Há um Portugal em silêncio. Aquele que fica distante e já está habituado a ter que sobreviver para além das contrariedades e dos fatalismos. O país dos pequenos produtores, dos que ainda apostam nos produtos tradicionais para dar forma e sabor à cultura imaterial e à geografia que lhes dá amparo. Está-lhes na massa do sangue sobreviver, sim é certo. Mas nós sabemos que eles, na quietude da sua paisagem e do seu recanto, sentem na pele as réplicas do tremor que abala a nossa economia. Por isso, se a aflição é grande para quem está na linha da frente com o consumo, para quem fornecia a imensa restauração também a vida não está nada facilitada. Tanto que fizeram para se modernizarem, tanto que investiram, tanto que deram para a diferenciação no consumo e agora podem agonizar perante a falta de escoamento. Nós, consumidores, não podemos salvar o mundo, mas podemos ter uma atitude diferente para com a produção nacional. A Páscoa aproxima-se e, por muito confinados que estejamos ao isolamento, sabemos que a mesa vai ser farta de predicados pascais e em cada opção, cada escolha de consumo pode estar a diferença para um produtor. Dos queijos, aos folares, aos anhos e cabritos, ao vinho, às amêndoas, ao pão-de-ló, às fogaças, ao pão, às frutas, aos legumes, vamos escolher português, regional, local. Mesmo que o nosso conhecimento não seja muito, podemos ter atenção aos rótulos, procurar os produtores da nossa região, ir aos mercados municipais, encomendar a quem precisa de encomendas como de pão para a boca. Se durante anos andámos a gastar milhões em projetos de valorização do que é nacional e fizemos dos produtos qualificados os heróis do nosso Portugal singular e regional, é agora altura de percebermos que os que nossos produtores precisam de nós. Do nosso entusiasmo, da nossa preferência, da nossa procura, do nosso consumo. Esta quarentena não pode retirar-nos a confiança e o isolamento não pode impedir-nos de ajudar quem precisa e quem ajudou Portugal. Temos que estar por perto. Podemos acudir, podemos estar presentes e dar confiança a quem precisa. Há muita maneira de ajudar e dado que todos precisamos de comer, vamos lá fazer as melhores escolhas, aquelas que sabemos como necessárias para manter Portugal de pé. Os rostos da nossa produção merecem isso e muito mais, eles são o nosso Portugal gastronómico.