Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com António Gonçalves (Pousada de Bragança, Restaurante G), Gonçalo Queiroz (Origens, Évora) e Tiago Carvalho (em representação dos restauradores de Braga) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição deste Boca Mole. A ideia é partilharmos com pessoas ideias sobre o tempo que corre, sobre a solução que cada um encontra para o passar, sobre o que o motiva, o que o caracteriza com uma vontade também de dar voz ao país inteiro. Temos em Évora o Gonçalo, o António está em Bragança e o Tiago está em Braga. Eu estou em Lisboa e estamos a gravar este programa no dia 26 de Março de 2020.
Gonçalo, tu tens um pequeno restaurante em Évora, tiveste que o fechar eventualmente e a maneira que arranjaste para resistir foi fazer take away, verdade?

Gonçalo Queiroz (GQ): Sim, desde início quando vi que isto estava a descambar, não é? Estávamos a ver a situação a ficar um pouco perigosa para toda a gente e também é um perigo real nós trabalhamos com pessoas e na última semana antes de fecharmos o restaurante parecíamos uns psicóticos, a fazer desinfeções de tudo e mais alguma coisa no espaço onde os clientes estavam. Pela segurança de toda a gente decidimos mesmo fechar e apostar no take away logo desde inicio. Mas a aposta no mercado em Évora é um bocado difícil, não tem a adesão que nós estávamos à espera e é natural. Com o açambarcamento das pessoas aos supermercados, estas estão bem abastecidas em casa e então se calhar só nas próximas semanas é que vamos ver algum movimento no take away, mas duvido também, não sei.

PA: António, tu estás na Pousada?

António Gonçalves (AG): Eu estou na Pousada sim, a Pousada está fechada e eu tanto na Pousada como no Geadas mandei todos os trabalhadores para casa, ou seja, os nossos 30 trabalhadores estão em casa neste momento, ainda sem saber muito bem os desenvolvimentos. Basicamente estou aqui fechado sozinho. De manhã tenho estado a dar aulas por vídeo-conferência, porque dou aulas no Instituto Politécnico. É muito interessante porque eu pensava que ia ter um ou dois alunos e de repente tenho uma sala cheia, 40 alunos do segundo ano de turismo, ou seja, nem tudo é mau. Estamos a adaptar-nos a situações novas, mas na realidade isto é um admirável mundo novo que não é muito bom. Estamos fechados, não há clientes, não há movimento e pior do que tudo não há procura turística neste momento, o país está fechado ao turismo, temos que perceber também isto desta maneira não é.

PA: Tiago, como é que estão os teus restaurantes em Braga?

Tiago Carvalho (TC): Os meus restaurantes estão fechados bem antes das medidas decretadas pelo governo. Houve o período de desconfiança que é normal, também havia insegurança por parte das equipas que não se sentiam à vontade. Eu lembro-me de uma situação com os últimos clientes que servimos em Braga no centro, eram alemães e as pessoas estavam com receio de servir. A desconfiança já era mútua, já não era só o cliente que desconfiava do colaborador que lhe levava a comida à mesa, era também a situação inversa. Então acabámos por encerrar e pronto foi a batalha que se travou até ser decretado o estado de emergência e até serem todos os restaurantes encerrados.

PA: Como é que surgiu esse movimento com o qual agora tu te relacionas? Explica lá para percebermos.

TC: Foi um movimento espontâneo, não havia forma de estarmos preparados, porque nem nós estávamos preparados para aquilo que aconteceu. Isto caiu-nos que nem uma bomba em todos os empresários de restauração. Fomo-nos juntando, empresários da restauração e depois fomos alargando o grupo e neste momento tempos uma unidade cá em Braga que representa 120 e não para de aumentar. Já vamos em 120 aproximadamente e mais de 1200 colaboradores que são o que nos pesa nas costas, basicamente. São essas equipas que nos deram muito trabalho a fazer, custou bastante a limar, a aprimorar para irem de encontro à nossa filosofia de trabalho e cada um tem a sua. É um grupo que tem arranjado algumas formas de se fazer ouvir numa primeira fase junto das entidades competentes cá em Braga para que estejam atentos à nossa realidade, porque é muito complicado mesmo, não há de ser pior do que em Évora, em Bragança é comum, é transversal, mas neste momento estamos a unir esforços, porque uma coisa é falar o Gonçalo, é falar o António, é falar o Tiago, o Paulo. E o Paulo já não fala só por si, fala por um conjunto de empresários da restauração. Mas é juntar e neste momento eu estou aqui não só na representação dos meus restaurantes, mas na representação de um todo que nós formámos aqui em Braga.

PA: Pelo que disseste na descrição breve, [são] 120 restaurantes e mais de 1200 colaboradores. O clássico de uma empresa portuguesa mais ou menos é 10 colaboradores. São empresas familiares. Não estamos a falar de cadeias.

TC: Paulo, nós falamos do mesmo problema. Muitas vezes é confundido aqui o empresário com o empregado, dou o meu exemplo: comecei com a minha esposa e fomos crescendo criando postos de trabalho. Eu, muitas vezes, e particularmente me revejo muito como um empresário de restauração comum, de todos que batalhamos e temos os objetivos comuns. Há restaurantes aqui que têm um colaborador, outros que é a própria pessoa, ou seja, mediante aquilo que é lançado, mediante as informações que estão saindo cá para fora. Nós não nos enquadramos nelas nem de perto nem de longe. Nós não temos um gabinete jurídico, nós não temos um gabinete financeiro, nós não temos o gabinete de assessoria, nós não temos as ferramentas que nos estão a ser pedidas agora, porque não dispomos delas nos restaurantes, nós vivemos do dia a dia. O dia de hoje é um pouco o que se passou ontem e a restauração é mesmo isto. É um bocadinho mais complexa, empresas com capitais próprios negativos não podem recorrer à banca e na nossa área ainda é mais complicado. O nosso investimento é ao fim de um ano ou dois temos que repor alguma coisa substituir alguma coisa, substituir cadeiras, temos que ser dinâmicos, então o dinheiro que nos vai entrando é o dinheiro que nos vai saindo.

PA: António, tu aí em Bragança tens alguma comparação com este caso? Fazes parte de algum grupo? Como é que estás a par destes temas?

AG: A par da legislação, eu tenho estado em conjunto com a APHORT, sou sócio já há imensos anos e realmente faço um trabalho de muita proximidade. Eu não tenho gabinete jurídico mas trabalho com os meus advogados, tenho pessoas que trabalham em parceria comigo que realmente vamos discutindo a par e passo isto. O que está a acontecer aqui é que não há esse movimento que existe em Braga. Braga tem uma dimensão populacional e uma massa critica diferente do que aquela que tem Bragança. O que eu tenho a dizer é que na realidade vamos falando entre todos os restauradores e os hoteleiros da cidade, até porque o momento é extremamente grave e as autoridades locais nesta medida acabam por não acrescentar absolutamente nada, não é. Nós de repente não vamos passar a ter porque de dia para dia os casos de Covid vai-se aumentando, essa é que é a verdade. Parece-me que é uma situação neste momento que a restauração está completamente fechada eu ouvi falar aqui em Évora que acontece aquilo que acontece em Bragança. Eu falo mais no restaurante dos meus pais, a pousada é a pousada, eu não conseguia estar aberto nestas condições. É demasiado risco para os meus trabalhadores e clientes e decidi de imediato fechar. Fechei na sexta-feira passada. E com isto o que eu te posso dizer é que a dificuldade agora acresce de dia para dia, nós estamos a chegar a fim do mês de março e vamos ter que todos que pagar os ordenados e a verdade é que não estamos minimamente enquadrados nas medidas do governo. Só vamos poder estar enquadrados na maior parte dos casos a partir de maio, quer dizer não faz sentido absolutamente algum. É o que me parece a mim.

PA: Gonçalo nós partilhamos os mesmos grupos que há no Whatsapp neste caso os cozinheiros do Alentejo. É essa a tua fonte de informação ou tens outra fonte de informações?

GQ: Não, basicamente é esse, também já tinha pensado em criar um grupo aqui em Évora, mas tenho tido algumas coisas a tratar e depois estas coisas estão a correr todas ao minuto, estão sempre a chegar informações novas, não é. O governo também vai atualizando as informações. Para me sentir informado tenho usado esse grupo do Whatsapp e também tenho estado em contacto com o meu contabilista, uma pessoa cinco estrelas nesse aspeto, está sempre em cima do acontecimento e depois passo a palavra a colegas aqui da região de Évora. Existem outros chefes aqui da cidade que também me contactam e perguntam coisas sobre o que vou fazer, mas ao fim ao cabo estamos todos de mãos e pés atados. E é esperar que o governo olhe para esta situação com outros olhos e que mude as regras do jogo. Como as coisas estão não estão famosas para ninguém.

PA: Ok, tu sem clientes tens um espaço. O espaço é teu?

GQ: O espaço é alugado.

PA: Portanto tens um espaço arrendado, tens uma equipa, tens a obrigação legal de lhes pagar ordenados, mas não tens clientes. O que é que tu gostavas de ter? O que é que o governo ou outra entidade pode ajudar?

GQ: A medida do layoff tem que ser mais clara, mais abrangente e tem que apoiar a sério as empresas a pagarem os vencimentos dos colaboradores. E claro, sem dúvida alguma, tem que haver injeção de liquidez nas empresas para que quando este tormento passar — e até este tormento passar — as pessoas consigam fazer face às suas despesas. O senhorio também quer que a renda seja paga e os fornecedores também querem ser pagos entre outras despesas que o setor da restauração também tem. Eu também penso um pouco no que virá a seguir a isto. Tem que haver um reforço positivo em relação a isto, porque não é de um momento para o outro que as coisas vão retomar àquilo que eram.

PA: Tiago, o que ouviste dos teus colegas rima com certeza com as vossas reivindicações aí em Braga, não é?

TC: Eu ia jurar que o António e o Gonçalo estão no nosso grupo do Whatsapp, porque é mesmo isso, a nossa partilha. Nós juntámo-nos, fomos debatendo o nosso problema em conjunto de qual era o caminho e quais eram as alternativas. Em conjunto vimos que há duas entidades locais que se devem juntar a nós e que devem defender o interesse dos empresários da restauração que é a Autarquia e a Associação Comercial de Braga que é quem representa aqui os comerciantes, os restaurantes. Também a industria e os serviços, fomos fazendo esforços, movemos, juntámos e fomos vendo quais eram as dificuldades de cada um, criámos um manifesto que vai ao encontro aquilo que também estava agora o Gonçalo a falar. Paulo, o presente já nós estamos a ver como é que ele é. já cá está. Deste caos que nós estamos, neste momento nós vamos erguendo as mãos, mas quem nos pode realmente deitar a mão é o governo e está-lhe a custar. Nós, empresários da restauração, precisamos mesmo do apoio deles para não nos deixarem cair, nem a nós nem às nossas equipas, porque é muita gente e doí-me mesmo esta questão. Nós apontámos duas medidas no manifesto que já enviámos para a presidência da república, para o gabinete do primeiro-ministro, finanças, secretário de estado da economia e para onde podemos para ver se alguém nos ouve. Achamos interessante que nos primeiros três meses em que abrirmos as portas, os nossos trabalhadores sejam mantidos com um layoff de 50% do seu vencimento por parte da segurança social. Da parte do estado também será mantido uma isenção de 50% das contribuições normais que nós temos que pagar, porque isto não vai ser abrir as portas e ter os clientes lá à espera, porque as pessoas vão precisar mais que um período de retoma económica, vai haver um período de retoma de confiança por parte do cliente e é isso que nós achamos preocupante nessa parte no que toca à retoma. No que toca ao layoff precisamos de um layoff imediato onde assumam os pagamentos dos nossos trabalhadores, nós pedimos 100% do pagamento dos nossos colaboradores. Vejamos um exemplo, a partir do próximo mês, os país que ficarem em casa a prestar auxílios aos filhos serão pagos a 100%. Não estamos a pedir mais do que aquilo que o governo já está a fazer noutro tipo de ajudas. Metemos aqui também um pequeno ponto neste nosso manifesto referente às linhas de apoio do IEFP. Estágios profissionais, incentivos, converte mais, porque as verbas estão aprovadas, os incentivos estão aprovados só falta mesmo é porem o dinheiro na conta das empresas. O dinheiro faz sempre falta e nesta fase faz mesmo muita falta que o IEFP disponibilize essas verbas. O IEFP é um organismo um pouco diferente daquilo que são os outros que estivemos a falar. Depois há o ponto mais virado para a banca para quem vai recorrer a empréstimos para resolver os problemas de tesouraria daquelas linhas com as taxas de juro absurdas que estão aqui a aparecer que é para empresas com capitais próprios negativos possam aceder a créditos nesta condição especial.

PA: Mas porque é que achas que a restauração tem que ter um tipo de tratamento que é diferente de outro tipo de atividade?

TC: Nós não estamos a pedir um tratamento diferente, estamos a pedir uma sensibilidade diferente. Em termos de atividade, nós já vimos e sabemos que nós precisamos de ferramentas diferentes para o nosso dia a dia, nós não estamos durante um mês a trabalhar para um cliente só a facurar daquele cliente, a nossa faturação é diária. Nós vivemos do dinheiro do dia a dia, nós temos o nosso fundo de caixa, nós precisamos de movimentar esse dinheiro e nesse momento nós não conseguimos porque não temos clientes a entrar. Aconteceu-me outra situação e deve ter acontecido a outros: estou com o stock completamente cheio, está tudo a abarrotar. Tive que fazer gestão do produto, o que podemos dar, o que podemos guardar e ficámos assim porque isto não foi avisado que daqui a uma semana vocês vão ter que fechar, demoraram quatro ou cinco dias para decidirem se fechavam ou não e depois disseram fechem e nós fechámos.

PA: António, subscrevias com certeza este tipo de medidas se estivesses em Braga, verdade? E que outras é que podias dar?

AG: Em Bragança também subscrevo exatamente as mesmas medidas parecem-me bastante audazes já que temos que pedir, pedimos logo assim. Concordo plenamente, agora a grande questão é realmente de uma forma mais objetiva e diria um pouco mais realista, porque ao estarmos a meter em cima da mesa, eu também meteria estas situações em cima da mesa da mesma forma até porque concordo com elas e necessitamos delas. A realidade é que temos consciência e não vai ser isso que vai acontecer de maneira. Mesmo o layoff da forma como está, a 60% penso eu, e 30% da nossa parte seria o mínimo que poderíamos na realidade pedir ou o verdadeiro simplex, ou seja, verdadeiramente simplificado. Não é com a alarvidade de documentos que nos estão a pedir e não é só os documentos, não é. É com todos os registos e relativamente aos 40 % do período homólogo do ano anterior.
(Intervenção TC: António, só um pequeno à parte, peço desculpa de te interromper. Eles sabem tudo da nossa vida, eles têm o nosso saft, o nosso saft do mês de fevereiro e janeiro e quando quiserem nós podemos enviar o saft do mês de março que está encerrado, nós não comprámos nem vendemos. Está lá, eles não precisam de mais nada.)
Completamente ridículo é simplificar verdadeiramente o que tem que ser simplificado. Concordo plenamente com isso, concordo com aquilo que estavas a falar relativamente aos meses posteriores. Há aqui uma coisa que é a procura turística e vamos ver como vai reagir relativamente aos meses de junho, julho e agosto. Esqueçam tudo o que está para trás disto. A grande questão, que ainda ontem me falava economista, é se vamos ter um 11 de setembro em V ou se vamos ter um 30 de maio em U, ou seja, vamos em queda livre até 30 de maio e depois lentamente vamos ter uma retoma ali no mês de junho e julho. E, digo eu, depois vamos ter um belíssimo mês de setembro e um belíssimo mês de outubro. Temos que ser positivos, não é?

PA: Eu folgo em ver essas vontades de futuro. Eu tenho feito estes programas todos os dias e só ontem é que começámos a olhar lá para a frente porque até ontem e hoje já estamos com esta vontade de poder acreditar no fundo, também a sair um bocado desta máquina de lavar ou a tentar sair, a acreditar que lá à frente virão coisas. A questão aqui é como é que a informação chega às pessoas de direito. António tu fazes parte da APHORT o quê que tu sabes sobre isto?

AG: Há um conjunto de entidades que estão a fazer chegar estas vozes depois ao governo.

PA: Não é curioso tendo o turismo crescido da maneira como cresceu e passado a ter o impacto que teve na economia do país, as estruturas do país, pelo menos a restauração, tem com certeza uma grande parte da receita que vem do turismo? Nestes contactos que tenho tido, as pessoas não se reveem e não conseguem achar representante da sua palavra. O que é que tu achas que é isto? A estrutura representativa da restauração em Portugal durante estes anos não conseguiu posicionar-se de maneira a agora apresentar uma palavra forte com a capacidade de gerir a mudança.

AG: É assim, vamos lá ver, as estruturas do país estão divididas num conjunto de associações, tanto pode ser a AHRESP, como pode ser a APHORT, como podem ser depois associações comerciais. Na realidade uns acabam por ter mais voz do que os outros e essa é que é a grande questão, por isso é que eu disse que neste momento a nível local, a nível municipal acaba por não podermos fazer muito, parece-me a mim. Parece -me que não há aqui muito a fazer a não ser quando estamos aqui a falar em medidas que têm que ser levadas a plenário de uma forma mais forte. A mim parece-me um pouco isto. Na realidade é fazer chegar um conjunto de indicações a uma central e essa central parte para o governo. Acaba por ser generalizado tanto no norte como a sul como no centro na verdade temos todos as mesmas reivindicações. Agora, eu acredito é que a nível local possa fazer outro tipo de trabalho e é a altura para podermos fazer dessa maneira.

PA: Os munícipes também têm uma palavra a dar e alguma decisão que eles possam ter pode interferir positivamente com a restauração. Portanto, as vossas cidades também. Em que ponto estás tu, António? OS teus trabalhadores estão todos de férias? Estão em que posição?

AG: Sim, vão receber os ordenados todos por inteiro, ou seja, eu cheguei a um acordo com eles e neste momento está toda a gente de férias ou com folgas que tinham atrasadas, pronto, qualquer uma destas situações é plausível e é legal contrariamente ao que muita gente tem vindo para ai a reivindicar, mas independentemente disso acho eu há um bom senso pelo menos eu vi aqui muito bom senso da parte do meu grupo de trabalho ou seja eles têm noção completa ou seja acho que isso acaba por acontecer com toda a gente. Eles têm noção completa de que não há muitas alternativas ou realmente arranjamos aqui alguma forma minimamente legal em que não há um perder muito nem há um perder pouco, há um perder intermédio em que dividimos a coisa a meio. Nesta primeira fase vão de férias numa segunda fase entram em layoff e numa terceira fase, espero eu que não haja vão entrar em folga negativas, também é possível. Eu estou a falar nisto a pensar neles.

PA: Mas é importante essa partilha. Mas essa das folgas negativas nunca tinha ouvido falar. Já tinhas, Gonçalo? Em que ponto em que estás tu?

GQ: A nossa equipa de momento está em casa em layoff, assinámos todos o layoff. Foram as primeiras medidas que vimos que eram possíveis fazer, mas eu estou a ouvir também outros colegas de outras áreas e é possível meter os funcionários também a cumprir férias.

PA: Já há layoff desses 120 restaurantes?

TC: Recebi a informação há pouco que parece que vai um restaurante entrar em layoff, está tudo à espera que seja lançado hoje um decreto de lei mais direcionado mas acho que a maior parte vai avançar para o layoff. É lógico que nós temos debatido aqui também a questão dos nossos colaboradores, a forma como cada um tem que gerir as suas equipas e resolver esse problema. Como é que os vamos ter. No que toca a mim, da última vez que estive com eles de quando fechei os restaurantes meti completamente as minhas equipas à vontade o fim do mês será pago entretanto vamos conversando e vendo como é que as coisas se vão resolver as pessoas não estão imunes à situação eles sabem que os postos de trabalho deles dependem deste momento da luta que nós estamos a travar não há outra volta a dar eles sabem e sentimos esse apoio da parte dos nossos colaboradores. Vamos para a luta se calhar vai haver cedências de parte a parte. As férias, as folgas negativas o próprio layoff, o futuro será no que toca a mim sentado à mesa de uma forma muito familiar.

PA: Entendi como de resto tem sido uma palavra comum que há aqui, uma sintonia entre os colaboradores e os patrões no sentido de compreender que este é o momento especial da vida das empresas e de tentarem em conjunto chegar a uma melhor solução. Supondo que agora se generaliza o tema do layoff. Quanto tempo é que vocês acham que as empresas conseguem cumprir? Estamos a falar de empresas pequenas. Quanto tempo é que vocês acham que pode aguentar sem faturar uma pequena empresa?

AG: Paulo, posso começar eu. Eu acho que todo o tempo é pouco. Uma empresa fechada sem absolutamente nenhuma faturação consegue sobreviver independentemente que tenha quatro, cinco, 10, 20 funcionários. Acho que é lógico que independentemente da flexibilidade e da tesouraria de cada uma das empresas possa ter, a verdade é que ninguém quer estar aqui fechado e, ainda por cima, a ter o que pode muitas das vezes daquilo que é o nosso património pessoal para poder sustentar uma situação que não sabemos como vai ser a futuro, a procura turística, isto é uma incógnita. Agora se o governo não quer despedir e quer tentar manter ao máximo a economia da forma como ela estava —que não vai conseguir mas os mínimos danos possíveis então na realidade — vai ter que ter medidas muito mais agressivas, muito mais musculadas para fazer fase relativamente ao pessoal que está em Braga, ao pessoal que está no Alentejo, ao pessoal está em Lisboa, no Algarve, na Madeira, nos Açores, em todo o lado, porque realmente o nosso tecido empresarial é familiar. Eu arrisco-me a dizer que 70% a 90 % do tecido empresarial português é familiar, são empresas que vão até 100 postos de trabalho no máximo.

PA: Gonçalo, falaste com o teu senhorio para eventualmente baixar a renda? No teu caso é o Estado que eu saiba, António.

AG: Sim é o estado garantidamente. Nem um cêntimo vão ver da minha parte.

PA: Pelo menos agora durante um tempo.

GQ: Contactei a minha senhoria e ela por acaso foi bastante sensível, até não estava a contar com a reação e ela foi bastante sensível à situação. E chutámos um pouco a situação para acordar um valor, para haver algum sinal, algum pagamento, mas eu percebi da reação dela que ela é bastante sensível ao problema que afeta toda a gente.

PA: Quanto tempo é que achas que dá para aguentar em layoff.

GQ: Não sei, mas acho que muito pouco tempo e isto é uma situação muito urgente e nós temos que compreender porque é que a restauração é um setor diferente. Por exemplo, quando tu tens uma fábrica, tu tens procura de 50 mil pessoas para comprar 50 mil carros, acabando esta situação do vírus a fábrica retoma e vai dar resposta a essas 50 mil pessoas fabricando carros para esses 50 mil pedidos. Na restauração tu sabes que tens que ter a casa cheia para ter alguma liquidez, x lugares sentados. Tu amanhã vais abrir as portas e não é por amanhã que tu vaid ter a casa cheia, até porque isso não vai acontecer. Não é uma pessoa que vem beber 20 cafés para fazer retoma, essa economia, se é que me faço entender. A venda do café vai ser a conta-gotas por isso é que nós precisamos de ajuda.

PA: E é uma parte de ser todo um elemento de uma cadeia o ciclo da natureza da restauração. E à restauração vai desaguar o andamento próprio da natureza da produção das estações. Tiago, ouvido o que ouvimos aqui, podendo aceitar que é um retrato do país, aí terão o mesmo problema. Como é que é depois do layoff? Ok, O layoff ajuda, mas se isto se prolonga, qual é a solução? Quanto tempo é que as empresas aguentam?

TC: Isso vai depender. Como tu disseste ainda à bocadinho Paulo, cada caso é um caso. Neste momento o problema de tesouraria é geral, alguns de nós estão com dificuldades a pagar já este salário que é o mês de março. Nós tivemos menos quase duas, três semanas de faturação. Quanto tempo? Essa se calhar será a pergunta para um milhão, vai depender muito da resiliência de cada empresário, de cada restaurador, da vontade de querer e acima de tudo da energia que vai depositar. Vai depender muito destes fatores principalmente dos empregados até que ponto. Eu já pus a hipótese mesmo com o layoff de pagar uma parte de ordenados, dividir o mal pelas aldeias. Vamos tentar que não doa mais a umas do que a outros. Temos que sentir que a dor é comum para nos entendermos, mas neste momento a dor não é muito comum, tudo o que se está a passar faz-nos lembrar uma guerra antiga onde nós restauradores estivemos muito envolvidos e que todos nós estamos agora a ver o filme que foi passado, não é. O fluxo, o dinheiro que existiu por onde é que ele andou e não chegou onde tinha que chegar? Porque é que o dinheiro tem que ser canalizado para a banca? Porque é que não são os organismos que estão todos os dias connosco? Porque é que o estado não queria um decreto para o IEFP para que o dinheiro que nos chega. venha a partir do IEFP venha imediato? Não há necessidade de estar a meter aqui a banca. Estão a criar um intermediário, mas é um intermediário para que alguma coisa fique pelo caminho e é isso que nos está a custar muito, porque nós já vimos este filme. Nós sabemos bem quem é que vai apresentar lucros absurdos no final deste ano e não somos nós de certeza absoluta. E estado vai estar super endividado novamente mas eu tenho o 9º ano de escolaridade, não sou economista, mas alguma coisa aqui está mal.

PA: O estado querendo dizer o país e todos nós sobre esse tema ainda só há uma propensão para uma decisão à luz do que sempre aconteceu, mas ainda não há uma decisão fechada, há as linhas que os bancos já tinham, há estas linhas especiais, mas espera-se que possa vir algumas outras linhas especiais de acordo com a Europa essa é uma expectativa também. E agora uma palavra de esperança estamos a gravar aqui estes programas já há sete ou oito dias e só hoje é que vamos conseguir aqui ter uma palavra de esperança que ela é preciso. Tiago o quê que queres que aconteça?

TC: O que é que eu quero que aconteça… Quero que algumas coisas venham ao encontro àquilo que são as nossas reais necessidades, que as coisas se vão fluindo de outra maneira, que a opinião pública vá estando atenta e é esse o nosso trabalho é isso que estamos aqui a fazer nós os quatro também. E agradecemos a tua disponibilidade Paulo para estar aqui nesta partilha de sofrimento quase parece que estamos no confessionário. Nós hoje lançámos um mote aqui internamente no grupo que é hoje em casa, amanhã no restaurante isso é importante.

PA: Ok, boa. Gonçalo, o que é que é preciso para resistir do ponto de vista pessoal. Que características é que um ser humano precisa de ter para ultrapassar esta fase?

GQ: Tem que ter pensamento positivo sempre e tentar ocupar a cabeça com outras coisas. Tenho a sorte de ter dois pequeninos em casa que me ajudam a abstrair bastante destes problemas todos. Não ter muito tempo a televisão ligada nos noticiários porque também não ajuda, é assustador e nós só estamos a abordar a parte do negócio, mas também tem a parte da saúde pública que é bastante preocupante. Tentarmos sempre ocupar o nosso dia a dia com atitudes positivas e tentar também aprender alguma coisa com isto. Nós nunca vimos nada assim e certamente vamos aprender bastante sobre interação do ser humano. Nós vamos aprender coisas sobre nós próprios, porque isto parece uma experiência social, temos que estar todos fechados em casa com certas regras de segurança e de higiene. Pensamento positivo, bola para a frente e um dia de cada vez e oxalá isto se resolva pelo melhor.

PA: António, vai haver lugar para os restaurantes gastronómicos a seguir a isto?

AG: Esta é uma grande questão e, na verdade, eu tenho falado muito com o meu irmão à cerca disto. Acho que vamos ter que nos reinventar. Sinceramente eu tenho-lhe dito para ir fazendo novas fichas técnicas e começar a pensar em novos pratos, porque a realidade é essa. Vamos ter que nos reinventar e olhar para o local, para a cidade, para a porta ao lado e se calhar começamos agora outra vez do zero. [Temos] de olhar para toda esta situação de uma forma mais humanista, que era aquilo que já devíamos ter começado a fazer há muito tempo, que é pensar na realidade. Está aqui alguém ao nosso lado que nos pode ajudar a superar isto tudo e a fazer parte desta drenagem, a fazer uma cota parte para finalmente começarmos a elevar o nome da gastronomia e para que continuemos esta revolução gastronómica que se tem vindo a fazer ao longo dos anos em Portugal. E também continuar a levá-la a cabo e cada vez mais com mais personalidade e identidade e mais portugalidade. Se calhar vamos precisar mesmo disto agora, um dos motes essenciais vai ser mesmo esse tanto que seja no fine dining, como nos restaurantes tradicionais como na tasca do Zé da esquina, é indiferente.

PA: É isto, ficamos com esta palavra, muito obrigada pelo vosso tempo. Mais portugalidade, afloramos aqui uma parte da situação e, no final, a palavra que fica é que é preciso resistir para esses bons tempos vindouros em que seremos mais felizes. Portanto muito obrigada pelo vosso tempo.

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