Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Nuno Mendes em Londres (Chiltern Firehouse; Mãos; Bairro Alto Hotel) e António Galapito (Prado, Lisboa) e Miguel Pires (Mesa Marcada) em Lisboa para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Bem-vindos ao 14º episódio do Boca Mole, temos o Miguel Pires e o António Galapito em Lisboa e o Nuno Mendes em Londres. Vamos começar pleo Galapito que acaba de reabrir o Prado para serviço de delivery e take away. Como é que está a correr António?

António Galapito (AG): Está a correr, está a correr.

PA: Está a começar à aquecer?

AG: Está a caminhar a longos passos, mas vamos lá a pequenos passos.

PA: Que parte da equipa é que está a trabalhar?

AG: Nós temos mais ou menos metade da equipa em layoff a 25% e a outra metade está a trabalhar. A malta está a fazer trabalho duas semanas e depois descansa duas semanas, ou seja, só fazes mais ou menos 80 horas durante o mês todo em vez das habituais 160, em alguns sítios. E vamos ver como é que vai correr para tentar salvar os outros que estão em casa.

PA: Decidiste reabrir para take away… quer dizer que estás à procura de um caminho. Mudaste o menu? Como é que foi?

AG: Até agora ainda não mudámos muito o menu, adaptámos simplesmente os tamanhos das porções, há pratos que não viajam, mas sempre a apostar mais na comida de conforto não é e em cenas quentes. Epá vamos ver como é que corre. Nós começámos também a mercearia e a mercearia é mais o caminho e estamos a apostar muito mais nisso num serviço de talho premium com todas as nossas carnes que conseguimos.

PA: Então mas o teu fornecimento está regular… Isso não são coisas que já tinhas antes, naturalmente são coisas que vais recebendo não é?

AG: São coisas que já tínhamos antes a maturar.

PA: Boa dica, temos que encomendar aí qualquer coisa, está no ponto.

AG: Ya, ya. Tenho lá porco alentejano do Freixo do Meio já com 60 dias de maturação. O Lucas também nos ofereceu um porco para tentarmos aproveitá-lo e vendê-lo, isso está na nossa loja. Nós tínhamos comprado também um boi maronês com 450 quilos em fevereiro e mal lhe tínhamos tocado e é provavelmente uma das melhores carnes que eu já vi na minha vida. O Pires provou lombinho.

PA: Nuno e tu como é que está o Chiltern Firehouse, está fechado?

Nuno Mendes (NM): Está tudo fechado, a única coisa que continua a funcionar é o Fuel For Learning-

PA: Não há restaurantes aí em take away é isso?

NM: Há alguns, houve muitos restaurantes que tentaram assim que a coisa mudou, mas há muito pouca gente a conseguir facturar e muitos deles estão a voltar a fechar. Acho que take away não funciona por isso acho que a maior parte dos restaurantes estão fechados.

PA: E o projecto recém aberto em Lisboa do Bairro Alto Hotel também está fechado?

NM: Sim, sim. Está fechado, a equipa está em layoff e estamos a ver quando é que conseguimos voltar. Em principio será em finais de abril acho eu. Será a tentativa.

PA: Ok, olha que desafios é que te passam pela cabeça a seguir, na reabertura? Mudar os menus? Esperar para ver?

NM: Não sei, eu acho que temos uma oportunidade de repensar bem as coisas, tentar melhorar. Vamos continuar à conversa, vamos continuar a melhorar, a equipa está a testar coisas em casa, nós estamos a testar coisas e a discutir coisas à cerca do projeto. Acho que ninguém sabe o que vem do outro lado, não é? Acho que a realidade do outro lado é um bocadinho diferente desta, a maneira como as pessoas estão a consumir acho que vai mudar bastante. Na realidade está tudo a pensar o que vai acontecer depois, estamos a tentar ajustar o que temos, sabemos que a coisa vai ser um bocado difícil. A economia vai estar de rastos pelo menos aqui em Londres está, vai ser difícil o relançamento dos projectos todos e acho que muitos deles não vão ter capacidade de voltar à abrir. Acho que as pessoas vão consumir de uma maneira diferente, vão consumir menos provavelmente. Acho que isso vai afetar muita gente no nosso ramo, vamos levar uma porrada enorme.

PA: Ok, Miguel o teu trabalho é visitar restaurantes e escrever sobre isso, agora a coisa está paradíssima. Que coisas é que te têm passado pela cabeça? O que é que tens sentido? Há muito tempo que não sabíamos de ti, pá.

Miguel Pires (MP): Não sei porquê, eu obviamente estou em casa, tenho um filho de um ano e meio que me ocupa grande parte do meu dia e tenho outras coisas importantes como por exemplo facturar, porque não sei quando vou voltar a facturar. Portanto eu não tenho dúvida e tenho falado com alguns chefes e pessoas do meio cá, tenho feito uns diretos eram diários que agora deixaram de ser. Tenho acompanhado muito a restauração brasileira que sigo muito, tenho lá parte da minha família a minha mulher é de São Paulo. Não é que me interesse mais pelo o que se passa lá do que se passa cá, mas partilhamos obviamente o que está a acontecer e muito sinceramente também sim, tive um bocadinho ausente. Houve ali uma tomada de movimento que não me agradou muito e como acho que o momento não era de ir para as redes sociais provocar, mas sim esperar para ver o que é que as coisas iam dar, acho que fiz bem em não intervir. Há momentos em que queres fazer coisas mas não sabes bem o quê. Se compras take away ou a produtores, como vocês sabem eu gosto muito de comprar a produtores e comecei a comprar comida aos produtores para cozinhar em casa. De repente, dou por mim a cozinhar com um produto que nunca tinha tido acesso. Nós queremos ajudar mas às vezes sentimo-nos impotentes, fazemos algumas coisas, tentamos divulgar. Posso fazer muito mais mas às vezes também me sinto um pouco preso sem saber, um pouco à toa, mas sinto perfeitamente que não tenho sido muito pró-ativo. Acho que às vezes também é bom reflectir, ficar um pouco calado do que andar aí a disparar. Vou acompanhando as coisas. Acho eu que cada um está a tentar virar-se da melhor forma que pode. Eu como consumidor tenho tentado ajudar a comprar produtos para cozinhar em casa. Acho eu que isto tudo é um dominó, vocês são as primeiras peças mas tudo vai cair. Por exemplo, eu não tenho uma paragem de rendimento agora instantânea, mas estou a tentar receber de trabalhos que fiz porque não sei como vai ser daqui para a frente. Voltando ao assunto, acho que há alturas em que uma pessoa não consegue muito bem saber o que acha e acho que deve sair e não começar a mandar merdas para o ar.

PA: Olha tens acompanhado São Paulo, partilha aí o que é que se passa lá?

MP: Há um projecto com o apoio de uma ou outra empresa parecido como que se falou aí da questão dos vouchers. A pessoa compra um voucher de um restaurante para ser usado mais à frente. Na verdade, tenho algumas dúvidas, a ideia parece-me ótima e inclusive a própria Alexandra é impecável, mandou-me uma mensagem para se eu quisesse falar para participar nessa iniciativa como Pro Bono poderia começar. Estive vários dias a pensar, a tentar perceber com as pessoas dos restaurantes porque a ideia é não excluir ninguém porque faz sentido abrir as portas não só à restauração independente como a algumas pessoas que queriam, como empresas maiores.

PA: Não ficou muito claro. A ideia era poder adaptar o projecto a Portugal, era isso?

MP: Exato. O projecto chama-se GGG – Gentileza Geral Gentileza, é uma plataforma associada a uma plataforma de pagamento MBWAY em que as pessoas fazem um voucher e o dinheiro vai directamente para a conta do restaurante. Esse voucher a pessoa vai poder utiliza-lo mais à frente a partir de outubro. Se o restaurante infelizmente não voltar a abrir a pessoa não tem direito a reclamar esse dinheiro. No fundo há aqui um bocadinho de risco. No fundo estás a dar um donativo. É como um empréstimo que vais ter que pagar mais tarde, vai precisar desse dinheiro agora para pagar ordenados, mas em outubro vais ter que pagar isto de outra forma, porque a pessoa vai te chegar lá com o voucher e tu não vai receber dinheiro dessa refeição porque já cobraste seis meses antes. Eu vejo alguns restaurantes de uma forma individual a ir por aí, sinceramente não sei se isto em Lisboa, em Portugal teria uma boa aceitação, porque São Paulo tem 11 milhões de habitantes, não é?

PA: Oh Nuno, tu já tiveste num projecto em que te relacionaste com uma plataforma de crowdfunding. Achas que os londrinos são mais propensos à partilha? Achas que era um tipo de solução que poderia resultar aí?

NM: Essa iniciativa tem sido bastante usada aqui. Há vários restaurantes que estão a propor essa iniciativa dos vouchers, ou seja, é um pouco para a comunidade, para os amigos, para a família e para os clientes habituais. Tem sido uma boa maneira de continuarem a dar support, não é? A patrocinarem um pouco os restaurantes e esse dinheiro vai ajudando um pouco também os projectos aqui para poderem pagar o staff, pagarem as contas que têm que pagar nestes tempos em que estão praticamente fechados.

MP: Não é uma plataforma simplificada, não é uma pessoa que vai ao MBWAY e transfere dinheiro rapidamente.

NM: Não, cada restaurante tem a sua plataforma própria, ou seja, a tem o seu formato próprio.

PA: Pode ser só uma afirmação em redes sociais.

NM: Sim exatamente.

PA: António, tu tens continuado a encomendar? Alguma coisa hás-de encomendar, não? Ainda no outro dia ouvi que três quilos de berbigão foi a única coisa que veio do Algarve… Mas olha, o que eu queria saber era que se quando acabar essa proteína tu tens vais encomendar mais?

AG: 700 quilos? 700 quilos? Vai demorar um bocadinho. Obviamente que nós vamos encomendando vegetais e não sei o quê mas estamos a fazer o resto carne, temos um peixe ou outro. Não podemos comparar o que nós estávamos a fazer há um mês atrás e o que estamos a fazer agora, não é? Uma semana antes de fecharmos nós tínhamos comprado um atum de 30 quilos, mais duas barrigas de atum cada uma com 10 quilos e agora um pargo dá para três dias e para vender aquilo é um esforço. Encomendamos à medida que vamos precisando, eu estou em contacto com os nossos produtores e todos os dias.

PA: Tu tinhas uma boa percentagem de clientes que não eram locais, certo?

AG: Sim.

PA: Mas agora tens que trabalhar exclusivamente com clientes locais.

AG: Sim mas também há muitos estrangeiros a viver em Lisboa e eles já nos contactaram assim como os nossos clientes estrangeiros e os locais. Sempre tivemos uma clientela portuguesa que vinha cá bastantes vezes, nos primeiros seis meses a nossa clientela era essencialmente portuguesa mas depois começou a evoluir muito para o estrangeiro, mas muito para Londres.
Por isso é que estou preocupado com a situação de Inglaterra, é importante. [Depois de inglês, o nosso pública passa] se calhar por americanos, franceses e alemães. Brasileiros não são muito o nosso público.

PA: Miguel, tu conheces a restauração e até tens um guia sobre isso, neste caso em Lisboa, mas também conheces o país. Tens alguma ideia como é que os restaurantes vão encaixar dentro das possibilidades que têm para sair dista? Sabes que houve uns pacotes que têm a ver com apoios e que começaram a ser mais ou menos orientados à restauração que não eram muito. Consegues imaginar, por exemplo, o restaurante típico português e a forma como é que ele conseguiu encaixar o que é que se passou?

MP: Olha, é muito difícil. Acho que cada um tem as suas contas. Há tantos itens diferentes, costuma-se dizer que o maior custo de um restaurante é a mão de obra, não é? Mas isso depende do tipo de restaurante… Se tu fores para a província a mão de obra não é assim tanta, não é? Eu não acho que seja igual em todo o lado. Poderei dizer que a zona mais afectada será a zona de Lisboa, provavelmente Lisboa e Porto foram quem mais lucraram com o boom do turismo e também são aqueles que mais vão sofrer. Porque não só é onde há mais concorrência de outros restaurantes mas também é onde as rendas aumentaram estupidamente. É onde havia falta de mão de obra e onde felizmente agora não vai haver. Por isso, para o bem e para o mal aqueles que mais beneficiaram são aqueles que provavelmente também vão sofrer. A nível de província eu acho que cada caso é um caso. Obviamente que a disponibilidade das pessoas na província para gastar no restaurante não tem nada a ver com Lisboa. Por exemplo, Rio Maior, a cidade dos meus pais, tem praticamente zero de turismo, muito pouco. Eu acredito num Portugal mais real vai afetar obviamente, mas eles já eram muito afetados, não é? Nós estamos tão fechados às vezes em Lisboa que achamos que a realidade do país é Lisboa ou Porto mas não é. Eu acho que esse boom do turismo não chegava ao país todo de forma igual, por isso, a forma como vão sofrer…acho que já sofriam muito.

PA: Sim, tudo bem, mas a pergunta é tendo em conta essas características que tu salientaste, empresas familiares em que a maior parte da família trabalha lá, em que os custos estão ali mais ou menos todos em casa, são restauradores que têm restaurantes há 20, 30 anos, mas se calhar têm há um ano vezes 20 ou 30.

MP: Às vezes o take away é idêntico à pessoa ir lá.

PA: Mas a questão é que o que se viu foi que houve um conjunto de medidas em que era preciso tomar um conjunto de ações em que eu não estou certo que esse tipo de restauração tenha entendido bem e que tenha de facto feito alguma coisa.

MP: Pois, pois.

PA: Nós falámos aqui em layoff, quem tem um contabilista que é uma personagem activa pode estar mais informado em acção, quem tem simplesmente um guarda livros que é a pessoa que não faz grande intervenção não sei se se estará a safar. Bom.

MP: Hoje em dia está tudo à mão e há sempre quem ajude, existe de facto uma iliteracia que faz com que as pessoas não saibam aproveitar como deve de ser das coisas.

PA: Nuno achas que isto pode ser um desafio? Por exemplo, o fim do fine dining? Ou alguma coisa parecida?

NM: Sim eu acho que há muita coisa que está a mudar agora que não sei como vai voltar. A nova etapa acho que vai ser diferente da antiga, muita coisa vai mudar, a maneira como as pessoas comem. Acho que o fine dining vai sofrer bastante, acho que as pessoas aqui estão a pensar como estão a consumir e o consumismo que estão a ter aqui. Este lockdown tem forçado as pessoas a serem um bocadinho menos, a gastar menos. A serem um bocadinho mais pausadas, mais ponderadas, a pensarem naquilo que consomem e não consomem, nos produtos, a procurarem pessoas, projectos com que se alinhem. Já não é aquele consumismo que havia há dois meses, não é? Havia dinheiro portanto toda a gente gastava. Ninguém pensava no que gastava, gastavam só porque podiam e isso acho que vai mudar muitas coisas aqui. Aqui e acho que em todo o mundo. Nós temos uma data de coisas a acontecer aqui ao mesmo tempo. não é? Eu estou a sentir que aqui a restauração vai mudar bastante. Os grandes office centers estão a acabar. as pessoas estão a começar a trabalhar em casa. Isto vai ajudar com que as pessoas sejam um bocadinho mais autónomas e isso vai ter um grande efeito na economia e no consumismo, mas acho que muitas dessas coisas são positivas. Eu tenho de pensar no que é que eu posso fazer no futuro, o que é que eu posso mudar na maneira como eu trabalho e na maneira como eu interajo com as pessoas. Eu quero cada vez mais ter mais consciência disso e pronto alinhar-me cada vez mais com pessoas, com projetos e com ideias com que me identifico totalmente.

PA: Olha do ponto de vista do que vês aí da tua janela como é que foi? Encostaste logo? Os ingleses tiveram aí um tempo doido do contágio colectivo para imunização colectiva mas depois deixaram-se disso.

NM: Não, nós tirámos os miúdos da escola quase uma semana e meia antes de fechar porque sentimos que o isolamento era necessário. Temos um filho que tem problemas de asma portanto tivemos que ter cuidado para que ele não apanhasse o vírus e tivesse que ir para o hospital. Isolámos logo e desde aí temos obedecido às regras. Eu saio com os miúdos para darmos uma volta de bicicleta para fazermos um pouco de exercício. Ficámos meia hora o máximo fora de casa. Estamos em isolamento total . O isolamento tem acontecido aqui, vejo aqui na zona as pessoas a adotarem estas medidas. Há zonas de Londres em que as pessoas ainda não estão a aderir a isto, mas aqui sim, muita gente tem.

PA: Ok, oh António, eu tenho falado com muitas pessoas que acham que vão rever o que estão a fazer e outras nem por isso. Tu achas que vais sentir a necessidade de rever o teu projeto, a tua proposta aos clientes?

AG: Olha, eu acho que o que está a acontecer até tem bastantes coisas positivas, todos os consumidores estão a voltar ao comercio tradicional, aos pequenos, ao pequeno produtor e isto já são coisas que nós defendíamos, dentro disto nós estávamos mais ou menos corretos, nós e vários restaurantes como é obvio espalhados por vários sítios. Portanto dentro desse aspecto se calhar não temos que nos rever assim tanto, não é? Não andámos a fazer um mau trabalho e acho que os nossos futuros consumidores se calhar vão se rever ainda mais nesse tipo de coisas, então acho que nesse aspeto até é bastante positivo. Espero eu que seja assim e acho que será e muitos dos nossos clientes é isso que têm comentado.

PA: E tu e o teu modelo?

AG: Eu não sei sinceramente, tenho que esperar, temos que ver a evolução, ninguém vai sair no dia seguinte de casa mas se calhar vão sair porque já estão fartas de estar em casa. Eu não consigo avaliar isto. Não sei.

NM: Eu acho que as pessoas vão ser muito mais seletivas quando tiverem que sair de casa, vão pensar onde é que querem ir e aí está. Eu sou grande fã do projecto do António por isso eu acho que o projecto como o Prado vai ser um projecto que vai continuar, porque acho que cada vez mais as pessoas vão ficar com projectos como esse. E acho que projectos onde não haja tanto coração e aquela conexão entre o produto, são mais para turistas e se calhar esses vão sofrer mais.

AG: Eu acho que esta era a chapada de humildade que a humanidade precisava.

MP: Já se começava a notar que provavelmente ia haver uma pequena quebra no turismo e essa pequena quebra já ia fazer uma grande mossa aos grupos de restauração e também em alguns grupos que trabalharam muito em prol do cliente estrangeiro. Eu vivo numa zona que tem muitos franceses, brasileiros vivo numa casa com uma brasileira e tenho amigos brasileiros cá que têm disponibilidade financeira para pagar certas coisas e muitos restauradores tiravam partido disso. Tenho a sensação que às vezes se esqueciam do cliente português e como estavam a pagar rendas altíssimas, entraram também naquela escalada de eu pago aquela renda então eu tenho que cobrar mais, então não pensaram no povo português porque tinham uma cidade a fervilhar com turistas, então a bolha foi insuflando, insuflando. Acho que ela ia começando a esvaziar e o problema é que não começou a esvaziar lentamente.

Como é que as coisas se vão reinventar? Não há dúvida que os negócios vão passar muito mais pelo digital. Eu trabalho em casa há 10 anos, eu antecipei-me à tendência e agora é uma obrigação. É claro que nos restaurantes tu não comes virtualmente e ainda bem. Por isso acho que os negócios tipo Uber Eats, para o bem e para o mal, que vão continuar em grande. Gostava que aparecesse uma plataforma portuguesa e que as pessoas que fizessem essas entregas fossem melhor remunerados e que quem comprasse pudesse pagar mais.

PA: Eu não sei se estás a par dos preços que essas plataformas cobram, chegam a mais de 30%.

MP: Eu posso ser mauzinho agora e ser contra-corrente. No outro dia, um chefe amigo nosso estava a queixar-se e eu lembrei-me logo de uma coisa que acontece como os produtores de vinho quando vêem um vinho deles marcado a 300 ou 400% a cima do valor em restaurantes. Quando se queixam das plataformas esquecem-se que também alguns de vocês que cobram 300 ou mais pelo vinho. Vão me dizer que a estrutura é cara e que há que pagar ordenados, certo. Mas pensem que é uma coisa que não dão tanto valor como dão à comida, não é?

PA: Epá eu percebo mas colocarem em cima de uma garrafa que é um produto já feito. Agora no caso diretamente vais buscar ao prato, não sei como é que aguenta.

MP: Não, eu percebo isso. A questão é de facto como é que se aguenta.

NM: Agora temos acesso a produtos interessantes em casa, alguns restaurantes que eu gosto ainda conseguem fazer o delivery service, ou seja, eu acho que o Uber vai levar uma porrada do caraças, porque a maior parte dos negócios que conseguirem sobreviver a esta crise quando abrirem vão ver que esta faceta do negócio vai ser rentável. O Uber Eats neste momento competia porque ninguém queria fazer o trabalho do Uber Eats, porque ninguém dos restaurantes queria servir a sua comida em Uber Eats e não queria pagar a taxa de 30%. Agora vai começar a haver clientela, as pessoas vão trabalhar mais em casa e vão começar a consumir mais dessa forma e isso aí vai ar uma tareia enorme ao Uber e os pequenos negócios vão ter essa capacidade de oferecer esse modelo de oferta. Acho que vai ser uma oferta que vai continuar presente no nosso mercado agora.

PA: António, quem é que faz as vossas entregas?

AG: Quem faz as entregas somos nós. Nós alugámos um carro para duas vertentes_ para a malta que trabalha aqui ir no carro e voltar para não andar nos transportes públicos e depois para essa coisa das entregas. É complicado porque tu só consegues fazer X entregas durante determinado tempo para a comida sair quente e chegar quente. Nós estamos a ver e, até 20 minutos, ela chega quente está aceitável, a partir de 25, 30 já começa a perder um bocado a temperatura, mas também alguns pratos são facilmente regeneráveis, nós estamos a sair com uma encomenda de uma vez, no máximo duas.

MP: Achas que quando fizeres contas isso é rentável ou é uma forma de andares um bocadinho mais ocupado?

AG: Nós estamos a apontar…são nove entregas ao jantar, 12 entregas ao almoço, mais os pick ups, ou seja, nós aqui não estamos a tentar que isto renda nada, estamos aqui a tentar pagar os ordenados, pagar as contas, pagar aos fornecedores e meter isto a girar um bocadinho. Pronto, isto são umas escadas autênticas, nós estamos afetados primeiro, a seguir são os nossos fornecedores quando ao final do mês não tivermos dinheiro para pagar. É importante voltarmos e tentar salvar o máximo de postos de trabalho porque existem pessoas na nossa empresa que obviamente que sabem que estão na corda bamba. Por isso estamos aqui hoje a fazer entregas e a lidar com isto para não chegar a acontecer.

MP: Há um restaurante aqui de bairro que apela ao sentido de comunidade, nós vemos Lisboa como uma cidade grande e aqui no bairro este restaurante está a entregar vinho e comida na vizinhança para tentarem manter as duas pessoas do staff. Provavelmente, eu ainda não pedi, mas deve ser o pessoal do staff que está a entregar aqui. Claro que a zona do bairro é uma zona que eles tinham muitos clientes, clientes estrangeiros que vivem aqui. É interessante que nós às vezes esquecemos-nos destes negócios mais pequenos. Já não falo deles porque eles até são mais ou menos falados, mas imagina aqueles que vendiam a refeição a 10, 12 euros que ninguém sabia quem eram, só os empregados dos escritórios que estavam ao pé e iam lá almoçar. Essa pessoas, neste momento, não estão lá a trabalhar, então esses restaurantes não sei se voltam.

PA: Olha, nós estamos aqui a falar ao largo de alguns aspectos da fileira da gastronomia. Não fomos à produção, demos um toquezinho, mas há uma parte na fileira na qual nós estamos envolvidos particularmente, eu e tu, que tem que ver com o tema dos eventos e, no teu caso, os teus prémios Mesa Marcada. Já pensaste como é que vai ser no ano que vem?

MP: Epá, engraçado já pensei no da Michelin, que duvido que haja. O 50 Best Restaurants já adiaram, sinceramente às vezes não sei porquê, porque a votação estava feita é uma questão um bocadinho mais moralista, mas não adiaram o da Ásia. Sinceramente não sei, fisicamente não havia razão para o fazer. O Mesa Marcada ainda falta muito, nós trabalhamos muito em cima do ombro. É obvio que se é baseado em visitas que as pessoas fazem aos locais ao longo de um ano e meio eu acho que há condições para fazer. Mas também não sei quanto tempo isto vai durar, se isto se prolongar até setembro ou outubro provavelmente não faremos mas se isto for até junho, baseado em experiências de 18 meses, acho que se pode fazer. Depois obviamente que vai haver pessoas que vão dizer que não foram a restaurantes suficientes e não querem votar. Por outro lado acho que queremos talvez incentivar a que haja. Acho importante continuar a dar relevância ao trabalho das pessoas, se calhar vamos poder dar um prémio que algumas pessoas quiseram especiais nesta altura, mas ainda é muito cedo para isso e sinceramente não é mesmo a minha preocupação. Há tanta coisa importante para se saber agora do que se saber se vamos fazer os prémios em janeiro.

Eu tive uma ideia um bocado idiota que foi eu faço a crítica mensal para a Revista de Vinhos e, por acaso, podia ter feito para um restaurante que já visitei há um mês e meio o que não fazia sentido, porque a partir do momento em que os restaurantes estão fechados não faria sentido, porque não há restaurantes. Ainda pensei em fazer de um take away, mas achei que não faria sentido.

PA: Olha, estamos a acabar. Partilha aí o teu melhor pensamento a coisa mais positiva que tenhas para dizer.

MP: Eu tenho a esperança que de facto isto não seja muito prolongado e que de facto as coisas vão regressando a pouco e pouco, eu sei que quando isto voltar o turismo não vem logo e vocês precisam muito do turismo. Como é que esses negócios tipo Time Out que viviam muito do turismo e do aglomerado, ou um concerto, ou os Santos Populares, como é que vai ser? Vamos tentar saber se as pessoas vão ter uma certa fobia de estar em ajuntamentos ou não.

PA: Tozé, your last word for today?

AG: Epá, comprem local, nacional, os pequenos… acho que é o mais importante.

PA: Nuno, uma última palavra positiva.

NM: Epá, olha não sei se se nota tanto aí em Lisboa, mas aqui em Londres está menos gente na rua, o ar está mais puro, está mais fresco, a poluição está a diminuir, há menos aviões. Epá há gente que está a ser bem fodida à pala disso, mas também há outras positivas não é. E isso faz nos pensar positivo ou seja tivemos que parar mas na realidade a terra, o planeta está a beneficiar um pouco desta pausa que a gente teve e agora pensamos qual é o próximo passo? Olhando para estes positivos que estão a acontecer, paralelamente a esta crise, como é que a gente consegue dar o próximo passo? Vamos pensar no próximo passo positivo para mudar como nós consumimos e se calhar ter um impacto mais positivo no ambiente à nossa volta.

PA: Ok, bem obrigado, esta conversa foi uma boa conversa, foi também fofinha, porque eu fiz surpresa mais ou menos aos três. É preciso resistir.

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