Temos dias cinzentos, mas a esperança mora no nosso coração. Não temos tido horas fáceis nas nossas vidas. Mas ao longo de todos estes dias de quarentena tive sempre certeza de que ninguém estava sozinho. Para além do desnorte e do vira que vira inicial, a sociedade portuguesa mostra porque ao longo de séculos resistiu a tremores e catástrofes. Não é de agora, sempre fomos assim. É certo que, hoje, a maioria dos portugueses vive em grandes cidades, em prédios onde os vizinhos nem se conhecem. Mas não. Não perdemos as nossas raízes mais longínquas de confiança no vizinho, a capacidade de nos valermos uns aos outros. Não é à toa que a vindima e a matança são duas festas, não da família, mas da comunidade, da vizinhança. Agora dou eu e recebes tu, amanhã sou eu que recebo e tu que dás. Numa troca constante, os vizinhos faziam da reciprocidade uma palavra cheia de sentido. A troca de trabalho era afetiva e se nas horas boas se celebrava em conjunto, muito mais nas difíceis se sentia a proximidade. Ninguém passava fome nem morria sozinho exatamente por causa disso. E essa boa herança que recebemos mostra agora os seus frutos. Ainda que distanciados das nossas raízes somos todos filhos dessas memórias ligadas à cumplicidade da rede de vizinhança. E, hoje com as redes sociais, os efeitos são multiplicadores. De uma forma ou de outra somos todos vizinhos numa imensa ideia global de vizinhança. Não seremos todos amigos, mas somos todos vizinhos numa qualquer rede social. E neste desfiar de quotidiano que partilhamos vem ao de cima, como o azeite na água, a nossa vontade de ajudar o outro, o vizinho, aquele que não é nosso amigo, mas é amigo do nosso amigo. A forma voluntária como os portugueses se têm mobilizado pelos que passam menos bem deixa-nos emocionados. Somos sensíveis às dificuldades e não deixamos de atuar. Faz-me lembrar a Confraria dos Cavaleiros do Sabugal que em tempos medievais salvaguardava a vida dos seus confrades e o direito a ter o seu bem maior: o cavalo. De tal modo que quando um dos Cavaleiros, por infortúnio, perdia o seu cavalo logo os seus confrades vizinhos reuniam proveitos para lhe comprar um. Isso era reciprocidade como hoje é reciprocidade o que acontece com as imensas redes que se criaram e que dão rede aos mais velhos, aos mais desprotegidos, aos produtores nacionais, aos restaurantes, às padarias, à economia nacional. Andamos com o coração apertadinho, mas bem lá no fundo descansamos porque sabemos que o nosso amigo, o nosso vizinho, está lá e não nos deixa sozinho nas aflições. E isso é tão bom. Tão seguro. Viva Portugal, vivam os portugueses!