programa bastante ambicioso. Naturalmente que essas atividades estão suspensas. Tu acreditas que esta ano vamos ter lá a frente o festival?

RC: Eu não tenho a menor dúvida. é em outubro, Paulo. Não há porque adiar um festival em outubro. Eu acredito que no máximo quatro, cinco meses isto está resolvido. E acredito que o Dia Nacional da Gastronomia também se vá realizar e que uma série de datas importantes que tínhamos para celebrar em Santarém não vão ser celebradas quando era previsto mas em datas mais à frente, em segurança. Outras vão ser celebradas pelas plataformas digitais, como tudo está a ser feito hoje em dia.

PA: Vai ser um final do ano assim recheado.

RC: Em grande, em grande.

PA: Vai ser uma saída forte.

RC: Epá começámos em grande e terminámos em grande. E até pode ser que isto acabe mais cedo do que nós esperamos. Se nós estivermos mentalizados que isto será mais quatro meses e isto acabe em dois ou três meses, é ótimo. Eu acho que, nós portugueses, levámos isto bem mais a sério do que os nossos vizinhos.

PA: Nós tivemos um bocado de sorte.

RC: Nós levámos isto bastante a sério até porque muitos ante de ser decretado o estado de emergência, nós já estávamos todos em casa. A verdade é essa ,não é? Pronto.

PA: Adão, é mesmo assim, não é? Ter um plano. É isto?

VA: São dores de cabeça todos os dias, porque como quase toda a gente sabe, eu abri em agosto em regime fora. Só a partir de dezembro é que abri dentro. Um investimento meu num espaço completamente diferente de Lisboa. Estávamos a fidelizar clientes, estávamos a trabalhar bem, ia meter mais duas pessoas a trabalhar que claramente tiveram que ficar em stand by. Agora é tentar perceber como é que vamos minimizar o custo. Estou todos os dias a falar com o António para tentar perceber o que podemos fazer e ser otimista com o futuro porque eu acredito que vamos ficar bem, vamos voltar em força. Acho que quem trabalha genuinamente vai regressar mais rápido. Eu acredito nisso ou, pelo menos, quero acreditar que assim será.

PA: Tu estás ligado ao mercado de Lisboa já há algum tempo e viste com certeza esta vinda de estrangeiros não só enquanto turistas, mas também muitos milhares enquanto residentes. Isto é, gente que depois não se vai embora. Mesmo que uma parte vá, alguns vão ficar. Isto pode-nos dar uma boa perspetiva sobre o futuro. Não achas?

VA: Acho e daí eu há pouco ter dito que os restaurantes que trabalham com o mercado nacional e com aqueles que vieram para ficar vão ter uma recuperação mais rápida porque não dependem das companhias aéreas, dos mercados fortes em si, percebes? Eu quero acreditar que vou ter uma recuperação rápida. Eu digo rápida, digo a seis meses não a um ano. Eu acho que vamos ter que ter consciência daquilo que estamos a passar, não só em termos de negócio, mas também como sociedade e como mundo. Às vezes esquecemo-nos que o mais importante são as pessoas, temos que fazer um balanço equilibrado.

PA: O que interessa agora é salvaguardar-nos uns aos outros, porque as empresas vêm depois e elas são feitas com pessoas. Leandro, este tempo do estrangeiros que passam a residentes, o Algarve foi porventura das primeiras regiões do país a ter esse fenómeno mais evidente tanto que há pouco disseste que o teu restaurante trabalhava mais com locais. Então os estrangeiros vivem no mundo só deles, é isso?

LA: Pelos vistos, se formos ver bem, Loulé está com uma boa taxa de gente a viver lá. Há muita população estrangeira cá no Algarve. Nós começámos a trabalhar com bastantes portugueses e agora já estávamos a começar a ter estrangeiros antes de fecharmos.

PA: Castelo, Santarém teve um momento forte de novos restaurantes na última meia dúzia de anos. Tu próprio. Por graça és aqui o restaurador mais antigo, não é muito comum.

RC: Epá, há aí dois ou três mais antigos do que eu. Depois vim eu e depois de mim vieram muitos, mas ainda bem para Santarém, que venham muitos e bons. Agora, o que começou a haver muito em Santarém são cafés que servem refeições e isso já está a deixar mossa a quem faz restauração a sério e tem empregados a sério. E será que esses sítios têm condições? É uma luta desonesta, portanto

PA: O preço pode ser um dos fenómenos para a mudança. Baixar o preço para conseguir dar mais possibilidade para as pessoas que vão custar a regressar aos restaurantes. Vias-te a reformular o teu conceito e a pensar noutros preços.

RC: Eu para reformular os preços tinha que mudar muita coisa no meu restaurante, o meu restaurante mudou muita coisa desde que abriu, tem vindo a evoluir todos os anos.

PA: Se for preciso mudas o conceito da Taberna ao Balcão?

RC: Para me salvar a mim e aos meus, mudo, sem dúvida. Se eu tiver que tornar aquilo numa cervejaria só com bifes para me salvar, olha que remédio tenho eu. Uma cervejaria boa, claro.

PA: Tens que fazer uns bifes do caraças.

RC: Mas estás a perceber o que eu quero dizer seguramente. Eu penso rápido: o que falta em Santarém é uma cervejaria boa. Agora o meu restaurante é gastronómico e com muitos detalhes de autor. Epá se eu tiver que mudar aquilo tudo de pernas para o ar, mudo para me salvar a mim e aos meus.

PA: Tu, Adão? Qual é o plano? Mudas?

VA: Epá eu acho que nós temos que nesta fase pensar, refletir e entender muito bem tudo o que está à nossa volta e perceber o que temos que fazer para mudar ou se temos que mudar. Acho que há uma coisa que não nos podemos esquecer: as pessoas vão aos restaurantes pela essência do restaurante, por aquilo que consegues dar. Eu não acredito que se o Rodrigo mudar as pessoas não fiquem chateadas, porque as pessoas querem ir ao restaurante quando abrir, é um restaurante que eu quero ir quando abrir. As pessoas vão lá porque ele conseguiu marcar as pessoas, uma região e conseguiu marcar um território nacional. Se queres ser internacional primeiro sê regional e, por exemplo, o Rodrigo conseguiu isso no expoente máximo nacional. Se eu tiver que mudar claramente que mudo, mas eu acho que nós temos que fazer com a melhor essência que nós consigamos dar.

RC: A primeira mudança que eu vou fazer é a reduzir lugares, não é a fazer a cervejaria. Não vou ter tantos clientes como tinha. A fazer o que vou fazer, epá vou reduzir lugares, vou dar mais qualidade ainda e vou ter menos clientes e vou trabalhar menos dias.

PA: São tudo possibilidades e essa é a ideia discutir, diferentes cenários. Leandro, achas que era possível mudar o conceito?

LA: O que vale a pena, não é? Acabámos de abrir uma casa nova, as pessoas estão gostar do conceito que lá, estar a mudar agora para ser mais uma coisa do que há acho que não seria viável, mas se tiver que ser vamos ter que nos adaptar ao que der. Nem que seja fazer mais horas, trabalhar mais dias qualquer coisa vai ter que ser feita. Temos que pensar agora em sair desta todos bem e depois acho que toda a gente que goste do que faz vai trabalhar para que isso tudo dê certo, adaptando ou não o conceito ou mudando, toda a gente vai-se safar de uma maneira ou outra.

PA: Olha o que é que vais fazer no fim de semana?

LA: Vou fazer uma churrascada aqui em casa com as minhas meninas, estar a ver filmes, arrumar o quarto dela porque já está com cinco meses e pronto não há mais nada a fazer.

PA: E tu, Castelo, tens campeonato este fim de semana?

RC: Olha, eu já subi do campeonato regional à segunda liga e agora estou em terceiro lugar. Mas os meus dias é a cozinhar, a arrumar a cozinha e com a doença que tenho, vou todos os dias fazer uma caminhada com segurança, não me chego perto de ninguém. Vou com o meu filho e pronto. E a minha mulher dá-me cabo da cabeça se eu não fizer nada aqui em casa.

VA: A chamada caminhada higiénica.

PA: E tu, Adão o que vai fazer este fim de semana para além de veres o documentário que vai estrear amanhã à hora do almoço?

VA: Para além de rever o documentário, vou ao restaurante porque tenho muita coisa congelada, congelei muita coisa que não deveria sequer ser congelada mas não havia forma de o fazer. Perceber como está tudo, também temos muitas flores, muitas coisas que não nos podemos esquecer. Felizmente no restaurante eu tenho um parque privativo, ou seja, entro com o carro não ando aí em contacto com ninguém. Não temos hóspedes. Vou fazer para ai umas 15 receitas e vou-me entreter com o cão e com a minha namorada, a Didi.

PA: Então bom fim de semana e, se tiverem tempo, podem ver os episódios do Boca Mole que ainda não tenham visto e divulgar por aí.

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