Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Ljubomir Stanisic (Grupo 100 Maneiras, Lisboa), Cristóvão Sousa (Ode Porto Wine House, Porto) José Júlio Vintém (Tombalobos, Portalegre) e Bruno Caseiro (Cavalariça, Comporta) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Há um grande caminho a percorrer. Tu és o porta-voz? Qual é o teu papel nisto?

Ljubomir Stanisic (LS): Não sou o porta-voz de ninguém para te ser muito sincero. O meu papel não é nenhum, é o de cidadão comum, que está a tentar simplesmente aproveitar o mediatismo para levantar a voz o mais alto possível e ouvirem-se todas as pessoas da restauração e hotelaria. Não faço mais nada, eu sou um simples mortal comum como todos os outros. Não sou líder de ninguém, nem de grupo nenhum. Falo da maneira como falo há pessoas que se incomodam com isso, quando digo que faltam tomates, digo sim senhora. É preciso ter [os] tomates no sitio e tomar decisões certas. Agora cada um sabe de si, eu agora gostava que o povo estivesse todo unido e a restauração e conseguíssemos lutar, não digo pelos nossos direitos, neste preciso momento estou-me a cagar para o dinheiro embora me faça muita falta, é mais pela questão de saúde pública.

Paulo Amado: Cristovão, como estão as coisas no Porto?

Cristovão Sousa (CS): Demasiado calmas como em todo o lado. Muito serenas, muito calmas. Hoje de manhã (16 de Março) fui ao Ode Porto Wine House e fiquei genuinamente preocupado quando vi a clamaria toda, às nove da manhã costuma haver muita confusão, das descargas, das entregas disso tudo, muita gente e hoje praticamente nada. Por tanto hoje é o primeiro dia do resto da nossa vida.

PA: José Júlio, em Portalegre ainda não chegou ai o Coronavírus segundo os dados oficiais, mas já se faz sentir também todo este movimento, esta ideia que tem que ser o país a parar, os empresários a decidir que têm que parar os seus negócios.

José Julio Vintém (JJV): Sim, a maior parte dos cafés e dos restaurantes estão fechados. Há pouquíssima gente a trabalhar e os que estão a trabalhar estão com um grande receio. Por exemplo os supermercados até há três dias estavam completamente a ficar com as prateleiras vazias e só se viam espanhóis a entrar por Portalegre a dentro, a consumirem tudo o que tínhamos. Como sabem em Espanha foi decretada Quarentena Obrigatória e então os espanhóis atravessavam a fronteira e invadiram-nos onde faziam verdadeiros assaltos aos supermercados e inclusive a alguns restaurantes. Não o meu, porque nós tivemos uma redução na aceitação de clientes cumprindo um bocado a lei, apesar de no sábado à noite termos tido uma ocupação de dois terços. E nessa noite a polícia entrou-nos pela porta e disse-nos que tinha saído uma lei que agora só era permitido estarmos abertos até às 22 horas e nós cumprimos na medida do possível. Correu tudo bem, não houve problema nenhum. A questão aqui é que os supermercados estão a cumprir a regra das 20 pessoas, 0,4 por metro quadrado, então veem-se filas enormes de 50, 70 pessoas às portas dos supermercados colados uns aos outros e lá dentro as pessoas andam à vontade, acho isto completamente ridículo.

“Como sabem em Espanha foi decretada Quarentena Obrigatória e então os espanhóis atravessavam a fronteira e invadiram-nos onde faziam verdadeiros assaltos aos supermercados e inclusive a alguns restaurantes. Não o meu, porque nós tivemos uma redução na aceitação de clientes cumprindo um bocado a lei, apesar de no sábado à noite termos tido uma ocupação de dois terços.” – José Júlio Vintém

PA: Bruno, a tua zona é turística, estavas a preparar-te para o aquecimento do verão? Ainda não tinhas grande atividade?

Bruno Caseiro (BC): Eu estava a preparar o aquecimento do verão, sim, e tradicionalmente aqui na zona da Comporta os meses de janeiro e fevereiro são meses em teoria fracos e em que a procura é reduzida, embora eu este ano tenha notado que a procura estava bastante superior aos anos passados. A procura na zona de uma forma generalizada está a subir sem ser só no verão, mas a grande atividade estava prestes a começar, porque coincide com as férias da Páscoa e vai até fins de setembro, inícios de outubro. Isto significa basicamente para nós que estes dois primeiros meses de arranque que são fundamentais para todos os negócios nesta zona, porque toda a gente depende da sazonalidade, estes dois primeiros meses de arranque abril e maio vão estar claramente afetados comprometendo bastante o resto da temporada.

PA: Ljubomir, tens uma empresa com 80 pessoas, tiveste hoje uma reunião da qual saíram algumas possibilidades de dar coragem a este setor. O que é preciso que aconteça para que as coisas mudem?

LS: Na reunião não me deram medidas novas, nenhumas, deram-me as esperanças deles, (governo) explicaram-me as leis, o layoff, as linhas de crédito e que não podemos esperar rigorosamente nada antes do dia 15 de abril a nossa necessidade e a baixa faturação após os últimos três meses. O que obviamente todos os que estão fechados podem declarar, o que me foi garantido a 100 por cento é que independentemente se fechamos por causa do estado nos obrigar a fechar ou se fechamos por iniciativa para guardar a saúde dos funcionários não interfere no apoio do layoff e ainda bem. A segurança social irá suportar 1.3 dos nossos custos e vamos ter, um terço de custos de linhas de apoio e outro terço de custo para apoios dos nossos funcionários, mas só a partir de 15 de abril é que vamos ter essa decisão, mas garantiram que todos vamos ter esses apoios, esperamos que sim.
O próprio estado, o governo não têm mãos a medir, eles não querem instalar o pânico geral, se isso acontece-se ia-se tornar um caos total o país inteiro, embora nos pensemos que tem que ser de imediato, fechar tudo, também percebo o outro lado, o governo, que está num caos total, porque eles têm que gerir um pais inteiro não é só os restaurantes, eles têm 10 milhões de pessoas.
Eu saí de Lisboa, vim com a família para Grândola, Alentejo depois de ter fechado os restaurantes. Na sexta-feira o que mais me chocou e foi isso o que me levou a tomar a decisão de fechar. Nos 100 Maneiras tivemos 64 pessoas a jantar. Então no sábado decidimos fechar porque tínhamos tantos espanhóis para virem comer no restaurante, que me assustou foi exatamente isso, ao perceber que posso infetar os meus colegas, empregados ou familiares, porque toda a família trabalha comigo no 100 Maneiras e isso assustou-me, então decidi fechar as portas pela saúde daqueles que eu gosto. Se alguém tivesse apanhado alguma coisa no restaurante eu não conseguia entrar lá dentro nunca mais na minha vida. Preferi protege-los a todos e estar fechado, embora contra minha vontade financeira, porque nós precisamos faturar para pagar as contas, mas acho que a saúde está em primeiro lugar.

“Na sexta-feira o que mais me chocou e foi isso o que me levou a tomar a decisão de fechar. Nos 100 Maneiras tivemos 64 pessoas a jantar.” – Ljubomir Stanisic

PA: A AHRESP também se reuniu hoje (16 de março) com o governo já há novidades dessa conversa?

LS: A AHRESP teve hoje também uma reunião com o governo, mas até agora não há soluções, resultados dessa conversa, até ao momento não sei de nada, ninguém me informou. Esperamos que eles façam o seu trabalho como associação, porque a gente paga há muitos anos, eu há 17 anos que estou apagar cotas e estão em dia. Eles têm que se chegar à frente e representar-nos porque são a nossa associação, seja de quem estiver associado ou não, porque se eles representam a restauração, têm que a representar no geral.

PA: Qual é a tua palavra para aqueles que ainda não fecharam?

LS: Isto é um pouco difícil dar palavras para aqueles que ainda não fecharam, porque há pessoas que não fecharam porque estão desesperadas e eu compreendo perfeitamente as pessoas que estão desesperadas, porque não sabem como é que vão pagar as contas, eu também não vejo, mas em vez de entrar em desespero resolvi fechar e comunicar isso aos meus funcionários que quando o estado nos ajudar vou conseguir pagar. Paguei o IVA, hoje, (16 de março), que foi uma batelada do caraças e fiquei sem dinheiro para pagar ordenados, mas prefiro ter pessoas saudáveis à minha a volta, imagina se tivesse um caso de Coronavírus ou de chegar a um limite de morte nunca me conseguiria perdoar na minha vida por isso, mas isto é a minha opinião, que já vivi em várias guerras já fui bombardeado, já tive na guerra civil da Jugoslávia. Esta é a terceira guerra que estou na vida. Só que esta é de silêncios, de estares em casa, mas no mínimo podes tomar atitudes e a minha foi de fechar para proteger as pessoas, quem está aberto, aqui acho que cada um tem o seu dever cívico e sabe de si eu não vou sequer criticar e nem quero apontar o dedo a ninguém. Eu sou a pessoa que diz que o governo devia decretar isso, devia ter tomates e devia fechar todos os sítios públicos como centro comerciais, restaurantes, cafés, metros, autocarros tudo onde se espalha a doença. A única maneira é esperarmos em casa até encontrarem a vacina ou solução para isso, não andarmos por aí a espalhar a o vírus. Fiquem em casa, não podemos fazer mais nada sem ser isso. Para podermos no mínimo salvar a população, porque 10 mortos já é muito, não imaginemos as centenas como está a acontecer em Itália, Espanha e outros países, que estão diariamente a aumentar os números. Vai nos acontecer o mesmo por isso cada um tem a sua responsabilidade. Eu faço à minha maneira e tento falar pelas pessoas que se identificam com a minha maneira de falar e o que defendo, e ainda bem, e quem não se identifica, que se lixe, não é, não me preocupo minimamente com isso. Acho que devemos estar mais unidos do que nunca, porque temos que entrar numa realidade que é clara, vai falir mais de 50 por cento dos negócios da restauração em Portugal com esta crise e nós temos que ter noção disso e é preciso levantarmo-nos, a nós, às nossas famílias, colegas e entre nós todos, assim como temos que levantar o país para a frente. A economia não funciona sem pessoas e isso é fundamental. Agora neste momento o que temos a fazer é fechar tudo para o vírus não se espalhar, porque se os hospitais entram em rutura vamos ter que escolher quem vive como já está a acontecer em alguns países. Não se brinca com esta merda é a única chamada que posso fazer é cívica.

PA: Cristovão és sócio da AHRESP ou da APHORT? Como é que vês a possibilidade da representação deste setor junto do governo?

CS: Não sou sócio, mas vejo com muitas reservas. Se não é a sociedade civil a juntar-se e a mover-se eu tenho uma extrema dificuldade em acreditar no que quer que seja e a não querer estar aqui a chover no molhado. (Penso exatamente como o Ljubomir)

PA: Vintém, o que que tu achas que dá para fazer no entretanto? É que agora vem aí um tempo de grande lazer em que é preciso controlar os nervos para poder tomar as decisões mais acertadas. Tu que és um homem muito prático o que vais fazer enquanto não podes fazer comida para os teus clientes?

JJV: Se queres que te diga esta é a primeira vez na minha vida em que estou com incertezas sobre o que é que posso fazer, porque como sabes eu tenho outro negócio que é as amêndoas e estávamos agora na fase de começar a trabalhar à seria e de repente vemos as encomendas também a serem recusadas e portanto o meu medo é que não afeta só a restauração. A reação que o Ljubomir teve foi ótima, mas acho que foi mal entendida por muita gente, porque não é só a restauração, é toda a gente que está a passar mal e o que foi entendido nas suas declarações é que parece que só os restaurantes é que vão sofrer e não são só os restaurantes que vão sofrer. é o global.
Como é que nós fazemos para sustentar seja que negócio for. Mesmo que seja pela internet, nem que seja a vender comida para fora com take away, mas quem é que vai entregar? É impossível.
Em termos de economia sou apenas mais um, o Tombalobos tem apenas cinco empregados, o que não é nada, eu consigo perfeitamente suportar os ordenados nos próximos três meses e suportar a minha mãe fechada. Não é como os outros de Lisboa. Os pequenos são os que estão mais à vontade, os maiores são quem neste momento vão dar a queda maior. Neste momento a única solução é pôr me fazer vídeos de comida em casa, alguma coisa que se possa difundir na internet, mas isso para ganhar dinheiro é preciso muito, é difícil. (Intervenção de Ljubomir Stanisic: Não vais ganhar dinheiro, vais animar muitas pessoas. Eu comecei a fazer vídeos de crise, é que há pouca comida em casa e comecei a fazer receitas com os meus filhos para tentar animar as pessoas que me seguem e veem as merdas que eu posto, antes era a minha secretária que tinha as minhas redes sociais agora sou eu que as tenho, tive que me alinhar a isso e tentar combater esta solidão, porque nós estamos isolados com as famílias em casa.)
Eu vou continuar a animar as pessoas num canal do youtube que não seja enfadonho, e onde possam ver um alentejano a fazer receitas de cabeças de porco boas e baratas.

“Como é que nós fazemos para sustentar seja que negócio for. Mesmo que seja pela internet, nem que seja a vender comida para fora com take away, mas quem é que vai entregar? É impossível.” – José Júlio Vintém

PA: Caseiro, tu que fazes um belo pão. Vais vender pão ou fazes só para ti? Estás a pensar em alguma coisa?

BC: O que este tempo de estarmos todos em casa tem de positivo é podermos estar de facto em família, sejam famílias pequenas, sejam famílias maiores tirar o máximo partido desse tempo e fazer coisas em conjunto inclusive pão, por exemplo. Eu já o fazia em casa só para mim nas folgas do restaurante agora vou ter mais dias de folga é só essa a diferença.

PA: Estás interessado em alguma atividade que implique ter o restaurante aberto minimamente?

BC: Eu já pensei nesse assunto e o que eu quero garantir é que deixo passar este período de 14, 15 dias desta primeira fase de quarentena para avaliar, primeiro se eu estou bem, se as pessoas que trabalham connosco estão bem, se não há riscos na equipa. E depois dependendo do que entretanto for decidido pelo governo. Nem que seja estar só um número muito reduzido de pessoas no restaurante e a funcionar quem sabe num regime de vender pão, ingredientes pré-cozinhados para fora, iria ter alguma interação com as pessoas, mas seria muito mais controlada. O risco vai sempre existir. Nem toda a gente tem direito a compras online, por exemplo, têm que ir à farmácia e a usufruir de alguns serviços, que não vão poder fechar. Eu acho que temos que estar atentos e sobretudo limitar as interações, o contacto e o número de pessoas no mesmo espaço. E tentar olhar para o copo meio cheio que tem tudo para ser copo meio vazio.

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