Nas minhas viagens em que, literalmente, rodopio pelo nosso país assusta-me, mais do que me escandaliza, o isolamento a que vejo votada as populações do interior. À noite quando estou em casa fico sempre a pensar naqueles com quem meti conversa à laia de pedir uma informação e que deixei para trás. Para meu sossego mental afasto da memória o seu sorriso, o seu olhar. Se o faço é porque preciso não ficar de olhos abertos a olhar a noite passar. Mas nunca me esqueço deles.

Na semana passada, perto de Padronelo, ali mesmo ao lado de Amarante, fui em busca de uma aldeia pequeninha, mas maravilhosa, chamada de Ovelhinha que respira nas margens do Rio Carneiro, afluente do Ovelha. Dizem que foi naquela aldeia que nasceu o famoso Pão de Padronelo também chamado de Ovelhinha ou de Cantos. Deixei o carro longe já que a estrada estreita não me dava segurança. Sinceramente, não sabia se estava perto ou longe, mas sabia que o apelo para chegar ao epicentro daquele barulho de água a correr era tanto que fiquei ofegante mesmo antes de começar a caminhar. Cenário idílico com as levadas, as represas, as pontes, o moinho de água. Pelo caminho meti conversa com uma senhora que sentada sachava o canteiro. Falei com ela o tempo suficiente para saber que o tempo não morava ali. Estava ausente como as pessoas que há muito correram para a cidade. Depois de me ter sentido a pessoa mais feliz do mundo pelo recanto que tinha encontrado, fiquei triste. Pensei na noite, nos dias frios, nos dias de chuva, no Natal e nos dias de sempre. Quase chorei por aquela senhora ali tão sozinha. Hoje, lembrei-me dessa mesma presença humana quase sem tempo. Hoje, ao pensar nos dias que vivemos, pensei como o isolamento que marca como uma chaga as populações do nosso Interior é hoje salvaguarda da vida. Pensei como, de um dia para o outro, o mundo ficou virado ao contrário. Os que vivem isolados estão a salvo. Antes chaga, hoje salvação. Num salto, dei a volta ao mundo e pensei como os países habitualmente migrantes fecham as fronteiras aos que, de forma ufana e até arrogante, tantas vezes lhes fecharam a porta. Pensei como o mundo nos surpreende e nos deixa despidos das nossas certezas. Perdemos muito pouco tempo a pensar em todos os que vivem grande parte da sua vida numa espécie de mundo ao contrário. Espécie de reflexo do lado errado que nos persegue. Mas nós, que nos julgamos no lado certo, nem pensamos muito nisso. Agora somos nós. E estamos assustados. Quase queria voltar a Ovelhinha só para falar com aquela senhora outra vez e perceber a sua certeza de se saber no lado certo do mundo. Tenho a certeza disso. Por isso, todos os dias precisamos aprender a viver. Razão tem quem canta: “a vida é p’ra ser vivida, sem manual de instruções”.