Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Michele Marques (Mercearia Gadanha), Tânia Durão (Atrevo) e Ana Jacinto (AHRESP). para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do Boca Mole, temos a partir de Lisboa Ana Jacinto, Secretária Geral da AHRESP, em Estremoz a Michele Marques da Mercearia Gadanha e a Tânia Durão do restaurante a Trevo no Porto. A ideia é podermos ter aqui uma conversa entre três pessoas que fazem parte do universo da restauração e de uma maneira que seja positiva. Podemos partilhar opiniões sobre o actual momento numa perspectiva de encorajamento para quem nos ouve e de partilha de experiências. Começaria talvez pela Ana Jacinto.
A AHRESP apresentou recentemente os resultados de um estudo… A AHRESP é a associação da restauração e hotelaria e esse estudo foi feito também à hotelaria. É possível isolar do ponto de vista das respostas só os restaurantes e tirar uma ilação a partir dessa amostra. Quantos restaurantes é que efetivamente estão encerrados em Portugal ou que percentagem?

Ana Jacinto (AJ): Boa tarde, é possível fazer, se ainda não o fizemos neste momento os dados ainda estão agrupados, mas eles são muito similares ou, se quiseres, no caso da restauração o caso ainda se adensa mais pelo estado de emergênci. Aa restauração tem que estar mesmo encerrada então os números ainda são um bocadinho mais preocupantes. Eu sei que a ideia é deixar aqui uma voz de esperança e caminhos para o futuro, mas de facto neste momento é muito difícil ter esse otimismo e passar esse otimismo, porque quando fazemos um inquérito como aquele que fizemos a semana passada em que tivemos cerca de 2 mil respostas em menos de 24 horas e todas elas são tão dramáticas, é difícil passar uma mensagem de grande otimismo, mas eu prometo que me vou esforçar. Aquilo que de facto diz o nosso inquérito é que 7 % do universo já está encerrado. Sendo que no caso da restauração, mais uma vez repito, ela já está toda encerrada podendo funcionar ainda no regime de take away e delivery que é o caso de alguns espaços que optaram e que podem, porque não é só querer. Os estabelecimentos que estão a funcionar em take away são aqueles que acharam que era uma oportunidade de fazer alguma receita mesmo encerrados, mas mesmo assim têm que ter condições para o fazer. Nem todos aqueles que querem têm condições para o fazer, porque há questões que se prendem com o diploma que obriga os estabelecimentos a garantirem as regras de saúde e segurança quer do ponto de vista dos colaboradores, quer do ponto de vista dos clientes. Portanto nem todos aqueles que querem podem continuar abertos, portanto diria que a ordem é estarem encerrados e a maioria está encerrada no que diz respeito à restauração. Mas juntando o alojamento sabemos que o alojamento ainda não tem esta obrigatoriedade, 75% do universo está fechado. Sendo que para ainda adensar estes dados preocupantes, 50% deste universo vai avançar com o layoff. Cerca de 75% destes 50% é um layoff total, não estamos a falar de pessoas que ficam a trabalhar com redução de horários, estamos a falar de todos trabalhadores que ficam com suspensão de contrato de trabalho. Portanto é uma dimensão muito grande. 30% deste universo já não pagou salários em março e cerca de 70%, se não vier apoio da segurança social através do layoff, também não vão pagar os salários de abril portanto é que falamos que a situação é grave por mais optimista que queira ser, estamos de facto com um problema dramático que deve ser devidamente apoiado. Do nosso ponto de vista há aqui alguma carência nestes apoios, o layoff não é suficiente para estancar e dar aqui algum suporte às empresas para continuarem. Aquilo que estamos a fazer é a criar um alivio temporário para depois haver uma sobrecarga enorme às empresas num curto prazo, porque o layoff tem uma comparticipação que a empresa tem que dar e outras medidas existentes e disponíveis, como sabemos, impõem endividamento e portanto muitas das empresas já tinham feito investimentos porque estávamos a passar de facto um momento positivo e as empresas aproveitaram para fazer investimentos e fortalecer os seu quadros de pessoal. E já havia algum indevidamente. Agora dizer que o único apoio disponível é continuar a endividar-se, o problema fica de facto um bocadinho negro. Reconhecemos e isto é bom que se diga que há de facto um esforço enorme do governo, e em particular do ministério da economia e da secretaria de estado que nos tutela, mas a verdade é que consideramos que estes apoios são apenas paliativos. Nós vamos precisar para ter o tal futuro que há pouco falavas Paulo, de nós termos aqui alguma mensagem otimista. Precisamos não só de estar ligados à maquina agora mas precisamos essencialmente depois de não haver crise podermos de facto reerguermo-nos. E o que nós tememos é de facto nesta altura sejam tantas as contas para pagar, porque aquilo que está a acontecer é medidas de endividamento para depois todas serem pagas. A AHRESP sempre defendeu nas 40 medidas que teve a oportunidade de elaborar e partilhar com o ministerio da economia, a suspensão de vários pagamentos para permitir às empresas de facto um alivio. Um alivio temporário para depois sermos de facto sobrecarregados com os pagamentos.

PA: A suspensão é o que está em curso. Vocês queriam o cancelamento, não é?

AJ: A suspensão no sentido de isenção, no sentido de não termos que pagar a seguir, como por exemplo o caso das rendas. Hoje foi publicado o diploma, que prevê de facto o não pagamento, agora nesta época de crise, mas depois esses pagamentos têm todos que ser feitos em prestações juntando as rendas dos próprios meses, portanto não há de facto um alivio, estes valores vão ter todos que serem pagos num momento mais tarde quando sabemos que a economia não se vai reerguer estalando os dedos, não é? Nós não vamos ter de um momento para o outro as pessoas a viajar, nem a virem todas degustar a nossa excelente gastronomia aqui neste belo cantinho português. Vai demorar muito tempo até que esta economia se restabeleça. Também dizer que a economia se vai restabelecer com o turismo interno também sabemos que não vai ser fácil. Nós damos emprego a muitos trabalhadores, que vão ficar numa situação difícil. E muitos outros trabalhadores de outros sectores passam pelo mesmo. Portanto o poder de compra estará obviamente muito diminuto para que as pessoas de um momento para o outro tenham confiança para voltarem a vir outra vez aos nossos hotéis e outra vez aos nossos restaurantes. As coisas não vão acontecer com a velocidade que desejaríamos e é isto que nós temos alertado para que de facto percebam. Temos que ter aqui apoio direto e real à economia e não estes apoios que no final do dia se vão traduzir em mais encargos.

PA: Ok, bom. Depois da secretária da AHRESP ter liquidado todos os temas da conversa, vamos continuar na mesma. O Porto tem sido um exemplo na tentativa de resistir e de juntar pessoas dos mais diferentes modos, primeiro para poder fazer os take away. depois no auxilio ao pessoal de saúde na produção de refeições como é o caso do Atrevo, vocês tinham um tipo de cozinha que era especifico. Conseguiram manter-se? Valeu a pena pensar no take away? Em que ponto é que estão?

Tânia Durão (TD): No nosso caso optámos por não fazer take away até porque também optamos pelo layoff tota,

l, o que não nos permite fazer take away e mesmo o nosso tipo de cozinha não se adaptaria embora pudéssemos pensar em alternativas e reformular uma carta. Não foi o que aconteceu porque o nosso advogado e o nosso contabilista indicaram-nos que seria o melhor caminho o layoff total. No entanto estamos a ajudar na confecção de refeições para o hospital de São João para os médicos e estamos a tentar fazer o nosso papel. Já que temos a equipa, estamos todos saudáveis e disponíveis e estamos todos a tentar ajudar naquilo que podemos.

PA: Portanto vocês tinham aberto não assim há tanto tempo.

TD: Oito meses.

PA: É um restaurante em que os investidores são vocês?

TD: Sim, sou eu e o meu companheiro. É um restaurante muito pequeno, é um investimento relativamente pequeno e também acho que nós sermos muito poucos também nos dá um bocadinho mais margem para continuar, digo eu, pelo menos aqui nesta fase de contenção conseguimos que os nossos gastos não sejam tão elevados. Isto se a ajuda do governo for eficaz e também tivermos ajuda em rendas e em outras prestações que tivermos a pagar. Se todas as condições forem boas nós conseguimos sobreviver aqui alguns meses. Embora depois o regresso seja o mais imprevisível, porque nós até nos podemos segurar estes meses com contenção e com as ajudas do estado, mas depois se o turismo, e se as pessoas não acederem aos restaurantes não sei como é que depois irá ser. O nosso dinheiro vai ficar curto. não é? E depois sinceramente não percebi onde é que poderia recorrer às ajudas, quais eram os papéis, onde tinha que entregar.

AJ: Eu vou ter que dizer, se fosse associada da AHRESP já tinha a minuta.

PA: Não és associada de nenhuma associação?

TD: Não, não somos.

AJ: Mas olhe que tem que mandar uma cartinha ao senhorio alegando esta faculdade que foi hoje aprovada para que a renda não seja liquidada durante estes meses do estado de emergência.

TD: Ok, outra dica, obrigada.

PA: A Mercearia Gadanha continua em atividade?

Michele Marques (MM): Continua, continua em atividade mais a 10% do que é a nossa faturação habitual. Na primeira semana em que tudo começou, encerrámos para férias até ser decretado o estado de emergência. Nós fechámos antes e estávamos um bocado assustados.
E o que nos assustou foi o primeiro fim de semana do grande boom em Portugal, dos primeiros casos as pessoas que estavam supostamente de quarentena vinham para o Alentejo e isso deu-nos alguma insegurança, não é? Vou pôr em causa a minha saúde a dos meus colaboradores… então resolvemos fechar e toda a gente trocou a semana que tínhamos de ferias no verão por agora e depois disso fomos obrigados a fechar. Ainda tive fechada 15 dias sem atividade nenhuma. Entretanto começam a cair os pagamentos e uma pessoa tem que descruzar os braços, não é? Nós aqui temos 18 postos de trabalho a contar com o meu e o do Mário. É bastante difícil aguentar mesmo em layoff. Ainda agora estávamos a falar em arrendamento, ainda agora saiu daqui o meu senhorio e tivemos a falar justamente sobre as novas medidas. É obvio que a minha intenção não é acumular dividas. É um bolo muito grande, estamos a falar na nossa escala de um valor muito grande e com isto temos a renda, luz. Nós não temos empréstimos, graças a deus. Nós também fizemos investimentos, comprámos aparelhos, comprámos materiais agora para a alta temporada. Contratámos três pessoas que não mandámos embora em período experimental, continuam connosco até ver se vai dar. De resto não sei, não sei.

PA: Olha e continuas com a cadeia de fornecimento relativamente normalizada ou as comidas que estás a fazer têm a ver com produtos que já tinhas? Ou continuas a comprar e a vender?

MM: Sim, sim.

PA: Continuas a ter fornecimento?

MM: Sim, continuo.

PA: É algo que é fácil por este dias? Há muita gente disponível para as entregas?

MM: Eu também não estou a precisar de grandes encomendas para já. Eu tinha tudo preparado para a semana da Pascoa e agora tenho que dar alguma liquidez ao que tenho. Encomendo basicamente as coisas aqui da zona. compro aqui na mercearia do bairro, porque não justifica estar a mandar vir. É acabar por girar a economia do centro da cidade.

PA: Olha tendo em conta que temos aqui a secretária geral da AHRESP, tu és associada de alguma associação?

MM: Sou da AHRESP.

PA: Recebeste o tal email?

MM: Ainda não vi, mas devo ter recebido, porque eu recebo logo a mensagem, mas estava na cozinha e ainda não vi.

PA: Se recuarmos aqui uns dias, ao primeiro momento em que estamos todos em choque, não é muito evidente o que é que temos que fazer. Tinhas o restaurante aberto ou fechado?

MM: Fechado.

PA: Como é que conseguiste começar a descortinar a fase ao layoff que teve sucessivas alterações e possibilidades de seguir em frente com o negócio estando ele suspenso. Como é que foi isso?

MM: Primeiro reuni-me com o meu sócio para ver o que é que vamos fazer da vida, se fechávamos as portas ou se tentávamos. E como tentar é sempre o meu lema…não é? Então vamos tentar e logo se vê. Reunimos os prós e os contras, fizemos as contas, falámos com o nosso contabilista amigo nosso, falámos com dois advogados e percebemos o que é que isso custaria para a empresa e quanto tempo é que nós aguentaríamos com estas medidas sem recorrer à banca. Porque o nosso objectivo é não acumular divida. Depois de uma reunião, reunimos com o pessoal através de uma vídeo chamada e toda a gente aderiu. Também não tinham outra escolha, não é? Ou é isso ou ficam desempregados. Às tantas acho que todos preferem estar no regime de layoff.

PA: Ok. Este tema da legislação que entretanto foi ficando disponível foi uma grande dor de cabeça e continua a ser para muita gente. Tem sido o tempo dos contabilistas e dos advogados a justificarem o seu trabalho. Como é que foi aí do ponto de vista da vossa parte enquanto entidade que representa os seus associados poder atender às duvidas e aos pedidos de informação e por outro lado representá-los? Como é que foi essa jornada de representar o país tendo declarado no outro dia que só estavam disponíveis para os sócios?

AJ: É um facto e eu julgo que isso é perceptível. Eu desde que estou na AHRES,P e já cá estou há 20 anos, que ando a divulgar a necessidade e a importância de todas as empresas serem associadas da AHRESP. Não faria muito sentido agora no momento em que mais precisam de nós eu não pudesse ter os recursos todos apontados e vocacionados para auxiliar aqueles que estão connosco, portanto essa é a nossa prioridade. O que não significa que muita da informação, nós também acabamos por disponibilizar no nosso site de forma aberta para ir ajudando também de uma forma mais leve aqueles que não são associados, mas a nossa prioridade obviamente que é apoiar os nossos associados, inclusivamente desde a primeira hora nós disponibilizamos e vamos disponibilizando sempre por sms. É mais fácil os empresários estarem atentos de todas as minutas, de toda a preparação e detalhe daquilo que tem sido a legislação que é muito complexa e difícil. Inclusivamente os técnicos de contas e os próprios advogados socorrem-se daquilo que nós vamos divulgando e muitas das vezes até são eles que nos consultam para apoiar os associados.

PA: Independentemente de só ajudarem os membros, quando se sentam à mesa com o governo representam o país.

AJ: Exactamente. Claro que sim. Muitas destas alterações legislativas também surgem pela necessidade que a AHRESP foi forçando de se fazerem alguns ajustes. Desde a primeira hora, nós elaborámos um caderno de encargos, digamos assim, com cerca de 40 propostas que fizemos chegar ao governo e discutimos com o governo. Portanto para nós, assim que percebemos que de facto esta pandemia iria ter consequências graves, o que fizemos foi um documento onde estruturamos uma serie de propostas que achamos que são imprescindíveis para o sector. Algumas delas chegaram a ser implementadas não exactamente como estavam desenhadas por nós e outras têm vindo a ser melhoradas de acordo com aquilo que nós fomos conversando com o governo. Portanto quando fazemos isto estamos a fazer para um universo total dos empresários de todo o sector, mas quantos mais formos e mais unidos formos mais fácil é este diálogo que tenho pena que este reconhecimento às vezes só seja notado nestas fases mais dramáticas. Porque os empresários precisam saber que quanto mais formos e mais unidos formos também é mais fácil para nós passarmos a voz dos empresários junto do governo que todos os dias lidamos com ele e estamos em permanente dialogo no sentido de passarmos as mensagens de todos os empresários. É por ser muito difícil de entender que a AHRESP criou desde a primeira hora um gabinete de apoio a todos os empresários que está disponível todos os dias da semana incluindo sábados e domingos. Temos tido imensas solicitações, imensa procura e a nossa preocupação é todos os dias estar a fazer a vida mais facilitada aos empresários. O objetivo é estar permanentemente atualizados e passarmos de imediato a mensagem aos nossos associados poderem usufruir do pouco que vai surgindo e que vai aliviado alguma coisa pelo menos por agora.

PA: Mas a pergunta mais especificamente é como é que foi a negociação na medida que houve aqui um certo sentimento talvez dado devido à importância deste sector. É claro que o ambiente é bastante exigente também para os governantes que têm que tomar conta de um país e não especificamente de um sector. Há até quem ache que teve que se levantar e dizer que era preciso terem tomates e que acha que isso teve o seu impacto. Rlvez mais do que a AHRESP o certo é que o reconhecimento da especificidade da restauração não foi imediato o que por outro lado também é natural. A minha pergunta especifica era como é que a AHRESP viu a evolução da sinalização da restauração junto do governo?

AJ: A negociação com o governo já estava a ser feita há bastante tempo antes desses movimentos que aparecerem nas redes sociais. Portanto desde a primeira hora que nos ouviu, desde a primeira hora que estamos a trabalhar em conjunto. E muitas das medidas que vieram a ser preconizadas, por exemplo, a linha de micro-crédito do turismo de Portugal, numa fase inicial esta linha nem tinha a restauração como elegível portanto foi preciso a AHRESP conversar com o governo, mas isto nem sequer foi conversado exteriormente, isto foi um diálogo direto com o governo no sentido de incluir a restauração na medida e portanto ela quando veio a público já tinha a restauração incluída. Mas a verdade é que estava pensada para não apoiar o sector da restauração. Portanto nós desde a primeira hora, independentemente desses movimentos que vão sempre surgindo, até porque isto é tudo novo para todos. Há muito desespero, muita falta de tranquilidade, não se conhece o amanhã portanto é normal que surjam esses movimentos. Averdade é que a AHRESP desde a primeira hora esteve sempre em diálogo com o governo e não partilho da tua ideia de que o sector não foi ouvido ou reconhecido, desde a primeira hora que o foi e se não fosse verdade não tinham aprovado esta linha de micro-credito que tão importante é para as micro-empresas. Devo-te dizer que do inquérito que fizemos, 77% das empresas dizem que não recorreram às linhas de financiamento, mas dos 23% que recorreram, recorreram à linha do micro-crédito do turismo de Portugal. Porque esta linha é uma linha de apoio direto, são 750 euros por colaborador num prazo máximo de três meses sem juros, é um processo automático os empresários preenchem um formulário em cinco minutos. O turismo de Portugal avalia rapidamente e já estamos neste momento com muitas empresas a serem ajudadas nessa linha. Como te digo esta linha não tinha como ilegível a restauração portanto foi preciso a AHRESP conversar e o governo reconheceu de imediato a necessidade de contemplar a restauração nesta linha e fê-lo. Portanto não partilho da ideia de que não houvesse da parte do governo o reconhecimento da importância do sector. O que eu digo é outra coisa que ainda temos um longo caminho pela frente, porque de facto as medidas estão a injectar dinheiro na tesouraria das empresas. Vamos continuar a trabalhar com o governo. Ainda hoje de manhã tivemos em mais uma reunião com o ministério da economia e a secretária de estado do turismo e, mais uma vez, voltámos a pôr em cima da mesa um conjunto de medidas que achamos essenciais para que de facto as empresas possam sobreviver e reerguer-se o mais de pressa possível. Nós não podemos só pensar no hoje, temos que pensar que amanhã, queremos estar a trabalhar como sempre tivemos, somos um sector que puxa a carroça de toda a economia e que mais empregabilidade dá, mas para isso não é só aliviar agora, temos que pensar agora e no futuro.

PA: Há uma certa ideia de que se não for o dinheiro da união europeia a poder a ajudar que nunca chegaremos a essa possibilidade de fundos perdidos ou algo semelhante. Que resposta é que tem dado o governo?

AJ: Nós pensamos que vai ser inevitável esse reforço porque as nossas finanças publicas têm as limitações que sabemos e esta situação vai-se agravar, não vejo outra forma. Como diz o nosso inquérito, cerca de 80% das empresas vão ter uma faturação zero nos meses de abril e maio. Portanto eesta situação vai-se agravar e provavelmente as finanças públicas portuguesas não vão ter capacidade para apoiar na medida e com a dutação desejadas. Por isso mesmo é que nós fazemos parte de uma Europa e é aqui também nestes momentos que temos que ver afinal de contas o que é que é isto de fazer parte de uma comunidade europeia, não é?

PA: Dizias há pouco que não estamos preparados, mas por outro lado se há uma entidade que tem algo para contar sobre isto é a AHRESP que é uma estrutura que tem mais de 100 anos. Portanto nos vossos arquivos devem estar lá históricos de momentos difíceis anteriores. E depois quem passou a crise de há cerca de 10 anos não tendo a vacina para o que se passa hoje, alguma coisa se preparou. Para não falar de há 20 anos a seguir ao setembro de 2001 também as coisas ficaram terríveis. Portanto a cada 10 anos aqui estamos nós sob os maiores desafios. Michele quem é que são agora os clientes que vão buscar a comida já preparada à Mercearia Gandanha?

MM: Quem vem à Mercearia acaba por ser o cliente habitual só que agora estamos reduzidos a Estremoz que tem pouquíssimos habitantes e muitos restaurantes portanto as pessoas dividem-se para ajudar aos outros também que estão na mesma situação que a nossa. Trabalhávamos com 40% dos clientes aqui de Estremoz e 60% eram de fora, nacionais e internacionais, agora estamos reduzidos aos locais o que também não é fácil. Algumas pessoas que são nossos clientes estão a viver o período de layoff nas suas empresas ou têm o trabalho reduzido e isso também diminui o poder de compra e não podem estar a comprar comida fora todos os dias.

PA: Ok. São momentos excepcionais estes que vivemo, é uma época de partilha, pessoas com boa solidariedade que partilham uns com os outros. Tânia, fala-nos um bocadinho mais desse projecto de confeccionar para os profissionais de saúde?

TD: Sim, isto foi um pedido que nos chegou através do Vasco Coelho Santos e nós aqui no Porto somos 11 restaurantes e dividimos por dia os afazeres. Cada restaurante faz a refeição num dia para ser entregue no dia seguinte. Nós andámos à procura de quem nos fornecesse alimentos e produtos para podermos fazer refeições. A partir de hoje vamos ter o Continente que nos vai ajudar com os produtos e a partir de agora vamos todos começar a produzir para entregar nos hospitais.

PA: No quadro destas alterações em curso, alterou-se também a maneira como as pessoa se vão relacionando umas com as outras, ainda que à distância. Há os grupos do WhatsApp, há os telefonemas, há a partilha dos diplomas, há a partilha de casos práticos. Como é que tens visto isto? Tu já te sentias naturalmente parte da comunidade dos empresários, dos cozinheiros da restauração do Porto e do país. Como é que te sentes agora neste ambiente de partilha?

TD: Sim, eu acho que conseguimos criar uma união entre nós, pelo que eu tenho percebido e tem chegado a mim, todos nós queremos apoiar uns aos outros. Partilhar informação, partilhar experiências e acho que nos está a unir ainda mais do que antes. Porque antes havia sempre uma rivalidade, uma competição entre restaurantes, entre cozinheiros e agora não acho eu estamos todos realmente a sentir que cada um de nós faz parte de um todo e que temos que batalhar juntos para conseguir chegar a algum bom porto.

PA: Quando falamos em nós, queres dizer um novo tipo de restauração levado por diante por um conjunto de profissionais, maioritariamente um conjunto de cozinheiros que são empresários? É a chamada nova geração que existe por várias partes do país. Como é que tu observas os outros? Aqueles restaurantes mais tradicionais que também é familiar como o teu por exemplo e como muitos outros, mas que não participa nestes grupos?

TD: Aliás, há restaurantes aqui no Porto que estão a fazer esse tipo de refeições também e eu não acho que haja uma separação entre os tradicionais e os modernos, digamos assim, neste momento. Acho que somos realmente um todo e todos nós sejamos modernos ou tradicionais estamos todos a passar pelo mesmo os problemas são similares uns aos outros. Por isso eu não sinto que haja uma separação.

PA: Eu gostava de ter essa certeza, mas é que no Porto existem uma dúzia de líderes, se tanto, e existem uma centena de outros que não são como vocês.

TD: Pois, eu entendo, mas eu gosto de ter uma visão mais positiva.

PA: Eu acho que eles estão fora do radar talvez.

TD: Talvez, por exemplo, quando nós começámos com esta iniciativa eu percebi que havia alguns chefes que tinham medo de se exporem ao perigo e mesmo as equipas deles. Nós, se calhar, por sermos mais jovens, achámos que devíamos fazer isto, mas eu também percebo a parte deles em não querem sujeitarem-se a isto. Não quer dizer que não queiram ajudar, mas se calhar estar um bocadinho de pé atrás e de reserva em relação a isto, porque fazemos com todo o cuidado possível, mas não é totalmente seguro digamos assim.

PA: Eu não falo de ajudar, eu falo dessas empresas familiares que terão com certeza dificuldades a aceder, a não ser que sejam sócios da AHRESP.

TD: Eu espero que as empresas mais tradicionais e com mais anos estejam mais preparados do que nós porque acho eu que com mais anos mais preparados estarão para uma catástrofe pelo menos em termos económicos.

PA: Acredito que sim. São estruturas familiares onde é só a família a trabalhar, há aí uma possibilidade de aguentar.

MM: Eu discordo porque acho que é sempre na preocupação da quantidade dos envolvidos. Se é uma empresa de três pessoas, são essas três pessoas que vão sofrer, é o mesmo que uma empresa com 10 ou 500. É na sua proporção Paulo, eu discordo um pouco.

TD: Eu acho que sim, também é exatamente na mesma proporção. Nós somos quatro e está a ser igual a uma empresa de 500. O que eu estou a dizer é que uma empresa com mais longevidade no tempo provavelmente estará mais apta a combater um problema financeiro. É neste sentido.

MM: Nós temos 10 anos e há empresas muito mais antigas do que a nossa, falo do meu conhecimento, nós temos 10 anos de Mercearia e sete de restaurante. São sete anos que foram de investimento atrás de investimento, não? E entretanto a tesouraria está a zeros. E estamos na mesma situação do que uma empresa que abriu há quatro ou cinco meses.

PA: É por isso que eu falo no grosso das empresas portuguesas que são familiares que têm menos de 10 pessoas e que há ali um modelo de negócio que tem que ver com o aguentar sucessivo porque tudo fica mais ou menos em casa. Nem por isso a gestão do restaurante é especializada é uma continuação que levou ao aguentar. E provavelmente, uma boa parte, foi ficando ao longo destes anos com outras crises, aquela onda da ASAE teve uma atividade mais intensa há uns anos, mas a AHRESP é que sabe bem disto de certeza.

AJ: Eu só ia acrescentar que concordo com a intervenção que foi referida agora porque nós não nos podemos esquecer do nosso histórico e o nosso histórico não é bom. Nós tivemos há bem pouco tempo uma crise gigante no sector também muito provocada pelo IVA a 23% como sabemos. E isso não só depauperou as nossas tesourarias como tivemos que dispensar muitos trabalhadores como o diagnóstico do sector, e aqui leia-se restauração e hotelaria, na altura do IVA a 23%. Nós tínhamos cerca de 60% do sector com os evitas completamente a negativos em risco de falência. Era assim que estava o sector, como sabemos esta recuperações não são automáticas. O que vai a acontecer é que as empresas paulatinamente foram fazendo alguns investimentos, melhoraram os seus espaços, voltaram a contratar novos trabalhadores porque de facto o turismo e Portugal está na moda e começou a crescer e nós aproveitámos a onda fomos também dando resposta à procura que tínhamos, mas isto com grandes sacrifícios. Só agora é que estávamos efectivamente a criar equilíbrio. Este equilíbrio fez com que as empresas no início do ano fizessem mais investimentos, mais contratações e arrojaram e desafiaram-se a elas próprias, porque estávamos num momento bom com crescimentos sucessivos. É verdade que já não estávamos a crescer ao mesmo ritmo do ano passado, mas continuávamos a crescer e portanto isso deu confiança às empresas. E é nesse preciso momento em que há esses investimentos todos que nos cai esta pandemia em cima e isto é que foi avassalador do nosso ponto de vista. Portanto tanto as empresas maiores como as pequeninas, estão nas mesmas condições porque os seus capitais estavam reduzidos aos mínimos. Estavam agora a começar a estar equilibradas, foram feitos investimentos, criaram endividamento e foi mais uma vez uma tempestade. Todos vão ter muitas dificuldades se não forem apoiados. Muitas destas empresas têm um sócio-gerente que alimenta a família toda e nestes apoios criados não existem apoios para os sócios-gerentes. Eu diria que independentemente da dimensão nós temos aqui um problema grave que vai atingir todas se não forem ajudadas agora e depois da pandemia acabar.

PA: Se se compreende as medidas da AHRESP, falta pouco? Falta só vir esse apoio a fundo perdido?

AJ: Exatamente, é uma das medidas que nós temos insistido. É urgente o apoio a fundo perdido, porque não temos outra alternativa. Primeiro já temos aqui uma quantidade enorme de trabalhadores com contrato suspenso e em layoff como sabemos e depois aqueles que não vão conseguir pagar sequer a parte correspondente do layoff ou que vão fazer despedimentos, o estado vai suportar os subsídios de desemprego na mesma. Portanto a conta final não vai ser muito diferente e aquilo que nós queremos é que o estado segure e nos ajude a segurar as empresas e os postos de trabalho, porque os encargos que vão ter mesmo com este apoio irão ser sempre menores do que aqueles que vão ter com uma economia destruturada.

PA: E para aquelas empresas que já recorreram a créditos, acreditas que depois podem ter a esperança de também usufruir deles? Aquelas empresas que têm uma organização um pouco mais avançada e que por prudência ou outros motivos têm a possibilidade e toda a documentação necessária para levarem por diante esses créditos. Achas que elas depois também conseguem engrossar nessa fileira?

AJ: É assim, aquilo que nós pensamos é no que diz respeito às linhas de financiamento que foram criadas à parte das nossas empresas não vão ser elegíveis, portanto muitas delas não vão aceder. Aquelas que vão aceder vão ficar com encargos avultados no futuro. Nós vamos ter aqui um período grande onde de facto não vamos ter procura e se não vai haver procura significa que a caixa registadora não está a trabalhar e se não está a trabalhar como é que os empresários vão ter capacidade de pagar esse endividamento todo que estão a fazer agora? Mesmo as empresas mais estruturadas de grande dimensão vão ter esse problema.

PA: Então concluo que vocês estão absolutamente focados neste tempo e não no tempo a seguir, ou melhor, têm uma ideia que o tempo a seguir não será de uma recuperação imediata e que é preciso agir agora, mas pensar para depois ainda não está nos vossos planos. Que medidas devem ser feitas para ajudar na recuperação a nível de marketing, de reestruturação de oferta e desse tipo de empresários?

AJ: É evidente que neste gabinete de apoio que criámos para ajudar os empresários, nós ajudamos em diversas vertentes. Estão a ser trabalhadas em simultâneo várias ajudas. Nós não descuramos a necessidade de pensar no futuro, agora as variáveis são imensas, nós não sabemos exactamente o que é que vai acontecer amanhã, quanto mais daqui a um mês. E portanto aquilo que nós queremos é que agora se prepare o melhor possível para que de facto tudo seja mais fácil. As nossas forças estão concentradas em tentar que de facto hoje se consiga minimizar ao máximo os impactos desta pandemia e que tenhamos todas as condições para que assim que esta pandemia sair do nosso horizonte termos capacidade para nos reerguermos o mais depressa possível esse é o nosso foco. Obviamente que há muita coisa que mudou e que temos que pensar de outra forma daqui a uns meses mas agora o que queremos é que as empresas voltem a abrir e para voltarem a abrir nós precisamos de um caminho. Gritando a quem nos deve de ouvir e deve de trabalhar em conjunto connosco é esse o nosso foco.

PA: Muito bem, que venha então o resultado desse trabalho. Tânia, tu és uma cozinheira criativa, tens pensado em receitas? Tens pensado no futuro do Atrevo?

TD: Sim eu tento perspectivar aquilo que quero fazer a seguir, porque acho que manter aquilo que tenho com os preços que tenho não será de todo exequível, por isso estamos a pensar numa restruturação. Embora seja uma altura em que o pensamento é um bocado estranho porque não temos calma o suficiente para pensar e nem percebemos exatamente como será o futuro, mas estou a tentar criar algumas receitas novas também para me ocupar e tenho cozinhado em casa muito.

PA: Referiste o preço, esse é um tema que tem sido bastante falado numa perspectiva de recuperação que o preço será um facto determinante. Vê-se essa ideia de poder pensar em receitas e ofertas de custo mais reduzido. Ocorre-me agora um tempo passado que era o low coast, mas então é o preço?

TD: Sim, porque este problema está em todas as áreas e toda a gente vai ficar com muito menos poder de compra como já referiu a Ana Jacinto. Então eu penso que nós para chamarmos mais clientes temos que ter um preço apetecível, porque de outra maneira é mais difícil chamar clientes.

PA: E já pensaste sobre se manténs a tua linha mais modernaça de encarar a gastronomia ou se podes vir a ter de dar alguma viragem.

TD: Eu já comecei este restaurante formando um sonho, digamos assim, e como eu disse quando me despedi das pessoas nas redes sociais, quando fechei o restaurante, o meu sonho ficou suspenso. Quer dizer que então eu quero seguir a mesma linha, porque estava a correr muito bem, a adesão estava a ser muito boa. Nós ficámos mesmo travados no pico da ond, estávamos numa boa posição, estávamos bem. Estávamos com esperança neste ano que ia ser incrível e aconteceu-nos isto. Isto também é um tempo para pensar e se calhar daqui a um mês estou a dizer uma coisa completamente diferente, mas por agora nós queremos continuar a fazer aquilo que fizemos.

PA: Michele, este tema do preço é um tema das grandes cidades ou é também um tema do interior? E o que é que prevês para o futuro? Por outro lado até pode ser uma maneira de nos entretermos a imaginar tempos melhores uma vez que não são nada encorajadores.

MM: Eu penso sempre no lado positivo dessas crises, a união das pessoas, para os clientes, não é? Nós conseguimos tratar os clientes pelo nome aqui, por isso não sei. Também tenho estado a pensar de que forma é que vai ser o nosso regresso. O take away é pensado de uma forma em tentar minimizar o custo daquele prato ao máximo e manter a qualidade o que é bastante difícil, não é? Tenho tentado recriar e reinventar com aquilo que tenho aqui. Tenho tentado ter preços mais em conta para o take away. E depois para o restaurante se se mantiver os postos de trabalho há-de ser difícil reduzir o preço. Os produtos estão cada vez mais caros, não sei, a não ser que baixem também a matéria-prima.

PA: A matéria-prima vinda daqueles que entretanto consigam manter a produção.

MM: Exato, também.

PA: Tens tido alguns ecos dos produtores, que situação é que os teus fornecedores passam atualmente?

MM: Vou entrar agora na segunda semana de take away, não consigo saber ainda.

PA: Bem, passou quase uma hora. Obrigado pelo vosso tempo, os tempos são como são e nós sabemos que é preciso coragem, resistir e seguir em frente.

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