Um dia farrusco, ainda assim quente pela correria das palavras que nunca me deixaram só. Nas notícias, mais opiniões e factos. E nós, à varanda. À espera de boas notícias e de um alento que venha do mundo. De um sinal que nos faça andar para qualquer lado, que não nos obrigue a ficarmos quietos. Mas não. Sabemos que o tempo sem tempo permanece e que não teremos novidades tão breves. O pouco vai ser muito e sabemos que não vale a pena querer andar à frente do tempo. Não vai andar mais rápido só porque nós queremos. Eu até acho que o tempo, neste momento, olha para nós e ri-se. Ri-se muito do que era o passo apressado e o desencontro com os momentos mais belos do dia. Do alto das batidas lentas das horas e do tiquetaque rápido dos minutos, o tempo olha para nós. Desnorteados, encolhemos os ombros e rimos com o tempo que nos sobra não tendo noção nenhuma de que ele nos irá faltar. Não é de todo conversa fiada, aquela que o tempo tem connosco, na verdade, só nos quer dizer como as fases da lua são um tempo grande, mas que passa a correr e como a volta em torno do sol nos podia dar tanto se tivéssemos tempo. Vamos a votos, queremos tempo para ter tempo ou queremos correr contra o tempo? Na sinceridade do que nos é conveniente, desviamos o olhar e sorrimos. Escondemos o nosso ar apressado, incomodados com o tempo que parece brincar connosco. O tempo que virou as regras do jogo e que nos deixou a brincar sozinhos no parque infantil. Agitados, inconformados, zangados, ralhamos com as horas as razões da nossa inquietude, do desperdício. Mas o dia e a noite não têm culpa. Dormem um ao lado um do outro e sempre nos aconchegaram, sempre nos deram tempo para escutarmos os sons do amanhecer e do entardecer. Mas nós, lá estamos. Continuamos uma discussão surda fazendo as nossas queixas, omitindo a nós próprios as razões de tal desassossego. Os dias que eram segundos parecem agora semanas. E os meses perderam o brilho dos planos que se faziam com grande satisfação. Impossibilitados de preencher o calendário à nossa vontade parecemos revoltados contra o tempo que temos.

E nós à varanda. A olhar o tempo que temos. E o tempo a ver-nos. E a sorrir para nós.

Cansada de o olhar de frente, aproximei-me e sentei-me ao seu lado. Com as nossas conversas tenho aprendido a ter o tempo do meu lado.