Paulo Amado conversou em vídeo para a segunda série do Boca Mole com Marlene Vieira (a abrir dois novos projetos em breve; Marlene Vieira Food Corner), António Melgão (Chocolates Melgão), Marcos Allen (Grupo Take-Aways no Porto) e João Teixeira Leite (Presidente da Feira Nacional de Gastronomia de Santarém) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Boa tarde, bem-vindos à 11ª edição do Boca Mole- A ideia é podermos partilhar pensamentos ações sobre os dias que correm. Tenho em Santarém João Leite, responsável pela Viver Santarém e também pelo Festival da Gastronomia; em Lisboa a Marlene Vieira, do grupo Marlene Vieira; no Porto Marcos Allen, um gastrónomo reconhecido que faz parte de um grupo que está empenhado também em dar sinal à restauração; e António Melgão, parceiro da Capri em Montemor-o-Novo.
João Leite, nós acabámos de ver aqui um vídeo que se começou hoje a divulgar nas redes sociais e que quer dar um sinal a Santarém. Santarém que nos últimos anos tem mudado muito a sua face do ponto de vista da oferta da gastronomia, verdade?

João Leite (JL): Verdade. Olá a todos e obrigado pelo convite é um gosto estar aqui convosco e a partilhar estas palavras, esta experiência. De facto como o Paulo referiu e bem, lançámos hoje um vídeo que no fundo é um pequeno contributo para a restauração do concelho de Santarém neste momento difícil que estamos todos a viver. No fundo é um apelo para todos os que estão a fazer um esforço não só de estar em casa, mas também de estar no terreno e poderem usufruir dos vários serviços que a restauração que de uma forma bastante empenhada e determinada vai colocando ao dispor da população geral. O Paulo, como referiu e bem, o município de Santarém nos últimos anos tem estado a reforçar a marca Santarém, capital nacional da Gastronomia e, por isso, ao longo de muitos anos tem sido feito um investimento muito grande no próprio Festival Nacional da Gastronomia. E este ano que estamos a celebrar os 40 anos daquele que é o mais antigo e importante Festival Nacional de Gastronomia não poderíamos neste momento difícil que estamos todos a viver deixar de celebrar. Mas verdade seja dita, como a restauração muitas outras empresas estão a sofrer, mas a restauração e o turismo em particular está de uma forma muito abrupta, muito dura os constrangimentos desta conjuntura. Portanto no momento que estamos a festejar os 40 anos do festival, estamos hoje também ao lado da restauração para dizer que estamos aqui com todos, convosco para mobilizar Santarém para não deixarmos aqueles que são os nossos restaurantes possam sentir de uma forma tão agressiva esta conjuntura e assim darmos o contributo de todos.

PA: Tanto quanto sei estes novos modelos, a comunicação mais direta entre pessoa,s estão espalhados pelo país e Santarém é uma capital de distrito mas os restaurantes do concelho de Santarém fizeram um grupo do WhatsApp e está lá o João Leite e o Presidente da Câmara, não é? Vocês têm uma proximidade à restauração.

JL: Você está bem informado, eu não vi lá o Paulo no grupo. É verdade, foi um movimento criado pela própria restauração. É uma forma muito importante de manter também o poder politico, neste caso o presidente da autarquia, da empresa municipal que gere um conjunto de eventos e que está com este foco aqui na gastronomia e na própria da restauração. Por acaso é uma pena que este grupo não tenha amplitude pública, porque é um orgulho, confesso. A restauração de Santarém está a mobilizar-se de uma forma genuína e espontânea para ajudar ao fornecer refeições para o hospital público e é através desse grupo que todos, em conjunto, estão a dividir dias a fazer escalas. Todos os que podem apoiar estão de facto a apoiar e é um orgulho pertencer a um concelho onde existem empresários com esta natureza, porque de facto os grandes homens e as grandes mulheres veem-se também nos momentos difíceis. De facto, como o Paulo referiu, estas novas ferramentas dão a permissão para que possamos não só ser solidários mas também beber também um bocadinho dos contributos de todos. E a restauração também para além deste aspecto solidário está-se a ajudar mutuamente, o que também é um movimento importante para o futuro. Nos últimos anos, Santarém estava um pouco de costas voltadas e hoje sinto que essa união é factual e julgo que vai ser muito importante a utilização dessas plataformas para criar laços e sinergias e para que essas sinergias possam depois criar proveitos. É muito gratificante assistir a isto. O poder público e as instituições não podem ficar aquém.

PA: Bom, é uma câmara municipal e as possibilidades que têm ao seu dispor são relativas. Se tivessem, por entura, muito espaços municipais arrendados à restauração podiam eventualmente protelar as rendas, mas não sei o que é que eventualmente será possível.

JL: Julgo que foi há 24 horas aprovado pela câmara municipal e já tornou público um conjunto de medidas de apoio ao comercio e às pequenas e médias empresas e vão ao encontro do que o Paulo acabou agora de referir. Portanto, foi aprovado pelo município de Santarém a isenção de todos os estabelecimentos em edifícios públicos, foi aprovado também a prugação do pagamento de todas as futuras de água sem juros e isentas todas as taxas fixas relativamente às águas, aos resíduos. Essas medidas já foram aprovadas e já estão em vigor. E, no universo loca,l é no fundo aquilo que é possível fazer. São as ferramentas também que o município tem, mas é uma pequena grande ajuda e a receptividade foi muito grande por parte do comércio.

PA: Estamos em ano de celebração dos 40 anos do Festival Nacional de Gastronomia, vocês tinha preparado festividades e a algumas terão naturalmente cancelado. Espero que maior parte delas consigam adiar e eventualmente fazer surgir, como tem surgido noutros eventos, novos modelos de montar os eventos, nomeadamente através das plataformas digitais.

JL: Sim, o Paulo assistiu connosco no início do ano quando apresentámos publicamente um vasto conjunto de atividades do programa que visa celebrar os 40 anos do Festival Nacional de Gastronomia. Todos os meses estão previstas um conjunto vasto de iniciativas que vão desde conferencias a debates, workshops e outras iniciativas de maior dimensão como Santarém ter sido escolhida para receber o Dia Nacional da Gastronomia que está previsto para o último fim de semana de maio. E o próprio Festival Nacional de Gastronomia vai ter uma versão mais alargada com três semanas. O programa é público, está no nosso site, aquilo que nós vamos fazer dada a actual conjuntura é adiar algumas iniciativas e eu e o senhor Presidente da Câmara Municipal de Santarém decidimos alargar a celebração dos 40 anos até 2021, devido ao atual constrangimento da situação. Na medida do possível, vamos apresentar algumas iniciativas nas plataformas e há duas que vamos realizar em abril que vão ser online e em direto. Duas iniciativas que estavam no programa da celebração dos 40 anos dia 15 e dedia 25 de abril. O Paulo vai ser um dos oradores, espero que aceite o convite, porque ainda não aceitou,. O tema vai ser a gastronomia antes e depois da revolução. Vamos usar as novas tecnologias para estar junto da comunidade também para dar informação, poder lançar o debate à comunidade que neste momento está a fazer um esforço muito grande para estar em casa e também para termos um papel pro-ativo levando à casa das pessoas debate, conversa e partilha.

PA: Muito bem, João. Muito obrigada pela sua participação. Marcos, receia que o Porto venha a ficar com o cordão sanitário?

Marcos Allen (MC): Não, vi agora a a conferência de imprensa com o secretário de estado e foi descartada essa possibilidade. Acredito que não era importante até porque se não, dois dos hospitais de referência ficariam com acessos reduzidos a pessoas fora do concelho do Porto, portanto acredito que não. Estamos tranquilos, eu hoje fui às compras em ótimas segurança, acreditamos que tudo vai correr pelo melhor.

PA: Então? explique-nos que comunidade é essa na qual participa o Marcos — que é um gastrónomo, uma pessoa que frequenta restaurantes. É um grupo de take away…

MA: Sim, certo. A ideia foi inicialmente levada a cabo pelo meu amigo Manuel Pinheiro, Presidente da Comissão dos Vinhos Verdes, na qual entro eu e o Luís Império. Visa a duas coisas: dar a conhecer quais são os restaurantes que estão a funcionar em regime de take away ou entrega ao domicilio e facilitar ao consumidor porque não sabe cozinhar ou porque não lhe apetece poder adquirir determinados serviços. Foi basicamente isso, chamemos responsabilidade civil. Em 17 dias, somos 7100 num grupo que até agora não teve nenhum caso de confronto ou litígio, o que é sempre complicado em termos de Facebook e nós gostamos muito dessa situação.

PA: Se pudéssemos definir o tipo de restaurante que faz parte do grupo, conseguiríamos ou tem uma ampla diversidade?

MA: Tem uma ampla diversidade. Não são só restaurantes, também já há talhos, mercearias, frutarias, peixarias. Nos restaurantes são naturalmente aqueles mais tradicionais, não tanto restaurantes de autor, como muitos daqueles que eu frequentava. Ontem, a Angélica Salvador, do Indiferente, juntou-se ao grupo disponível, o que eu saúdo. É evidente que se calhar é mais fácil para os restaurantes do tipo de cozinha tradicional, para as churrasqueiras, que já trabalhavam muito bem em regime de take away. Exponenciou o seu tipo de trabalho. Quem se inicia agora, evidentemente, que vai ter que percorrer um percurso. Não será fácil, mas nós estamos para ajudar.

PA: E como é que se faz as entregas, vocês não interferem nisso? Vocês são uma plataforma de ampliação da mensagem daqueles que têm comida para distribuir restaurante ou mercearia, no caso.

MA: Exatamente, nós pretendemos que as pessoas adiram e que os próprios espaços respondam às questões do consumidor de quem entrega.

PA: Muito bem. Marlene, vimos aqui que o tipo de restaurantes que participa nesta plataforma é amplo, parece-me que tem que ver com o tipo de empresas com menos de 10 empregados de carácter familiar e que, eventualmente, não é o teu caso. Portanto isto do takeaway não seria uma possibilidade no teu caso.

Marlene Vieira (MV): Não. Nós por acaso estamos a pensar numa possibilidade de take away de luxo a partir do Sála. Temos sérias dúvidas se esta questão do take away funciona, não temos conhecimento mas aqui o Marcos melhor do que eu pode falar, porque eu nunca fiz, nem eu nem o João, o meu marido e o meu sócio naa empresa. Achamos que há pessoas que continuam com poder de compra, até há quem tem mais do que assim assim. Eu acho que a classe média e a classe baixa a curto médio prazo vai perder esse poder de compra de take away mas posso estar errada, é a minha perspectiva, para já. Acho que o take away de luxo pode ser nos próximos tempo algo a ser explorado, mas não tenho certezas absolutas se isto entrar em medidas mais apertadas o take away pode ser uma das medidas retiradas. Continua a haver a possibilidade de contagio a partir do take away. Ninguém nos garante que as pessoas que estão nos restaurantes usam mascaras e é isso que me faz alguma confusão, ninguém me garante que os cuidados de limpeza são suficientes. Eu própria já pedi um take away e pus ao forno outra vez, não confiei e fiz questão de confeccionar um bocadinho mais para poder eliminar algum vírus que houvesse pelo meio. Não acho que seja 100% seguro, não há garantias disso, não é possível haver garantias disso, quem transporta também pode ter algum descuido. Portanto há muitas questões sobre isto. Para já, de imediato, não o vamos fazer.

PA: Marcos, já tem um argumentário para isto?

MA: O argumentario é exatamente esse, a Marlene tem toda a razão, nada é 100% seguro, temos que confiar e o consumidor que quiser confiar confia que o seu fornecedor toma todas as medidas de segurança, mas nada é certo.

PA: É verdade que este vírus não existe há muito tempo ou pelo menos aí na esfera comum mas as pessoas devem saber o que é o correto manuseamento alimentar.

MA: Lá está, em principio partimos do principio que quem se dispõe a prestar o serviço o presta nas devidas condições e depois claro temos aqui uma coisa: vamos buscar em take away ou vamos utilizar um serviço tipo Uber Eats ou Glovo. Aí já entra outro interveniente no percurso que também terá que manter as mesmas regras sanitárias. É tudo complexo. Agora nós aqui no grupo take away no Porto queremos dar às pessoas a possibilidade de adquirirem os serviços e saberem onde é que eles estão disponíveis e depois fica ao critério de cada um.

PA: Quantas vezes por semana é que o Marcos pede take away ou delivery?

MA: Era isso que eu ia acrescentar, tal como a Marlene disse, tenho em casa uma pessoa que não confia nos serviços,portanto eu não o faço. Recentemente, fiz uma publicação no Facebook onde falei da criança com quatro anos que tenho em casa que não gosta de ir a restaurantes e que manifestou vontade de comer uma lasanha do chefe Vito. Ele sonha com restaurantes do chefe Vito do Garfield. Houve quem visse a publicação e me fornecesse a lasanha e comêmo-la, claro. Neste momento, o restaurante do chefe Pupo Lameiras as comidas chegam congeladas…

MV: Acho que isso é algo que pode crescer.

MA: Exatamente, é terminado em casa e isto cada vez mais vai ser, penso eu, uma tendência.

MV: Assim já eu confiaria. Sofre temperaturas altas portanto mataríamos o vírus sem problema nenhum. Agora comida pronta a comer acho muito arriscado. Acho que no futuro podia ser algo que iria dar algumas chatices eu não arriscaria. Eu trabalho com muitos cozinheiros, dou formação nas escolas e eu sei que por muito que se dê formação, por muito que se ande em cima há descuidos todos os dias, basta cinco minutos de descuido, é o suficiente. Basta o cozinheiro estar sem mascara cinco minutos e ter o azar de espirrar.

António Melgão (AM): Sobre essa conversa de fornecer comida congelada é uma ideia que pode funcionar, mas qual é a percentagem de restaurantes que estão preparados para poder congelar comida nas condições adequadas?

MV: Não há muitos, pronto. Isto é mesmo assim. A oportunidade não é para todos. É para quem tem condições.

PA: Melgão, tu estás a iniciar um projecto bastante ambicioso em Montemor-o-Novo e tem a ver com a criação de uma fábrica de chocolate e que na prática, neste momento, já estás pronta. Já podias estar operar, mas acontece que o mercado agora está assim congelado, não é? Conta-me, como é que estás a viver esta situação?

AM: Eu estou a viver a situação como todos os profissionais do sector do turismo e mesmo outros sectores deste país. E mesmo aqueles que não estão já afetados irão ficar afetados, porque isto é uma bola de neve que vai rolando. No nosso projecto, em particula,r nós já estávamos a começar a vender, já tínhamos começado a produção na velocidade de cruzeiro. [Isto] veio numa altura muito má para mim e para todos. Por exempl,o a Marlene também estava a iniciar agora um projecto, tem um investimento muito grande tal como nós tínhamos. Não nos podemos esquecer que a maioria dos projectos que existem em Portugal de criação de empresa e de inovação e outros tipos de projectos são projectos co-fianciados pela união europeia e que prevêem um prazo para cumprir e para atingirmos os objectivos a que nos propomos. No entanto, é muito mais difícil para as empresas mesmo que se adicione ao que este prazo que estamos a viver seja adicionado ao final do prazo , al como os empréstimos bancários. É muito mais difícil as empresas conseguirem finalizar o projeto no tempo previsto, mesmo com esse prazo adicional. Ainda mais difícil é atingir os objetivos. Se nós prevemos os objetivos com uma economia a mudar a uma velocidade e se essa velocidade abranda, os objetivos são muito mais difíceis de atingir e nós já nos comprometemos com os objetivos, por isso é mais uma dificuldade que as empresas portuguesas vão ter.

Paulo Amado – Estamos a falar em quantos postos de trabalho?

AM: Neste caso em 20 postos de trabalho. O ano passado, facturarmos 1 milhão e 200 mil euros. Ou seja nós em 2021 tínhamos previsto uma facturação de 1 milhão e 200 mil euros.

PA: Mas já estavam contratados esses 20?

AM: Não, neste momento estamos com 12 postos de trabalho aqui na Melgão e depois mais 12 na Capri. E tenho mais seis nas pastelarias.

PA: Ok, como é que do ponto de vista formal, estás? Estás de layoff?

AM: Na pastelaria fechámos logo dia 16 de março, porque foi uma opção de segurança em termos de saúde embora o Alentejo não esteja ainda muito afectado pelo vírus. Mas eu tenho duas filhas, as minhas empregadas têm filhos, tenho uma mãe que está num lar. Todos nós temos família e é preferível nós primeiro tratarmos da saúde e depois do dinheiro. Primeiro vamos tentar não ficar infectados, tentar controlar a infecção do vírus porque só assim é que se consegue controlar a evolução do vírus . Já se viu que só através do bom senso das pessoas e da auto-medicação, que neste caso é a quarentena. Depois, a fabrica Melgão também não fazia muito sentido estar aberta porque tínhamos produto em stock e tínhamos a possibilidade de entrar em layoff encerrando as empresas e não atingimos os objetivos necessários para o layoff de menos 40%. Então optamos por fechar e entrar em layoff.

PA: Olha ia-te perguntar a seguir se estás com ideias para caso da coisa se alongue. Marlene, a tua ideia de abrir um restaurante excelente aqui junto ao rio Tejo era um grande investimento, com um dessert bar e um restaurante de cozinha de fine dining, digamos assim. Em que ponto é que está isso?

MV: Sim, a abertura estava prevista para o final de março, agora não tenho data prevista.

PA: Já pensaste em depois rever o conceito?

MV: É algo que também tenho pensado sim, rever o conceito, porque nós inicialmente queríamos abrir um gastrobar com um dessert bar. Achámos que era por aiíque devíamos começar e depois íamos para o fine dining e acho que agora vai ser ao contrário. Eu acho mesmo que a classe média vai perder poder de compra. Não sabemos ainda muito bem, estamos a definir a estratégia mas vai mudar certamente.

PA: Eventualmente mudar a oferta, aí estás a apontar para um tipo de mercado interno.

MV: Mercado interno, naturalmente.

PA: Eventualmente já não será o fine dining?

MV: Eventualmente será fine dining. Quase de certeza. Também o trabalho tem que ser feito agora a partir de casa de uma forma digital de vender experiências a partir de agora. Há-de ser essa venda de experiências para alguns clientes, estamos a montar uma estratégias de quando começarmos a termos clientes,.Agora como se vai formatar ainda estamos a delinear uma estratégia, mas não podemos estar muito confiantes porque todo o dia é um dia. Temos que ir sondando o mercado, temos que ir vendo como é que os outros fazem e falar com os clientes e com os colegas e reestruturarmos, porque se isto não começar em julho, não vai ser fácil de levantar a cabeça. Vamos ter que empurrar tudo para a frente, créditos, dividas, porque para já o dinheiro vai para os funcionários. Espero que os cozinheiros que nos tão a ver, que não são a entidade patronal, percebam que há um esforço muito grande da parte dos empresários da restauração em manter os postos de trabalho. Que eles não nos troquem por 50€ ou 100€ porque é isso que acontece.

PA: Fica registado esse teu desejo. Marcos, qual é o sentimento que consegue apurar da restauração no Porto?

MA: Ah, a restauração no Porto está bem, estava num momento fervorante e de muito boa saúde e percebemos agora que de facto não havia grande suporte financeiro por detrás. Ainda havia e há muitos compromissos financeiros de investimento que terão que ser pagos e portanto conheço e tenho trocado muitas mensagens com pessoas que estão de facto bastante afilitas. Pessoas que tinham muitos compromissos e outras que até agora nunca tinham pedido um empréstimo bancário, tinham feito com o próprio cash novos negócios e que agora se encontram numa situação complicada e que provavelmente têm que optar pela situação de layoff, o que é triste. Na minha expectativa e o que eu desejo é que realmente muita criatividade possa surgir neste período. Todos nós conhecemos alguns chefes que são muito criativos e quase que apresentam uma carta de três em três semanas mas há outros que estão seis meses ou um ano sem apresentar novidades. Que este período lhes possa também proporcionar algum relaxamento criativo e daí que possa surgir novas propostas, mas tudo é muito inseguro. Ninguém nos garante que após o levantamento da quarentena que vamos todos consumir e tudo isto vai explodir. Não, não será assim portanto vamos com calma.

PA: Mas também não saberemos como será, verdade?

MV: Não sabemos.

PA: Melgão, tens possibilidade de fazer alguma coisa entretanto? Enquanto saímos e não saímos fala-se do take away ou do delivery. Estás em Montemor, não sei se aí é possível… O que tu tens é uma pastelaria, não estão no negócio do serviço de refeições. Podias fazer pão.

AM: Não, o pão não é muito a minha onda, não sou assim tão bom a fazer pão e depois sou alérgico à farinha. Sabes que o Alentejo é sinónimo de muito bom pão então eu não me quero meter nessa guerra. Aquilo que eu estou a pensar em fazer são os bolos de aniversário por encomenda e entregar no local.
Mas voltando um pouquinho atrás à conversa das rendas, isso é uma das dificuldades que os empresários vão ter. A economia não está parada e a economia ao não estar parada, nós estamos a ter despesas diárias. Nós estamos em layoff, os empregados estão em casa, nós estamos a pagar-lhes, no mínimos, um terço do ordenado, estamos a pagar as contribuições à segurança social desses ordenados, estamos a pagar as rendas e não estamos a fazer dinheiro nenhum. Ou seja, durante o tempo que existir este estado de emergência, as empresas só estão a ter prejuízo e embora não o paguem agora, têm que pagar mais tarde. Se as empresas hoje em dia não conseguem ter uma almofada financeira para quando necessitarem poderem gastar, muito menos conseguem pagar aquilo que ficou atrasado. Os empréstimos bancários é outra. É voltar a adiar, é empurrar com a barriga. A solução quanto a mim era parar a economia. A maioria da população em Portugal, neste momento está em casa, os gastos da casa são 60% do ordenado, para prestações. Se esses valores parassem, se não fossem necessários pagar para o final dos encargos, as pessoas que estão em casa precisavam do máximo 20% do ordenado para viver. E já podia ser um valor que podia sair do orçamento de estado.

MA: Sim, isso é possível. A legislação está a mudar todos os dias. Por exemplo, esta questão do layoff já teve quatro ou cinco atualizações. Portanto é possível que tenhamos ainda novidades e no seguimento do que o Melgão disse, de facto, as prestações podem ser adiadas e adiadas para o fim dos contratos previstos e não depois. Toda a situação é de facto complexa e veremos como é que vai evoluir nos próximos dias. Eu de facto que vivo no Porto já estou a precisar de uma boa francesinha, mas com os pés debaixo da mesa num restaurante aqui da cidade. Uma francesinha não é uma coisa que em boa qualidade se traga em take away ou delivery, portanto é desejar que tudo isto volte ao normal o mais depressa possível para que todos possamos voltar a consumir e usufruir. E esperar que tudo volte ao normal.

PA: Enquanto pasteleiro deste a ideia de bolos festivos. Mais alguma ideia positiva?

AM: Acho que podemos aproveitar para nos atualizarmos, para evoluir, para procurarmos novas tendências. Quer na restauração, quer na pastelaria eu tenho visto um movimento muito grande na preocupação de comer melhor, então podia passar por aí e tentarmos procurar produtos para oferecer uma alimentação melhor e mais saudável. Também procurar uma melhor forma de marketing e comunicação. Eu costumo dizer que às vezes não basta termos um bom produto, as outras pessoas têm que saber que temos um bom produto e é um bom momento para nós treinarmos as redes sociais e as novas tecnologias para quando voltarmos estarmos preparados para ter e fazer algo diferente. Quem melhor preparado tiver mais possibilidades terá de sobreviver a esta crise.

PA: Tu que és um homem do desporto ,o que é que tens feito? Vais correr?

AM: Todos os dias faço um plano que existe na net que se chama Focus 25 que é 25 minutos de exercício físico na parte da manhã e volto a fazer outra vez depois à tarde para me manter todo o dia ativo. Tenho uns videos de umas receitas para colocar no Facebook em que a receita era um hora mas depois editar a receita leva três horas e tal. Sinto que estou a fazer alguma coisa e mantenho-me ativo.

Paulo Amado – Sendo pasteleiro quem cozinha lá em casa?

AM: É parte a parte, é à vez.

PA: Marlene, qual é a tua ideia positiva?

MA: Bem, o Melgão já me roubou aqui uma data delas… estou a brincar. Há um ditado muito antigo que é “a necessidade aguça o engenho” então é um bocadinho disso, não é? Nós temos que ir buscar novas ideias, não é? Temos que ir explorar. Eu tenho uma coisa no meu feitio, na minha personalidade que é: eu não gosto de fazer aquilo que os outros fazem. Portanto tento ser sempre o mais diferente. Eu percebo que está muita gente a fazer take away e é uma saída alternativa, mas acho que é demais já. Acho que as cadeias fortes vão sobreviver com essa modalidade, os outros é um engano porque estão a pôr em risco a saúde e há mais gastos. Eu acho que nós temos que parar, pensar e tentar perceber nos espaços vazios como é que nós podemos preenche-los, não é? Onde é que nós podemos dar o nosso contributo. Não estamos em casa de papo para o ar a cuidar só dos filhos e não estamos a fazer nada por nós e pelos nossos.

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