Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Hugo Brito (Boi Cavalo, Lisboa), Filipe Martins (Kubidoce, Olhão) e Margarida Rego para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Filipe em que ponto está a Kubidoce? Vocês estão abertos ou fechados?

Filipe Martins (FM): Nós fechámos. Eu decidi fechar no sábado, depois ponderei e vamos abrir à quarta-feira e ao sábado de manhã. Só para as pessoas terem pão fresco, fazermos alguns croissants para dar um pouco de animo. Sinto-me com a responsabilidade de estar a abrir nem que sejam apenas dois dias por semana de manhã para dar aquele bem essencial às pessoas, neste caso o pão.

PA: Vais abrir como? Vender à porta? Vais deixar as pessoas entrarem na tua pastelaria?

FM: Não, nós estivemos a limitar aqui o espaço e vou deixar as pessoas entrarem, talvez duas de cada vez. Vamos pôr as senhas na rua e assim as pessoas vão tirando as senhas e vão entrando duas de cada vez. Só vamos estar três pessoas a trabalhar e o resto do pessoal vai ficar em casa. As pessoas estão a fazer encomendas… Nós vamos “tirar” a encomenda, preparar logo tudo, fazer tudo para a pessoa chegar, agarrar e levar.

PA: Mas não é isso que te vai salvar, pois não? Porque é que estás a fazer isso? Com que intuito?

FM: Porque me sinto na responsabilidade de o fazer. A gente vê os médicos a terem que trabalhar, a terem que sacrificar a família, os bombeiros, os polícias, toda a gente, assim sinto a minha responsabilidade de poder dar pão. Os primeiros-ministros de outros países quando falam de alimentos, falam sempre que as pessoas têm que ter pão, é um bem que nunca pode acabar e é verdade, em casa que não há pão toda a gente ralha e ninguém tem razão.

PA: É uma participação social o que tu queres fazer?

FM: Sim, sim.

PA: Margarida tu és também professora, como é que estão as aulas? Foram suspensas? Não há ainda plataformas de apoio?

Margarida Rego: A escola onde dou aulas, responsavelmente quanto a mim, uma semana antes do alarido de se começar a pensar em fechar, decidiu fechar. Portanto neste momento o que eu faço, visto que as minhas aulas são práticas, é sacar da criatividade para criar conteúdos para lhes mandar de forma a mantê-los ocupados, mas acima de tudo motivados.

PA: Isso quer dizer que tens a possibilidade de contactar com os alunos?

MR: Sim, há uma plataforma, há um email de turma e há um contacto muito próximo por messenger. A comunidade escolar está toda muito consciente da responsabilidade.

PA: Hugo, tu és um restaurador independente. Como é que o Boi Cavalo se está a aguentar?

HB: O Boi Cavalo está fechado. Nós fechámos já no domingo e, muito francamente, eu estive um dia absolutamente sem saber o que devia de fazer. Efetivamente, como muitos outros pequenos negócios independentes, um rombo desta dimensão sem uma almofada económica — que nós não temos, como outros também não têm — principalmente depois dos meses de janeiro e fevereiro que foram muito maus. Nós já entrámos neste momento de crise em défice. Portanto é uma situação completamente negra. Tive o apoio da minha equipa que é malta mesmo lutadora e que não quer ficar em casa. Então vamos reconstruir um Pop Up que tivemos já há três anos, como restaurante take away, desta maneira não recebemos pessoas e utilizamos plataformas já existentes, como por exemplo a Uber Eats ou a Glovo. Pensei em utilizar tudo o que já existia mas de outra maneira.

“Tive o apoio da minha equipa que é malta mesmo lutadora e que não quer ficar em casa. Então vamos reconstruir um Pop Up que tivemos já há três anos, como restaurante take away, desta maneira não recebemos pessoas e utilizamos plataformas já existentes, como por exemplo a Uber Eats ou a Glovo.” – Hugo Brito

PA: A situação mudou muito numa semana, não foi? Relativamente à semana passada.

HB: Sim, mudou muito na quinta-feira. Foi muito avassalador em termos emocionais e mentais porque eu tinha tido uma noite bastante razoável no restaurante. Sentia um renascer de esperança, parecia que era possível uma pequena recuperação e depois em três horas caímos num buraco negro. Acho que houve alguma hesitação ou falta de clareza por parte do governo. Mas também não trocava o meu lugar pelo de nenhum deles lá porque estão também a passar por um momento difícil. Nunca passámos por isto cá. Somos humanos, a nossa capacidade também de nos adaptarmos a uma situação nova, com este tipo de escala, é a capacidade de qualquer ser humano. Por muito acesso a dados que tenhamos continuamos a ser humanos. Se isto a mim me paralisou que tenho um pequeno negócio como é que eu posso partir ao ataque para alguém que tem um país para gerir.

PA: Margarida convoco-te para uma causa que é nossa amiga, isto não é preciso ir buscar a resiliência das mulheres para resistir a isto. Mesmo perante isto nada pára. Como é que estás a viver isto enquanto mulher e ser humano?

MR: Só tenho a perspetiva como mulher porque nunca fui outra coisa. Vejo isto como pessoa e como pessoa vejo pessoas com uma profundidade e verdade diferente. Até a mim me estou a ver de maneira diferente, vi ações e reações, reagi de forma diferente, odiei coisas, detestei, pasmei e depois fui serenando e fui vendo serenar.

PA: Dirias que há todo um mundo agora com muito mais cores, com uma porosidade. Cada ato é afinal um conjunto de precedências para o próprio ato que vem a seguir?

MR: Está-se a passar em nós da mesma maneira. Claro, cada um vive o seu mundo e o seu inferno, mas com a consciência de que toda a gente à nossa volta, próxima ou longe fisicamente, está a viver a mesma coisa. Se isto não é um murro de empatia forçado não sei o que será. Portanto é isto também que eu acredito. É por aqui que também acho que vai acontecer a reação. Cada um demora o tempo que precisa demorar, mas como país acho que quanto mais depressa reagirmos, mais depressa podemos começar a recuperar. Estes atos de coragem todos que fomos vendo deu-nos a todos uma consciência de que quanto mais depressa nos afastarmo-nos mais depressa nos abraçamos. Foi bonito ver acontecer de formas muito diferentes. Acho que em mais alguns dias vamos começar a ver coisas maravilhosas acontecerem. Mudou tudo? Mudou e nós também.

“Claro, cada um vive o seu mundo e o seu inferno, mas com a consciência de que toda a gente à nossa volta, próxima ou longe fisicamente, está a viver a mesma coisa. Se isto não é um murro de empatia forçado não sei o que será. Portanto é isto também que eu acredito.” – Margarida Rego

PA: Brito como é que viste as coisas? Surgiu um grupo do Whatsapp, o Ljubomir foi à televisão com um discurso. E o José Júlio disse-lhe que talvez o discurso não tenha sido bem entendido por todos. Isto parece-me a restauração unida à procura de uma voz, de uma mensagem para mandar cá para fora, concordas?

HB: Efetivamente acontece uma coisa que já acontece há muito tempo, o grupo que a maior parte de nós, que estamos em contacto, nos inserimos não se reconhece naquilo que são os nossos representantes, no caso da AHRESP. É algo que já devíamos ter abordado há muito tempo, não abordámos e num momento como este nós sentimos uma espécie de vazio. Não sentimos que aquele organismo represente os nossos interesses específicos então surge este vazio que acaba por depois criar operações distintas.
Num momento como este não acho produtivo criar qualquer tipo de hostilidade nem mesmo em relação ao governo. Acho que de alguma maneira isso pode criar atrito social que neste momento é a última coisa que é necessária. Até porque depois pode criar uma coisa porque é efetivo que nós somos 15% do PIB e é efetivo as repercussões que isto pode ter depois a todo o nível, porque isto está tudo interligado, nós estamos ligados aos produtores, à distribuição, aos nossos empregados, portanto os efeitos sociais de uma crise de falências na restauração é gigantesca. Tal como os governantes, estamos a aprender a lidar com uma crise como esta. A ter calma, cautela e pausa, o que não foi o que aconteceu naquele momento do Ljubomir, não foi de pausa.
Entretanto vozes mais calmas são vozes que acabam por criar alguma união em seu redor, por exemplo, ainda há pouco tempo o Hélio Loureiro fez um comentário que reuniu muita gente em volta desse comentário por serem observações que apelavam à calma, ao sentido de união mas principalmente à consciência. Isto não é um problema só da restauração, é um problema dos portugueses todos. Nós vamos estar a lidar com este problema daqui a seis meses, um ano. O sonho da restauração em crescimento exponencial e com base em pleno emprego acabou.
(Intervenção de MR: Acho que não, não concordo. Acho que só mudou. Não mudou só a quem está no lado da restauração, nos clientes também mudou, ainda não sabemos o quê mas mudou. Acabar? Não, não é possível até pelo contrário acho que voltaremos em festa, teremos é que sofrer um bocadinho até à festa. O que me parece é que vamos estar todos, pessoas a dar um valor novo a tudo e a todos quando poder acontecer).

A tua Margarida é muito mais otimista do que o meu Brito que é muito mais pessimista.
(Intervenção de MR: É dar-lhe tempo.)

“Efectivamente acontece uma coisa que já acontece há muito tempo, o grupo que a maior parte de nós, que estamos em contacto, nos inserimos não se reconhece naquilo que são os nossos representantes, no caso da AHRESP.” – Hugo Brito

PA: O que têm feito entretanto? Brito tens andado entretido com essa ideia do Pop Up. Quando é que vai acontecer?

HB: Eu tenho andado entretido entre isso e uma criança na idade dos porquês metida em casa portanto há uma boa parte do meu cérebro que desistiu já. Agora é começar a criar conteúdos, trabalhar e articular com plataformas que já existem. Falar com a minha equipa, enviamos piadas e playlists uns aos outros.

PA: Mas quando é que vão fazer essa produção para o Pop Up?

HB: Épa… a grande facilidade é que é reavivar uma coisa que já existia por isso mal eu consiga ver que está tudo em marcha com as plataformas de entrega, em dois dias tenho isto a andar, basicamente.

PA: Como é que tu estás a conseguir resolver e diz só aquilo que for legalmente admitido e nem vale a pena dizer porquê. Porque toda a gente vai tentar fazer o seu melhor possível com a complacência uns dos outros desde despedimentos, a esta nova lei do lay off, a suspensão e pedido de baixa sem vencimento. O setor anda à procura de todas as soluções possíveis, como é que tu estás a fazer? Daquilo que possas dizer.

HB: Para além de contactos com contabilistas eu tenho uma preocupação grande. Eu tenho uma equipa pequena por isso conheço-os profundamente, são amigos, são pessoas próximas. Por exemplo, estou muito preocupado com uma empregada minha que é a Ana, ela é ucraniana e estava no meio do processo de legalização então como só trabalha há um ano connosco pode não ter direito a ganhar nada da segurança social. Como este caso devem haver milhares de casos.

(Intervenção de FM: Vou-vos fazer inveja e mostra um folar acabadinho de sair do forno.)

PA: Filipe isso aí é mais do que o pão para a sobrevivência, é também um docinho para a alma, mas tu não te vais safar assim. Ou tu achas que são essas vendas de segunda e quarta que te vão orientar?

FM: Eu disse ao pessoal que prefiro perder agora 10 mil euros e estarmos todos fechados a aguentar isto do que levar quatro, cinco meses perder 10 mil euros todos os meses. Epá… tem que ser assim, os bens essenciais têm que se manter, as pessoas tem que continuar a comer, a ter o pão. E todos darmos um pouco de nós. Eu percebo, os restaurantes de fine dining e tudo mais, não estão a trabalhar, preferiram estar fechados, mas os outros mais básicos [como a padaria] não. Cada um faz o que entender, mas realmente a padaria eu optei por [estar aberta] só dois dias. Quero também estar com a minha família, tenho quatro filhos.

PA: Estávamos aqui a partilhar modelos que os estabelecimentos de restauração e similares estão a adotar, isto na ideia de que para resistir temos que partilhar, quer seja para operação ou para dispensar pessoal. Como é que tu estás a fazer isso com a tua equipa?

FM: Uma parte do pessoal vai ter direito à situação dos 66% [do ordenado] por ter filhos, porque não está nada explicado ainda, até os contabilistas não sabem como é que vai funcionar o lay off. Mas mesmo tudo o resto vai ter que ser as empresas a pagar, só depois mais tarde é que a segurança social vai dar o apoio ou não. Eu estou a preparar para isso, não quis estar a arriscar. E o resto do pessoal que não tem direito? Porque há pessoas que não têm filhos ou têm mais de 16 anos. Por isso vou dar férias e depois vamos ver o que vai dar. Estamos a tentar preparar isso do lay off mas ainda está tudo muito verdinho.
O pessoal agora vai começar a fazer moços para estarem os 14 dias em casa.
O que é triste é uns estarem fechados e outros continuarem a trabalhar sem restrições, como as tascas cheias com as pessoas sentadas umas ao lado das outras. Ainda não se aperceberam do real perigo disto. Estão a querer lucrar ao máximo. Soube de uma situação aqui ao pé da minha loja que o patrão não fez divisões nenhumas e que disse às empregadas que agora era para lucrar ao máximo e que isto se curava com mel.
(Intervenção PA: Tu não te esqueças de uma coisa: em Olhão tudo é possível!)

“Eu disse ao pessoal que prefiro perder agora 10 mil euros e estarmos todos fechados a aguentar isto do que levar quatro, cinco meses perder 10 mil euros todos os meses.” – Filipe Martins

PA: Margarida como é que tens ocupado os teus dias?

MR: Eu até hoje de manhã, por tua culpa, não tinha percebido como é que voaram estes quatro dias.
(Intervenção PA: Porque nós temos uma rubrica no Etaste com diários onde convidamos pessoas de norte a sul para escreverem, para poderem partilharem algumas coisas uns com os outros. O essencial para esta experiência é a partilha, como é que eu estou a encarar isto e estou a partilhar contigo. E felizmente temos muita gente a partilhar e a colaborar e outros tantos a ler.)
Só passaram quatro dias e devo ter passado grande parte do meu dia a tratar de mim, a apanhar pedaços e a montá-los outra vez e a voltar a respirar.
As pessoas uniram-se, sentiram-se frágeis e apoiaram-se, uniram-se. A verdade é que cheguei à conclusão que passei grande parte dos meus dias a receber e a fazer chamadas e mensagens e é muito bom. São pessoas a serem pessoas. E a perceber que toda a gente desesperou ao mesmo tempo, uns mais outros menos. Acredito que o que se esta a passar comigo está a passar-se com toda a gente no mundo e a primavera está aí à porta e nós somos pessoas diferentes. Calma, só passaram quatro dias, sabemos que o pior ainda não chegou, mas sabemos que o pior em nós se calhar já passou.

PA: Como é que um ex mas continuo artista vê as artes se vão dedicar a retratar estes momentos.

HB: É aquela frase de o caráter forja-se nas pequenas ocasiões e revela-se nas grandes e se calhar estamos em um desses momentos. Isso que a Margarida está a dizer é verdade. O que eu tenho sentido a nível de contacto pessoal é que nesta área, a menos que não seja numa ocasião em que nos juntemos todos, passamos muito tempo sem falar uns com os outros, de quem gostamos. Por iniciativa minha ou dos outros para comigo o contacto voltou de uma forma genuína de preocupação. Isto fez-me redescobrir o amor que tenho às pessoas e o amor que as pessoas me têm. Foram apenas ainda quatro dias mas quatro dias de uma exigência mental brutal. Hajam folares e haja pessoas a tentar encontrar soluções, porque se nenhum de nós tentar arranjar soluções que viabilizem algum tipo de sobrevivência económica. Se tudo isto vai ao ar ao mesmo tempo, nós sabemos que somos um país pequeno e limitado em termos económicos por isso temos que tentar minimizar os efeitos que isto nos vai trazer, a crise económica que pode vir a haver.

PA: Obrigada pelo vosso tempo! Uma coisa é certa é preciso resistir e cá estamos para isso.

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