Podia olhar o mundo e escrever sobre as suas dores. Podia, mas não quero. Sobretudo, porque às 24 horas de hoje passa para o dia 30 de Março e eu faço anos. Faço anos em quarentena. Não quero desviar o olhar do que magoa o mundo, mas preciso deste momento de sorriso tranquilo. Sentir ainda com mais intensidade o quarto crescente de lua que cresce todos os dias. E sim, amanhã, ir aos campos do Mondego e ouvir as animadas conversas das margaridas vestidas com os seus botões amarelos vistosos e as suas saias brancas. Sentir o verde fresco e ingénuo que rebenta em cada arbusto. Respirar fundo, bem fundo e levar o meu olhar até ao extremo mais longínquo do horizonte. Apesar do amarelo intermitente em que se transformaram as nossas vidas, estamos vivos. No recato de cada um de nós viajam pensamentos que não podem ficar para trás. Podem ficar adiados, mas não cancelados. Em cada hora que passa, passa uma hora da nossa vida. Com essa certeza devemos viver. Ainda que o abraço demore, ele chegará. O desejo? O mesmo de todos. Que tudo isto passe e que não se assista à desordem. Mas, sobretudo, que depois disto possa estar e ser mais humana. É ainda muito cedo para sabermos o caminho que temos que fazer com tanto ziguezague a que vamos estar sujeitos, mas tolerar as nossas imperfeições e as dos outros talvez nos ajude a ver a vida com outros olhos. Com mais calma. Depois de sujeitos a tanta pressão, tenho a certeza de que os problemas do dia-a-dia vão parecer problemas de crianças. Que esta reviravolta na ordem não nos impeça de reivindicar o nosso quinhão de vida, a nossa parte de sol, o nosso banho de pele salgada. A vida está aí. Com todos os defeitos e virtudes. E espera por nós. Viver com a intensidade que ela merece. Sempre o projeto maior. E a cada momento teremos a oportunidade de dar o melhor de nós sem sentir vergonha do momento em que não teremos coragem de ir mais além, em que iremos querer o silêncio. A vida de tudo é feita. Mas viver, sim é preciso.

As andorinhas chegaram hoje à minha rua e eu sei que elas quiseram fazer-me uma surpresa. Amanhã, quando sair à rua o azul do céu será pincelado pelos seus voos curtos e alegres. E eu vou sentir que a Primavera chegou no dia certo.