Paulo Amado conversou em vídeo para a terceira série do Boca Mole com Diogo Abreu (Vilhoa – Craft Beer Dealers), Gonçalo Gouveia (Greenhouse Coffee Roaster), Pedro Borges e Ricardo Vieira (Padaria Mó) — todos com projetos na Ilha da Madeira — para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Estamos aqui a falar com a Madeira, temos o Diogo da Vilhoa – Craft Beer Dealers que distribui e representa a cerveja, o Gonçalo do Greenhouse Coffee Roaster que recebe o café e que faz a sua torra, o Pedro e o Ricardo da Mó Funchal que tem que ver com pão e padaria, verdade? Estão todos no Funchal?

Ricardo Vieira (RV): Sim, mas o Diogo está no Porto, está a falhar aqui, mas representa a Madeira.

Diogo Abreu (DA): Eu vivo no Porto, mas faço parte ativamente da Vilhoa, eu trabalho com o meu sócio, Eduardo, que é a pessoa mais ativa neste momento na empresa.

PA: Mas tu tens o sotaque madeirense?

DA: Ainda bem que nunca o perdi.

PA: Portanto tu és madeirense?

DA: Sim, sim, eu vivi 30 anos na Madeira.

PA: Bem, então a ideia era poder sentir aqui um bocado o pulso aos vossos negócios e que perspetivas é que têm no atual momento. Começamos pelo pão, vocês continuam abertos a fazer algum tipo de produção?

Pedro Borges (PB): Não, nós basicamente antes disto estávamos quase a dar um grande passo, pensámos em funcionar num regime pop up. Nós não estávamos exclusivamente a trabalhar com pão, estava,ps mais focado até a fazer refeições, em colocar os mesmos princípios que nós colocamos no pão nas outras coisas. Estamos a funcionar um pouco como nómadas e estávamos quase, quase a dar um passo grande que era de fazer um investimento para o espaço que nós queremos abrir e chegou a isto e parámos. Somos uns privilegiados, temos sorte, porque quem põe as fichas na mesa está em risco obviamente. Portanto nós não nos podemos queixar, nós só podemos fazer o melhor obviamente.

PA: Ok, então neste momento não estão a fazer nada?

RV: Neste momento temos ativas coisas mais relacionadas com consultoria, porque começou a existir a necessidade da nossa parte de fazer passar a palavra daquilo em que nós acreditamos aqui na Madeira. Começámos com um espaço que por acaso também é uma economia circular, mas é um que é um dos grandes clientes da Vilhoa que é um bar de cervejas artesanai. Começámos com eles a fazer uns pequenos petiscos mas isso entretanto ficou em suspenso. Eu, da minha parte, estou a fazer também uma espécie de consultoria, porque há muitos grupos de risco associados ao restaurante que é um restaurante familiar que necessitava de ajuda para lançar o regime de take away. Eles tinha um regime fine dinnig que não fazia sentido para comer em casa. Neste momento é o trabalho mais ativo que estamos a fazer.

PA: Ok, Gonçalo há cliente no Funchal para essa cultura do café, é isso?

Gonçalo Gouveia (GG): Sim, eu tive espaço para crescer de forma bastante sustentada e calma. Se não tivesse desenvolvido as coisas como desenvolvi teria tido bastantes dificuldades porque 90% do meu cliente é estrangeiro. Nós começámos com uma cafeteira em 2014 na tentativa de melhorar uma marca comercial com quem trabalhava. Comecei-me a entusiasmar com esta questão do café, a ficar mais dentro do assunto e a partir daí comecei a torrar e a abrir uma outra cafeteira dentro de um jardim e desenvolvi o conceito de torra própria. Portanto o meu cliente deixa de ser um cliente madeirense e começa a ser uma cliente estrangeiro e que está desperto. Tive algumas dificuldades no início, como toda a gente, porque o café não é fácil, é um produto bastante sensível desde logo pela quantidade de pessoas que intervém no processo. A torra que é se calhar a parte mais sensível da extração, é um processo bastasse longo e há muita coisa que pode falhar e de facto se eu tivesse mais exposto ao consumidor local, eu tinha tido espaço para desenvolver a minha marca. O consumo do madeirense é muito especifico e é um consumidor muito fechado a ideias novas e a conceitos novos e muito castrador o que os negócios têm que passar para chegar a um ponto interessante, que é onde eu me sinto neste momento.
Em 2018 fiz um investimento arrojado, porque comprei um torrador com uma capacidade muito maior do que aquela que eu tinha, porque eu tinha um torrador que torrava dois quilos por hora e agora tenho um que torra 60 quilos por hora que é largamente excessivo mas não me arrependo de todo porque de facto a melhoria na qualidade é uma coisa espantosa. Eu torrava em electricidade e agora torro a gás e tenho muito mais controlo sobre o meu produto final. Nessa data também iniciei as vendas para hotelaria que neste momento é um dos problemas da minha empresa. Tenho café vendido que não recebi [dinheiro], mas não é nada demasiado inquietante, mais preocupante foi um investimento que tive que suspender no momento em que praticamente ia abrir. Tive sorte de não ter aberto porque se tivesse em vez de 12 pessoas que tenho neste momento teria 20 pessoas portanto era uma coisa muito mais complicada. Agora, no meio disto tudo, tenho que finalizar o investimento, mas a minha preocupação é que não sei o que será o dia de amanha e ninguém sabe e não deixo de ter três espaços. Eu estou situado num monte que é uma zona alta aqui do Funchal onde comecei a minha cafeteira e depois no segundo espaço haveria 100 metros deste inicial e o que vou abrir agora que é uma evolução bastante grande porque o meu conceito é cafetaria e restauração, snack, saladas, hambúrgueres coisas muito leves e agora não vou ter um restaurante mesmo. Um restaurante de grelhados, fiz um investimento muito grande na cozinha e na parte da cafeteira, porque acredito que os equipamentos ajudam bastante. O foco tem que estar no ingrediente, mas o equipamento ajuda bastante e sempre fiz isso no café. Prefiro ter menos mas o que comprar ser aquilo que me identifique.
Irei retomar a minha actividade não sei ainda bem quando, a verdade é que as perspectivas para a hotelaria são complicada. Nesta fase não há cruzeiros e os meus clientes são muito de cruzeiros ou de hotelaria convencional e estamos a falar de dois milhões de pessoas que vêm anualmente aqui à Madeira, o potencial é bastante interessante. Numa situação que vamos ficar sem isso, terei que sobreviver com cerca de 10% que é a minha clientela habitual e isto vai ser uma ginástica bastante complicada e tem que ser gerida no dia a dia.

PA: Não sabes como vai ser. Não podes dizer 10% porque ninguém sabe, não é?

GG: Pois, exatamente.

PA: Diogo, estás agora no Porto, mas estás ligado à Vilhoa — o que é que quer dizer?

DA: É um termo que remete para a genuinidade e para a humildade.

PA: Olha, então vocês fazem a produção de cerveja artesanal, não é?

DA: Paulo, deixa-me só fazer aqui uma ressalva: eu sinto-me muito orgulhoso de estar aqui com estas pessoas porque as pessoas que estão aqui a falar têm paixão, mas a paixão sem força de braços, sem obra criativa não vale de nada e quem é madeirense sabe que fazer coisas na Madeira é muito cansativo e eu aprecio bastante jovens que vêm com ideias novas dar uma cara nova na Madeira. E o Gonçalo torra café e eu sou apreciador de café, gasto algum dinheiro em café e é do melhor que se faz a nível nacional. Se o café dele tivesse no Porto eu compraria muitas vezes e tenho amigos que também comprariam muitas. É realmente um café excelente. Portanto, ter estas pessoas na Madeira é realmente espetacular.

PA: Fico contente por ouvir isso. Podes falar da tua cerveja?

DA: Isto começou em 2016 porque eu comecei a gostar de cerveja e percebi que a minha escolha estava muito limitada, ou seja, eu podia escolher no supermercado ou nos bares uma de três ou quatro cervejas industriais que sabiam mais ou menos ao mesmo. Foi então que eu comecei a perceber que se calhar tinha que ser eu a perceber que tinha que encomendar umas coisas para beber e partilhar com os amigos e até a coisa se tornar séria foi uma questão de meses. Fui para empresa que importava cervejas artesanais, que na altura estava a começar em Portugal, e muitas delas tinham erros e os lotes falhavam muito e felizmente as coisas agora estão num ponto em que nos podemos orgulhar mesmo a nível europeu. E começou numa brincadeira e hoje em dia é uma pequena distribuidora de cervejas que também faz coisas. Também se junta a cervejeiros e também faz coisas inspiradas na Madeira. já tivemos cervejas envelhecidas em barris de vinho Madeira, já fizemos com maracujá madeirense, com tangerina e por aí fora.

PA: Toda essa cerveja é feita fora da ilha ou há alguma coisa que façam lá?

DA: Fazemos fora da ilha porque não existe equipamento. A Vilhoa não tem dinheiro para investir e o mercado ainda está muito verde. Não sabemos até que ponto é que faz sentido uma microcervejaria. Por enquanto temos feito em colaboração com alguns cervejeiros amigos e a coisa tem corrido bem.

PA: Estavas a dizer que vem aí uma nova cerveja que não sabes ainda se vais lançá-la. Fala um bocado sobre isso.

DA: Essa cerveja foi feita em Marvila, na fábrica da Musa. e é uma cerveja que celebra o Max, chama-se Bate o Pale, leva goiaba, um fruto muito conhecido dos madeirenses. É uma cerveja sumarenta com o sabor da fruta. Vai sair dia 5 ou 6 de maio e nós estamos um bocado assustados porque temos uma cerveja para lançar e não temos as condições ideais para fazê-lo, mas vai correr tudo bem.

PA: Então mas que referências madeirenses é que existem assim grande nomes para além do Cristiano Ronaldo?

DA: O Alberto João.

PA: Mas não dá para nome de cerveja.

RV: Até pode dar.

DA: Eu não gostava de fazê-la.

PA: Sabes que também poderia ser Herberto Helder.

DA: Ele renunciou um pouco na sua vida a sua ligação à Madeira. Eu acho que ele não gostava muito de ser visto como ilhéu.

PA: Mas eu acho que a ilha também não o apreciou muito. Eu sou um apreciador da obra do Herberto Helder e tenho todos os livros dele, todas as edições. Ainda me lembro a primeira vez que vi, a primeira edição do Amor em Visita deram-me na biblioteca do Funchal sem me pedirem um papel, nada. E, na verdade, aquele era um dos livros mais valiosos dele. Nem catalogado estava, tanto que chegaram a ele e me deram. Foi um dia muito importante para mim esse.
Bem, voltemos ao pão. Pessoal do pão ,vocês dizem que são do pão e não só vocês estavam aí a desenvolver um tema que eu achava relevante, e à parte do café que já vamos ver, se o Gonçalo algum dia pode ter a expectativa, de como fazem nos Açores, plantar aí alguma coisa?

PB: Isso é um assunto que o Gonçalo de certeza que sabe responder.

PA: Então manda vir Gonçalo.

GG: Eu já tive aliado de algum modo à agricultura mas percebi que não era para mim porque é muito exigente e eu não conseguia dedicar a atenção devida à agricultura. Eu fui me envolvendo nesta áreas da restauração como complemento da minha área de negócio — tenho uma empresa de consultadoria de serviços e de avaliação imobiliária que neste momento representa muito pouco daquilo que é a minha atividade.

PA: Mas o tema era, é possível cultivar café na Madeira?

GG: É, é. E isso é parte do meu projecto, posso digo já que o sítio onde eu torro está dentro de uma propriedade com 13 hectares e eu já tenho distribuído lá alguns grãos de café e isso é uma das tendências do negócio do café porque o café é feito nos países pobres e vendido nos ricos. O valor acrescentado do café está na distribuição, na torra e na extração, mas em termos económicos fará pouco sentido estar a produzir onde a mão de obra é cara, mas isso está a acontecer porque há cafés verdes muito, muito caros. Estou a lembrar-me de um projeto de Los Angeles que está a produzir um gancha que é um café que se vende a 125€ portanto terá que ser sempre um produto muito específico. Obviamente para chegar aí temos que saber se a terra aguenta, porque o café dá-se perto do Equador portanto nós já estamos um pouco afastados. Mas há nos Açores quem produza e há também muito produtor na Europa, em Tenerife.
Nos Açores há um senhor que produz, torra e vende e o meu projeto também passa por aí, ou seja, eu nunca vou conseguir produzir um café com a excelência, por melhor que eu aposte terei sempre dificuldade em equiparar o meu produto com o melhor produto que me pode chegar comprado. Agora em termos de conceito e de experiência, porque é isso que eu acho que é hoje em dia a restauração, acho eu tenho muito a acrescentar. Para já localizei-me muito numa zona, eu tenho os meus três espaços numa distância de 200 metros e o sítio onde torro café está a 50 metros, portanto tudo na mesma zona. Eu consigo envolver o cliente numa forma que vou conseguir mostrar a produção, a torra e a extração. Isto é que é a grande dificuldade do café, ter isto tudo num só com qualidade. Acho que ia conseguir fazer uma coisa única.

PA: Portanto só te faltava a produção. Vamos aqui para o Pedro e para o Ricardo, esta paixão que o Gonçalo revela seria quase o quilometro zero, a atenção ao produto local. De que maneira é que isso vos motiva? De que maneira é que a ilha vos inspira e está presente nos vossos pratos?

PB: O que o Gonçalo estava a falar é muito relevante até porque o café passa exactamente pela mesma problemática que a comida vai passar no futuro. Os café de especialidade não tem só obviamente o critério de qualidade, há também uma maior atenção à torra, há uma maior atenção ao produto e a grande questão aqui é a fonte e foi exatamente o que o Gonçalo disse do que é produzido em países pobre e consumido em países ricos e é as condições de produção são exatamente as mesmas. Nós agora com o Covid vamos ter uma situação que é: muito sítios vão ter falta de café porque a América Latina está a ser afectada pelo vírus e provavelmente não há grandes condições para que os trabalhadores de campo consigam lá estar. O café de especialidade tem um pouco essa questão: pagar um preço superior para conseguir chegar a um preço mais real. Com a qualidade vem também uma certa capacidade de ter plantações dignas em que não estamos quase em neocolonialismo em que temos gente a trabalhar de formas absurdas e prima também por pagar bem ao agricultor e encontrar uma cultura de café que seja sustentável, porque o que as grandes torradoras fazem não é sustentável.

RV: E de dar a capacidade também de ele próprio se informar e educar à cerca do que é a produção que é uma coisa que se vê aqui muito na Madeira relacionado com a agricultura. Os poucos resistentes ainda plantam as mesmas coisas que se plantavam há 100 ou 150 anos. Com a capacidade que eu acho que a Mó pode ter no sentido de conseguir chegar a essas pessoas, com esse resultado, é dessa forma que nós queremos alimentar o círculo aqui na Madeira. Nós somos apaixonados pela comida zero quilómetro, pela produção local e isso tem as mais valias que nós todos sabemos. A comida que é processada e produzida na mesma zona tem as características daquilo que os nossos avós e os nossos antepassados faziam e comiam.

PB: Nós, por acaso, temos tido resultados excelentes nisso, porque há sempre uma parte destas coisas.

RV: Nós temos um bocado a fama de padeiros porque ao fim ao cabo foi assim que começou, mas nós partimos sempre do princípio do pão. Nós usamos cereais regionais de produções menos controladas, digamos assim, moagem regional e usamos esses mesmos princípios na comida e é o que pretendemos fazer.

PA: Pedro e Ricardo. falem-me lá mais dessas declarações de amor que andam a fazer à ilha, porque eu apresentei-vos como malta do pão mas vocês são mais que isso.

PB: Nós acompanhamos muito as correntes que trabalham estes aspectos. Por exemplo, tu tiveste aí há tempos o João Rodrigues, que é muito vocal disso do produto, da matéria, de prestar atenção à origem das coisas. Prestar atenção a todo o processo e não estar só focado naquilo que chega num saco de plástico e nós obviamente que gostamos muito disso e seguimos esses padrões à nossa maneira, claro. Mas nós encontrámos uma forma e sinceramente é a parte em que eu me orgulho mais termos feito isso abraçando aquilo que é a cultura de comida da Madeira, ou seja, não quisemos fazer isso de uma forma estaque. É muito intenso… há momentos em que vamos a casa de um agricultor e ele nos convida para provar o vinho, é muito intenso e nós achamos que isso realmente está no prato, chega às pessoas e tu precisas chegar às pessoas e isso não se faz só através da técnica.

DA: Eu acredito piamente que o contexto seduz tanto como o que está no prato e nisso eles são exímios ao contextualizar aqui as criações deles e o contexto excita muito. Mesmo antes de se sentar à mesa a excitação da malta já é imensa porque sabem que vão comer coisas iguais, mas completamente novas, ou seja, vão comer a tradição com muita mudança a meio e é super excitante isso.

RV: E nós temos sentido bastante a evolução nós fizemos dois grandes eventos relacionados com isso nós decidimos fazer uma espécie de uma sequela da coisa a papa toda e sentimos uma evolução muito grande mesmo para nós porque nós enquanto fazemos isto também estamos a estudar o processo e o feed Back das pessoas e a primeira edições foi uma coisa mais par ao fine dining, mais para aquilo que nós estamos mais habituados abrimos as portas e sentámos toda a gente à mesa numa mesa comunitária mas com prato assim mais embelezados com atenção ao detalhe do copo ao prato há apresentação das coisas foi ambicioso não tínhamos cozinha lá está foi tudo pré montado e finalizado no local e na segunda vez com mais capacidade logística tínhamos uma cozinha, tínhamos um forno incrível a lenha muito antiga e acabámos por fazer o oposto uma coisa mais em jeito de churrasco.

PA: Quer-me parecer que estando tão espertos para o produto da ilha e com toda essa energia ,vocês estão desejando obviamente que isto comece e que venham aí as novidades e depois o que é que vão fazer? Vão abrir um restaurante, é isso?

RV: Um restaurante é uma coisa um bocado pesada porque achamos nós que do facto de não sermos ortodoxos na nossa própria criação, não fazemos as coisas da mesma maneira que se tem feito até hoje. O Covid, e tudo o que se está a acontecer no mundo, tem vindo a dar essas pistas também. Achamos que não lhe queremos chamar restaurante. achamos que devia ser um sítio em que as pessoas vão falar de comida, comer, partilhar ter momentos de uma forma muito versátil emuito mutável também. Uma casa de comida de onde possamos fazer tudo o que está relacionado com comida e não só comer.

DA: Eu gostava que estes meninos abrissem uma tasca porque primeiro é uma instituição portuguesa que está em vias de extinção e é cada vez mais importante e rara. E eles têm o que é preciso para criar uma coisa despretensiosa.

RV: Podemos é criar uma confraria da tasca portuguesa ou da tasca madeirense e incluir isso na nossa casa de comida e é isso que nós queremos chamar ao espaço, vamos abrir uma casa de comida e vai começar de uma forma muito low. Somos dois pequenos que ainda não temos muita capacidade financeira para avançar, temos os nossos pés de meia mas com segurança, acima de tudo vamos começar muito devagarinho em jeito de pop up, o menos pretensioso possível e depois o próprio destino dirá através do feedback das pessoas. Acho que é uma mais-valia não termos uma cara, um rótulo definido, não nos verem como um restaurante, um bar ou uma cafeteira, por exemplo.

PB: Nesta historia da casa de comida queremos que seja um sítio onde tu vais, sentas-te e comes uma refeição ao balcão, falas connosco. Ou, s quiseres, vai só lá buscar pão ou saber de restaurantes, saber de produtores, ou vais lá comprar uma conserva. Nós estamos muito interessados de que a casa seja isto tudo.

PA: Gonçalo acho isto bastante inspirador… não te faz pensar em rever o teu conceito?

GG: O meu conceito vai passar muito por ai também. Eu ainda não sei o que ai vem eu acredito cada vez mais nesta ideia da proximidade do produtor com o consumidor em todas as áreas para já porque o produto chega fresco e porque nós temos aqui uma dificuldade que é uma barreira bastante grande a vencer que é o transporte das mercadorias daqui para ai isto tem nos criado algumas oportunidades, mas também nos cria algumas dificuldades na minha questão em concerto do café eu para tornar o meu produto competitivo tinha que baixar o preço ou tentar vende-lo para o estrangeiro e não é num mercado tão concorrencial por mais mercado que eu tenha não é muito exequível. Por outro lado trouxe-nos algumas dificuldades nós neste momento não somos produtores de carne porque a política que tivemos foi de apoiar a importação de carne através de um subsidio e o que aconteceu foi que o produtores locais deixaram de ter interesse em produzir acredito que isso vai mudar radicalmente num futuro próximo somos muito bons a produzir peixe temos do melhor peixe do mundo, mas por exemplo da carne isso já não acontece e eu acho que esse foco no produto local faz todo o sentido alias eu conheço poucas partes do mundo onde se consegue produzir produtos de calor e de frio a uma qualidade espectacular. Embora o território seja pequeno e com muitas dificuldades porque a parcela é pequena portanto não é fácil de mecanizar conseguimos produzir de tudo e não é só isso que vai acontecer alias nós vendemos café para duas cafeteiras de especialidade e um deles o pai tinha umas plantas de café ele trouxe-me duas amostras. E no primeiro café que torrei que não prestava para nada aquilo aconteceu muito rápido e eu assustei-me e o segundo era mesmo muito bom.

PA: Café de onde?

GG: Daqui da Madeira. Mas a Madeira tem um problema, como a nossa terra é muito fértil também promove produto que não presta, tenho essa experiência com pitangas. O que acontece é que comes,jogas para a terra, e aquela porcaria cresce uma árvore. Obviamente que aquilo dá árvores umas em cima das outras. Portanto a qualidade daquelas árvores não vai ser boa, principalmente se a semente já vier de uma situação destas. é tudo muito complicado, mas também já vi aqui umas ótimas, enormes. Portanto, esta facilidade de produção é também uma dificuldade na qualidade do produto.

PA: Há uma coisa que acho estranha aí na Madeira e vocês sublinharam isso… Como é que um dos pratos é espetada em pau de louro? Já dei voltas à ilha e raramente vi vacas….

GG: É a carne que nós comemos aqui, de França, dos Açores…

PA: Nos Açores, o pessoal também diz que boa parte da vossa banana também vem de lá..

PB: Essa parte é interessante porque o teu produto tem uma característica, esta questão de se trabalhar desta forma se calhar no início vai ser puramente artesanal porque era impossível alimentar a Madeira a café por produção regional. Pois o preço que os comerciais compram era impossível fornecer a Madeira. Deve ser um consumo absurdo… A mesma coisa é para pão porque era impossível abastecer a Madeira a farinha de trigo.

GG: Na questão do café, não quero trabalhar para um produto madeirense só porque é madeirense. Eu quero trabalhar com um café madeirense que tenha qualidade para servir ao cliente, porque no final é isso que interessa. E a história conta. O saber contar a história é muito importante e vocês são exímios nisso, mas a questão é que se o café não prestar o cliente quer lá saber. Por exemplo, um cliente de um barco que são 600, 700 mil pessoas é um consumidor muito grande para os nossos espaços de restauração pois ficam um dia e não têm muito tempo para ir à procura de uma experiência e não vão gastar muito tempo a ouvir a história. Eles querem é sair satisfeitos naquilo que procuram.

PA: Olha estamos a falar de futuro, acho que só faltas tu, Diogo, falar em alguma coisa sobre futuro também. Esperas por esse momento em que vais conseguir instalar uma cervejaria?

DA: Eu não sei se esse é o caminho, eu percebo o suficiente sobre produção cervejeira para saber que é muito complexo produzi-la de forma constante e eficaz. Eu acho que o futuro passa por nós conseguirmos fazer mais coisas e distribuirmos mais cerveja na Madeira porque felizmente existem hábitos que estão a mudar e eu tenho o conhecimento de muitas pessoas que têm bebido menos mas bebido melhor. As pessoas há uns anos atrás antes da Vilhoa existir nem sabiam que existiam microcervejarias portuguesas. Portanto tudo a beber mais do mesmo ,com rótulos diferentes sem opção de escolha. Porque no pão, no café e em outros produtos alimentares foi isso que aconteceu. Ao longo dos anos deram às pessoas uma falsa sensação de escolha: eu vou escolher entre este e aquele produto,mas é a mesma coisa. E aquilo que nós estamos a fazer com os nossos projetos é dar uma verdadeira escolha às pessoas, eu posso escolher entre uma IPA ou uma imperial e são coisas efectivamente diferentes. Portanto a Vilhoa ainda tem esse papel a cumprir quando esse papel estiver cumprido aí passamos à nova fase que é a produzir cerveja, agora não me excita muito produzir cerveja na Madeira porque a cerveja não tem a questão do terroir. Portanto eu compraria malte inglês ou malte alemão.

PA: Então não tem a água e o fruto?

DA: A água é despida . Eu vou usar uma água que é despida e vou dar-lhe os nutrientes que eu quero. O fruto nós já fazemos isso, nós levamos o fruto para as nossas cervejeiras e fazemos isso, ou seja, a questão da cerveja local e da Vilhoa são madeirenses porque são uma interpretação que é feita por nós e para madeirenses.

PA: Bom eu acho que já ficou clara a tua ideia. Vamos terminar, vamos deixar o Pedro que foi o que falou menos aqui. Pedro, a câmara é tua o microfone é teu fala sobre futuro.

PB: Nós estamos agora numa posição em que estamos super entusiasmados, na posição em que qualquer um estaria quando vai abrir o seu sítio e teve a ideia de abrir o seu sítio desde sempre. Basicamente somos novos, ainda por cima ainda temos muita ingenuidade.

RV: Em relação ao futuro mais amplo no sentido daquilo que nós fazemos em relação à Madeira, somos poucos mas somos resilientes e resistentes aqui dentro neste bocadinho de terra que está a flutuar no Atlântico e estamos com vontade de fazer coisas novas e diferentes.

PB: Sim, como nós há mais uns quantos a fazer coisas muito interessantes e está tudo estabelecido para daqui a um ano, dois com a recuperação de toda esta pandemia fazer coisas muito entusiasmastes a reinventar-se um pouco dentro do seu próprio contexto e não como uma cópia do que aconteceu há dois anos noutro sitio qualquer

PA: Boa, obrigado pelo vosso tempo. Até à próxima.

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