Os diários também são feitos das palavras dos outros. Não porque não tenhamos nada para dizer, mas porque os outros dizem as palavras perfeitas como perfeito é o azul que dá cor ao céu. Dizem que é inútil regressar ao sítio onde fomos felizes, como se um momento de felicidade não se repetisse só porque sim. Mas o que é certo é que nas palavras de Sophia consigo sempre ser feliz. Repouso nelas o rosto cansado e encontro sempre a inspiração, a força, o sorriso. O regresso nunca é feito de nostalgia ou de lamento, mas sempre de esperança. Com a alma feita de espuma de mar e a necessitar tanto de sentir o sal a queimar a pele mais do que o sol, regresso a um poema feito de palavras lindas. Apesar da distância, senti o cheiro a maresia, as conchas soltas na areia, o fresco da brisa, a luz encantadora da manhã e a magia do crepúsculo, hora de todos os desejos. A noite foi feita de um azul escuro a deixar apenas escutar o bater das ondas na areia. Regressei ao meu pensamento ainda com o cheiro a mar. Viajar na poesia fez deste domingo um dia cheio de luz.
Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
