Paulo Amado conversou em vídeo para a terceira série do Boca Mole com Luca Arguelles (Padaria Arguelles), Francisco Siopa (Grupo Penha Longa) e Francisco Gomes (Grupo Colonial) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Estamos em direto com Barcelos, Francisco Gomes, com Arronches, Luca Arguelles e com Cascais, Francisco Siopa. Francisco Gomes, esta é uma altura em que é difícil para todos e quem também não deve estar bem são os gigantes da indústria que durante anos têm mandado cá para fora uma pastelaria completamente homogénea. É uma boa altura, se calhar, para perguntar se este tema de pastelaria e identidade faz sentido. Quando falamos de pastelaria falamos também da identidade regional da conexão com uma cultura. O que é que te parece?

Francisco Gomes (FG): Nós temos que ver isto da seguinte maneira: primeiro há fábricas de industrias que fabricam às toneladas de pastéis de nata, de bolas de berlim para os milhares de cafés que há em Portugal. E agora eles não sabem o que é que hão de fazer ao produto. Há uma em Óbidos que produz uma quantidade louca de bolas de Berlim e pastéis de nata e eles mandam aquilo para o Algarve porque é o melhor cliente. E o que é que eles vão fazer agora? As praias como é que é? Eles já entraram em layoff porque não tinham consumo, porque os clientes deles não gastavam. E sobre a regionalização de determinados produtos de determinadas regiões, oh Paulo, isso é lógico porque o que dá dinheiro faz-se para se poder espalhar Portugal pela Europa, por onde der. Tu vês o que se passa nos Açores, tu vês o que se passa em Lisboa. A identidade que cada um cria e tentar impor um estilo próprio, que defina a imagem dele veem os sabores, veem o que está a dar.

PA: Ok, eu queria passar para outro nível, há o nível do teu estilo, a maneira como tu trabalhas e nós olhamos para um bolo rei e conseguimos imaginar, olha isto aqui tem dedo do Francisco ou para uma pastelaria fina do Luca ou um trabalho de pastelaria fina do Francisco [Siopa]. A gente pode imaginar a criatividade de um, o nível de outro. O que eu estou a falar é da conexão final… se vos interessa a conexão com a natureza com a fruta da época, com a região.

FG: Oh Paulo eu este ano, neste natal que passou, fiz o bolo rei da minha avó, tinha recordações da minha avó e apliquei ali naquele bolo rei, porque existe já um costume, que há cerca de 12 anos comecei a fazer desde o dia 8 de dezembro até ao dia dos reis, fazer sempre um bolo rei novo. Só para te dar uma ideia o primeiro bolo rei que fizemos foi um bolo rei de rosas. Em que as pessoas iam à pastelaria e diziam bolo rei de rosas, já fizemos bolo rei de ananás e já fizemos bolo rei de figos.

PA: Oh Francisco, há figos em dezembro na tua terra? Era aí que eu queria chegar.

FG: Não há figos em dezembro, mas nós inteligentemente começamos a preparar esse bolo rei em junho, agosto e depois fazemos uma compotas ou umas geleias.

PA: Compreendo. Vamos passar agora para o Luca. De que maneira é que a expressão regional está dentro do teu trabalho.

Luca Arguelles (LA): É assim Paulo, dentro do meu trabalho aquilo que eu tento fazer é ir buscar muito o produto que temos sazonal. O que é sazonal especial aqui em Arronches, no Alentejo, o máximo que eu posso tento sempre fazer na região. Tento fazer não só o produto sazonal como tentar pegar num produto que é nosso aqui da zona, como o queijinho de Portalegre. Tento ir buscar ao máximo coisas que são nossas aqui. Algumas que se usavam nos tempo antigos e que hoje em dia já não se usam tentei adaptar isso tudo e criar com um estilo mais moderno nestes últimos anos, pensando sempre sazonalidade da região. Se não houver na região aí então produto português. Tento ao máximo que seja sazonal, mas às vezes nem sempre é fácil.

PA: Siopa, inspiração da grande pastelaria é francesa, diz-se, ela consegue conciliar-se com estas possibilidades regionais? Um hotel como a Penha Longa aceita este tipo de trabalho?

Francisco Siopa (FS): Sim, há aqui duas vertentes, na parte de hotel como o hotel funciona mais com cliente mais internacional, mais diverso, essa parte é mais fácil para nós, mais simplificada. Há aqui duas parte que nós podemos tentar criar produtos sazonais, mas depois, se calhar, nós não temos mercado para isso e o que é mercado para isso? É o que as pessoas gostam que é o pastel de nata a bola de Berlim, com todo o respeito como é lógico. Mas na parte de produção, ao estares a trabalhar muito nos produtos e estares a mudar os produtos e de ingredientes de três em três meses, o que cliente final, que é o que paga, não vai saber avaliar isso, não sabe pagar isso.

PA: Ok, ok. Oh, Francisco tu tens um negócio na tua família com várias dezenas que anos que é a Colonial, entretanto abriste há pouco tempo uma padaria, verdade?

FG: Sim.

PA: Porque é que abriste uma padaria ao lado da pastelaria? Qual foi a justificação? Como é que foi a aceitação?

FG: É que aquele prédio foi comprado pelos meus pais e tínhamos aquele espaço vazio e tínhamos que fazer qualquer coisa que tivesse relacionado com a Colonial e daí montarmos a padaria.

PA: Nessa padaria tu apresentavas um tipo de trabalho fino como é que foi o acolhimento das gentes de Barcelos a esta pastelaria mais elaborada?

FG: Inicialmente foi muito complicado, agora estava a correr muito bem, mas inicialmente foi muito complicado, as pessoas não compreendiam como é que eu vendia um pão por 0,50 cêntimos.

PA: Ok, há o tema do preço, não é?

FG: Agora vou ter que rever isso tudo.

PA: Ok já falamos sobre o presente e o futuro. Fala-me um bocadinho mais sobre o que é poder estar fora dos grandes centros, porque tu também estiveste uma boa experiência no Porto e depois mantiveste a tua experiência apenas em Barcelos. Como é que é em Barcelos? Não é um sitio que seja assim tão longe do Porto, mas não são os clientes do Porto que lá vão, não é? Ainda que alguns possam ir ao fim de semana.

FG: Felizmente nós ficámos com muitos clientes do Porto, há muita gente que me liga a dizer quando é que vou outra vez para o Porto. Há dois três anos tivemos outra experiência no Porto que correu menos bem. Era uma curadoria, mas ia ser entre aspas o meu negócio, eu é que ia selecionar e eu é que ia opinar sobre tudo. Aquilo estava num hotel de cinco estrelas e se queres que te diga ainda na semana passada me abordaram se queria abrir em tal sítio no Porto.

PA: E porque é que achas? Há gente interessada na boa pastelaria? Porque será? Faz falta ao mercado? O mercado tem pouca pastelaria ali no Porto?

FG: Não, no Porto existem muitas pastelarias, mas a trabalhar da maneira que eu trabalhei foi diferente. É assim, eu não sou mais que os outros, mas pronto foi diferente o arranque daquilo foi muito complicado, mas depois aquilo foi um sucesso e tu sabes porque é que eu terminei aquilo, mas agora é uma das hipóteses que estão em cima da mesa. É eu abrir outra vez no Porto.

PA: Tens coragem para isso?

FG: Eu na segunda-feira tive uma reunião e falei isso e as pessoas ficaram a olhar para mim, não me responderam, não me disseram nada.

PA: Ok, oh Siopa, tu estás em Cascais onde fizeste a tua loja com os teus bombons. Estamos aqui a falar sobre a possibilidade de uma pastelaria mais fina fora dos grandes centros e em rua. O que é que aconteceu contigo ai nesse negócio?

FS: Epá, aconteceu falta de gestão praticamente. Quando tu gostas daquilo que fazes e não ligas a despesas nem a números depois torna-se difícil, não é? Basicamente foi dar um passo maior do que a perna e já tenho as pernas grandes portanto.

PA: Mas olha tu também és professor…como é que se passa isso para as gerações futuras?

FS: É assim, as aulas de gestão na escola são dadas por bons professores. Basicamente a mensagem que eu lhes passo é não cometer o mesmo erro do que eu, porque eu quero abrir pequenos negócios, não é? E não é fácil, não é? Tanto o Francisco como o Luca também têm negócios, felizmente muito melhores do que o meu a nível de facturação e a nível de tudo, mas isto às vezes também é dar um passo maior do que a perna. E às vezes os miúdos na escola…. isto faz parte de nós sermos formadores também é além de estar a formá-los como seres humanos estamos a formá-los como pessoas e estar-te a explicar não é assim tão fácil, não é? Estar-te a fazer ver o mundo da gestão que não é assim tão fácil, não é?

PA: Tu estás atento à realidade e sabes que a restauração teve agora com esta paragem de alto impacto, a pastelaria nem por isso. Simplesmente, de facto, não existiam tentas pastelarias finas como vocês gostavam, não é?

FS: Sim, isto tudo é uma questão de preço. Imagina eu tinha bolos a custarem cinco e seis euros, que não davam margem e tinha pessoas que me diziam que se fossem à pastelaria a, b e c que compravam a metade do preço. E isto é uma coisa que nos falta a nós profissionais que é educarmos as pessoas, porque é assi, uma coisa é tu estares a trabalhar com produtos de alta qualidade outra coisa é tu estares a trabalhar com mix, é impossível. Para teres uma ideia, eu para fazer um bom croissant francês, com uma boa marca de manteiga e para ter a mesma rentabilidade de custo onde usam margarinas, se calhar tenho que vender o croissant a seis euros para ter a mesma margem de lucro. Portanto é impossível, porque se eu compro a manteiga a 10 euros o quilo, estar a vender um croissant a um euro… É impossível estar a combater com pastelarias que têm croissants com margarina que custa um euro e meio ou dois euros. É impossível, faz parte de muitos de nós profissionais educarmos o público e é a tarefa mais difícil.

PA: Concluo que não há público português em suficiência para existirem esse tipo de negócios.

FS: Sim, 80% do meu cliente da loja de Cascais era estrangeiro que mora em Cascais, muito belga, muito brasileiro, muito francês, muito americano, chegavam ali e pagavam o preço que pagavam pelos meus bombons.

PA: Ok, passamos aqui para o Luca. T fizeste um programa que te permitiu andar pelo país e conhecer uma realidade que se já conhecias, ficaste a conhecer bem melhor. Essa realidade que conheceste do país de que maneira é que encaixa no fio desta conversa na sua conexão com as regiões? Na sua conexão com a industria muito forte? Na existência de pastelaria mais fina? Ajuda-nos lá a fazer aqui um retrato do país que tu viste.

LA: É assim Paulo, eu felizmente tive essa oportunidade como dizes eu já conhecia muito, mas conheci o backoffice que normalmente nós não conhecemos. Vi que infelizmente pensa-se muito apenas no lucro, engana-se bastante o cliente com aquilo que se está a vender… Quando me diziam que era tudo artesanal, que era tudo produto de alta qualidade e nós víamos que realmente não era assim… É legitimo que as pessoas pensem que é preciso encher a caixa registadora e saber que há produtos que vendem em determinadas regiões e outros que não vendem e no fim de contas temos contas para pagar. Uma coisa que eu consegui reparar em todas as casas que eu estive foi que todas tinham um, dois, três produtos regionais, muito próprio deles e aí não há como fugir, não é?

PA: Partes da ideia de um conceito mas depois vem a ideia e espetas para lá margarina e não é bem a mesma coisa, não é?

LA: Exatamente, felizmente eu vi muitos produtos em cada casa muito especiais e nisso eles eram muito bons, mas o português adora ter uma montra cheia, qualquer casa que nós entremos parece a mesma casa do vizinho porque aquilo é tudo igual, tem mesma coisa. É legitimo a nível de preço, de fazer as contas, mas é ilegítimo, porque engana o cliente em relação aquilo que se está a vender. Não só se desrespeita a tradição que é nossa e estamos a induzir o cliente em erro e isto depois faz com que o cliente fique sem conhecimento do que é realmente a tradição e sem respeito pelo que todos nós tentamos com uma pastelaria mais fina, com produtos com mais qualidade.

PA: Ok, olha o atual momento de que maneira é que tu achas que toca a pastelaria, ou seja, a pastelaria tu sentes como integrada na restauração e ponto final? Ou existe alguma especificidade que tenha que se ter em conta para a pastelaria?

LA: Isso eu acho que sim, que se aplicam as mesma sporque estamos a falar de produtos alimentares. Talvez a grande diferença que se aplica na pastelaria será na vertente de padaria que é aquela coisa que nós consumimos todos os dias. Agora ir comer fora um bolo ou ir a um restaurante, isso deixou de ser aplicado quase por completo, porque fica toda a gente de quarentena em casa. Acho que as medidas deviam ser aplicadas a todos da mesma maneira, porque é produto alimentar.

PA: Ok, que feedback é que tens para dar e das pessoas que conheces na área da pastelaria? Elas estão abertas e a vender pão ou estão abertas e a vender outro tipo de produto ou estão fechadas?

LA: É assim a grande maioria continua a produzir obviamente numa quantidade muito mais reduzida, porque o cliente também consome muito menos, algumas empresas tiveram que mandar as pessoas para casa com férias, layoff ou de outra maneira qualquer. Não existe realmente justificação para manter ali as pessoas a trabalhar, porque não há produto para produzir. Eu vejo muito aqui no Alentejo e fiquei muito surpreendido disse e felizmente se calhar aqui vai-se abrir uma porta para outro tipo de negócios futuros, não só para as que existem já mas para outros que venham. Está-se a trabalhar muito mesmo na parte de doces, na vertente de porta a porta, como se vendia o pão antigamente.

PA: Explica lá como é que acontece?

LA: É assim, devido a várias regras, já se ia acabando com essa venda porta a porta e teriam que ter as suas casas abertas, mas isso deixou de chegar a certos sítios, agora como a maioria das pessoas está em casa de quarentena, para a maioria das empresas subsistirem, necessitam de ir bater à porta das pessoas porque precisam desse rendimento e as pessoas voltaram a essa situação, umas já faziam tornaram-se ainda mais fortes nesse aspecto e já que vou levar o pão faço mais um bolo, porque é um meio de subsistência.

PA: Ok, boa fica aqui o ponto de vista, ainda não tinha ouvido essa.

FG: Oh Luca, desculpa lá, isso pode resultar no Alentejo mas numa cidade tipo Porto, Lisboa ou mesmo Barcelos, não resulta porque dizes e bem, o padeiro ia deixava o pão e não sei quê.

LA: Mas eu falo nisso num conceito de terra pequenina, não é?

FG: Mas é assim noutras cidades, o que é que se está a passar? Como é que se vai passar o futuro? Isto ando eu a tentar descobrir há três semanas.

PA: Já tens conclusões para partilhar?

FG: Não tenho, porque ninguém me consegue dar uma explicação. Os chamados entendidos dizem-me coisas que eu riu-me.

PA: Então tu não tens nenhuma das tuas casas abertas, é isso?

FG: Não, mas para a semana, na quarta-feira, vamos abrir uma.

PA: A Colonial ou a padaria?

FG: A Colonial com pão. Vamos abrir porquê? Porque aproxima-se o maio, aproxima-se a festas das cruzes que não vão existir este ano. E eu quero vender o bolo das cruzes.

PA: Mas provavelmente sendo uma tradição já tão antiga as pessoas vão querer celebrar em casa portanto.

FG: As festas das cruzes não é uma festa de celebrar em casa. Olha na páscoa as pessoas também disseram que iam celebrar em casa e houve pessoas que cometeram coisas inconcebíveis e foram criticadas por tudo e por todos. Epá, foi o estado psicológico das pessoas.

PA: Siopa, em que ponto estão os pasteleiros no Penha Longa? Preparados para a ação assim que ela comece?

FS: Épa, neste momento é um bocado como o Chico diz, temos vários cenários em cima da mesa mas não sabemos ainda qual é que vai ser realizado.

PA: Isto do delivery não tem sido possibilidade para um tipo de cozinha mais elaborada?

FS: Não, escuta uma coisa, eu não vou mandar vir comida para casa de take away de fine dining. Como é lógico não vou pagar 50 ou 70 euros para virem em caixas de plástico e para eu chegar a casa e estar a empratar. Acho que não faz sentido nenhum.

PA: O chefe do Epur vai-me explicar como está a correr, mas olha não havendo nada a fazer havia que ser solidário. Vocês estão há procura de se encaixar num projecto para trabalhar para a comunidade, não é?

FS: Sim, estamos a trabalhar nesse sentido. Entretanto começámos a tentar falar com os hipermercados porque o concelho de Sintra é muito necessitado, sei que a santa Casa da Misericórdia quadruplicou o número de pedidos de ajuda… Andamos a ver quem é que pode dar verduras, proteínas, hidratos, para que a gente possa com alguma coisa matar a fome às pessoas.

PA: Esse é um lado bastante humano e de grande mérito de uma indústria que também existe para servir os outros, não é? Para servir o cliente a industria de hospitalidade.

FS: Sim, Sim exato. O grande factor para se trabalhar na indústria hoteleira seja em restaurante, seja em pastelaria, seja em hotel, seja em qualquer função é que tens que estar disposto a abdicar do teu tempo para os outros. E isto é a única coisa importante para teres sucesso na indústria hoteleira. É abdicares das tuas horas de sono é abdicares do tempo para estares com a tua família em prol dos outros. E pronto, já que nós não podemos estar a satisfazer os clientes como nós gostaríamos, temos que ir buscar outra hipótese de ajudarmos quem mais precisa.

PA: Regra desgraçada essa de não teres tempo para viver então dedicares-te ao trabalho a 100%.

FS: Atenção, não é uma regra, mas eu costumo dizer isto aos meus alunos que é, vocês estão mesmo preparados para isto?

PA: Qual é a resposta deles?

FS: Eles dizem que estão, mas quando lhe pinto o cenário, das 12 horas de trabalho no mínimo, que não vão ter fins de semana, que não vão ter vida própria no geral. eles ficam assim um bocado de boca aberta, e perguntam se é assim a sério. E eu digo que é.

PA: Oh Francisco, tu vieste da área de gestão, podias ter sido um gestor de topo de outras coisas e vens meter-te na pastelaria, não te arrependeste ainda?

FG: Não, não, é família… O meu avô tinha a pastelaria, passou para o meu pai e agora estou eu e o meu pai.

PA: Mas tu antes de vires para a pastelaria estavas noutras áreas, não era?

FG: Sim estive em gestão de empresas, éramos quatro sócios e tínhamos escritório em Vila Verde e escritório em Barcelos.

PA: Ok, muito bem. Falemos de futuro Luca. O que é que tu esperas? O que é que desejas? Estamos agora na iminência de poderem vir a abrir algum estabelecimento de comércio? Depois de restauração? Tu no teu caso especifico o que vais fazer?

LA: Olha Paulo, boa pergunta, eu acho que estamos todos um bocadinho na dúvida ainda como é que vai ser. No meu caso, como eu estou nesta onda de consultorias felizmente estava a correr maravilhosamente bem, os próximos dois anos estavam mais ou menos assegurados. Neste momento eu aponto-me do lado do empresário que me contrata como consultor se eu preciso de cortar custos, o consultor é o primeiro a saltar fora, não é? Porque faz todo o sentido. Eu espero que não aconteça, eu ainda não falei com nenhum sobre isso mas à partida isso vai cobrar um bocado. Existe a possibilidade de voltar à hotelaria porque eu preciso também de rendimento. Existe a possibilidade de ir para fora novamente. E também nunca pus de parte de eu próprio ter o meu negócio com a minha esposa. Nós já tínhamos as coisas mais ou menos apalavradas e depois metemos essa ideia de parte.

PA: Suspendeste essa vontade te ter o teu próprio negócio por causa do acontecimento em que estamos?

LA: Não, não foi ainda antes, porque pusemos isso em perspectiva, mas eu não queria voltar à hotelaria, a essa vida. Eu gosto bastante de hotelaria, mas é obvio que prefiro a vida que tenho levado nos últimos tempos. A possibilidade de abrirmos um negócio tinha que ser dentro das nossas condições, dos nosso stermos, no estilo daquilo que nós pretendíamos e que eu acho que o mercado está refém. E teria que ser sempre na minha terra.

PA: Mas explica lá para tentarmos perceber que perfil é esse, que tipo empresário que temos visto cada vez mais no país que diz que quero abrir o meu negócio mas é na minha terra em vez de ser nos grandes centros?

LA: É assim, há uns anos atrás nós estávamos literalmente longe de tudo. não é? E hoje em dia nós temos ligações muito mais fáceis e eu, no meu caso em específico, estou a meia hora da maior cidade de Espanha. Eu não penso só na venda em Portugal como é obvio, mas pensando em Portugal, nós temos ligações muito mais próximas com o país todo e depois eu tenho a minha família aqui, a Patrícia tem a família dela aqui. Nós temos a nossa casa, aqui não pagamos renda, felizmente temos menos essa despesa e isso possibilita algum à vontade. Depois é uma terra pequenina com uma qualidade de vida estupenda para criar uma filha. É a minha terra, foi onde eu cresci, foi onde eu iniciei a minha profissão e o gosto pela pastelaria. Gostava de ajudar não só a minha profissão mas também os profissionais a desenvolver a terem outra visibilidade e respeito….E depois o produto da terra, os produtores, as empresas, quer dizer temos aqui que criar sinergias entre todos.

PA: Uma dinâmica regional, não é?

LA: Exatamente, exatamente. Eu sou muito a favor que temos que ganhar sempre todos com o que quer que seja que estejamos inseridos. Não posso só ganhar eu, não podem só ganhar os outros. É possível ganhar um pouco menos e dividir o mal pelas aldeias.

PA: Francisco Gomes já sabemos que não tens os cenários definidos para o futuro, ou seja,que não sabes como é que vai ser, mas como é que gostarias que fosse?

FG: Eu vou explicar-te porquê que não tenho os cenários. Nós temos visto montes de pessoa que vão para o desemprego e o quê que essas pessoas vão fazer? Algumas senhoras dedicam-se a fazer uns bolinhos e vendem porta a porta, é um inimigo para as pastelarias. Depois as pessoas sairem à rua, andarem na rua, ire, àquela loja… as pessoas parece que têm medo de andarem na rua e isto leva-me a repensar tudo isto do mercado do balcão, isto porque nós temos vários clientes, hotéis, catering e eu tenho falado com os catering e acho que até setembro não há casamentos, os hotéis vão abrir dia 1 de junho mas os clientes não sabem… Os casinos também não sabem da reabertura. E isto eu pergunto todos os dias, o quê que eu vou fazer primeiro para pagar aos meus funcionários, segundo para manter aquela estrutura toda. Não sei se vocês me entenderam.

PA: Entendemos que está difícil essa previsão de futuro mas como é que desejavas que fosse?

FG: Olha que fosse como o ano passado.

PA: O ano passado foi bom pelos locais ou pelos turistas?

FG: Não, Barcelos, Barcelos não tem muitos turistas, costuma ter em Maio, espanhóis e costuma ter alguns turistas de passagem para São Tiago. Não é uma cidade de turismo. À beira de Barcelos é que há cidades de mais turismo.

PA: Achas que posso concluir que face a isso, tento tu a exposição ao turismo, o principal perigo agora há de ser o tempo que isto leva e depois alguma perda de rendimento por parte das pessoas?

FG: Sim.

PA: Siopa, no teu caso trabalhas num hotel de um grupo internacional que tem um conjunto de clientes que na sua maior parte são estrangeiros. Quais são as perspectivas?

FS: Epá, não sabemos, não sabemos. Neste momento temos vários cenários em cima da mesa para tentar saber como é que vamos fazer o resto do ano, não é? Temos um hotel que para além dos quartos tem oito restaurantes. Temos uma empresa de catering forte e epá se o catering não funciona não sei sinceramente. Não há nada que a gente possa dizer neste momento mas o que eu acho é que assim que os hotéis abrirem vai haver o room service e o que vai funcionar melhor porque toda a gente vai querer comer nos quartos, porque os clientes podem ter confiança nos profissionais que estão nas cozinhas. Eu acho que as pessoas vão ter mais receio em ir ao restaurante sem saber quem é que está na mesa ao lado do que propriamente do que estar com medo de comer a comida. Por isso é que eu prevejo que o room service possa ser uma solução.

FG: Estamos a esquecer-nos de uma coisa… os clientes de turismo, onde é que eles estão?

PA: Há-de depender também da força que os operadores tenham no mercado nacional e internacional para os fazer chegar, mas não se dúvida que venha um período de recomeçar de refazer, mas lá está Francisco, é daquelas dúvidas que tu tens, temos todos. Bom, terminamos assim mais esta edição e agradeço a vossa disponibilidade para este momento com esta última ideia de quando os clientes voltarem à hotelaria vai haver muito room service e a possibilidade da venda de porta a porta. Boas ideias e muito obrigada pelo vosso tempo. Mantenham-se fortes.

Para ver o vídeo desta conversa clique aqui. Para ouvir em formato Podcast clique aqui.