Hoje, enquanto admirava o quarto crescente de lua, vi um avião. Até achei que estava a ver mal. Depois dei por mim a pensar que há muito que não via um avião no céu. Claro, disse para mim. Parou o intenso tráfego aéreo que tínhamos. De repente voltei à realidade. À realidade. À que deixámos há quinze dias. À de hoje. À daqui a seis meses. Nos planos que tinha, nos que tive que arranjar e nos que gostava de ter quando tudo isto terminar. Segui em frente que o passeio ainda estava a meio e para todos os efeitos a vida ainda não está em suspenso. Parece, mas não está. De todo. Este amarelo intermitente em que nos encontramos não é uma pausa descansada. “Reconhecemos que a certeza adquirida obstruía uma grande parte do possível que vemos agora puro como o céu lavado pela chuva. Da lassidão nasce a disponibilidade”. Sim, sei que Camus tinha razão, que quando estamos disponíveis procuramos de novo e estamos a procurar de novo. Mas o problema é que estamos ainda demasiado agarrados às nossas certezas. Mas, vamos. Disponibilidade. Hoje até me apeteceu comprar uma camisola. Uma camisola azul, de um azul vivo, transparente e quase líquido, quase marinho. Talvez para me fazer lembrar e sentir o mar, não sei. Voltamos aos planos. Na verdade, eles vão acontecer. Não aqueles que idealizámos, mas aqueles que sentimos dentro de nós no momento em que estiverem para se concretizar. Tenho a certeza que serão diferentes daquilo que nós imaginámos, mas serão reais e serão os certos. A vida não está em suspenso e agora vamos aproveitar o que está à nossa frente, os desafios que impomos a nós próprios. Era muito mais fácil continuar a rotina mas os filmes só têm um final feliz, porque têm um final. Se continuasse a história para além da cena final lá iriam aparecer problemas e o final feliz rapidamente se transformava em pesadelo. E a vida, ao contrário dos filmes, continua todos os dias. Essa é a nossa sorte. E todos os dias somos surpreendidos pelo que não estava nos planos. E isso significa que estamos a viver. Pelo meio vamos sorrir e perceber que é possível ser feliz para além das circunstâncias.
