Os dias são sensíveis às emoções. Aos gestos, às imagens, às mensagens. Na volta que damos a todos os pontos da nossa geografia imaginária através da leitura de jornais, redes sociais ou programas de televisão, várias são as vezes que ficamos com pele de galinha. Impossível, não ficar, seja pela empatia, seja pelo medo. O mundo é grande e cumprimos a distância social exigida, mas de repente até parece que ficou mais pequeno. Ficou comprimido com esta necessidade de sabermos a todo o instante como vai a loucura em cada um dos países a que nos habituámos a ver como seguros. Preocupa-nos o nosso Portugal, mas não ficamos imunes ao que se passa na vizinha Espanha, na martirizada Itália, nos desgovernados USA, no mundo todo, portanto. E não deixamos de imaginar qual será o resultado da entrada desta pandemia em África.
Estaremos, porventura, a viver um dos maiores desafios das nossas vidas. Mas, sabem? Inspira-me a juventude. Eles têm a força, a calma, a lucidez, a esperança que às vezes nos falta. Poderemos pensar que é porque não têm encargos. Que se comportam assim porque estão tão ligados aos PC’s, às consolas, aos telemóveis, que nem conseguem ver o que se passa no mundo. Engana-se quem pensa assim. Estão conscientes e atentos. Sabem da gravidade da situação e querem ser parte da solução. Os meus alunos, jovens aprendizes de cozinheiros, padeiros e pasteleiros, têm sido uma inspiração grande nestes dias onde o sol apenas se sente através da janela. A participar em aulas virtuais, temos tido momentos extraordinários de aprendizagem comum, de partilha de preocupações, de procura de soluções para as dificuldades presentes. Fico tranquila, sinto que o futuro vai ser preenchido por esta força, pela frescura de ideias, pelo refazer de modelos, pela responsabilidade de quem sabe que, apesar do dever, o peso não nos pode quebrar as costas, não nos pode matar. Precisamos ficar a salvo para além dos problemas. A fome que têm de aprender e de saber dá-me a certeza de que serão melhores que nós. Discretos, mas muito atentos, veem a cozinha para além do estrelato a que nos últimos tempos nos habituámos. E eu fico feliz, orgulhosa. Teremos cozinheiros e pasteleiros comprometidos com a humanidade, certos do seu papel.
O sol sente-se através da janela e da minha janela vejo o mundo. Para lá do caos a que estou atenta mas que recuso, penso na juventude que me inspira e que me deixa com pele de galinha.
