São dez dias a escrever aqui e os tais quatorze já com as portas encerradas. A decisão foi tomada um pouco antes de muitos. Em equipa. Dizem os especialistas que as empresas têm um prazo de vida de quinze a trinta dias sem facturação. É um tic tac constante e uma realidade do dia a dia. Como pagar? Como retomar? O que fazer para reconquistar o que se perdeu? Um cozinheiro, mesmo que gestor de uma microempresa como é o caso, tem que pensar nisto. Primeiro se é possível sobreviver e se há forma de o fazer. E depois, se se tiver encontrado um caminho com que forças, formas e feitiços se fará a forma de um regresso do qual não se quer desistir. Há um lugar no pensamento que é feito de números. E em que se desiste do Estado e das “ajudas” que prometem em forma de créditos (com mais condições do que se fosse para investir numa daquelas aplicações estranhas dos bancos). Os sistemas de apoio não as entendem. Nós não as entendemos e não parece de todo correcto dizer a quem pensa como vai pagar as contas sem ter receita ou com receita diminuída, que ainda em cima disso tem que contrair uma dívida que não sabe quando poderá pagar (e não para investimento) simplesmente para pagar contas correntes. A força para perceber que estamos sós, no mar, mesmo em barcos de tamanhos diferentes é tão avassaladora como a própria dimensão do mar. Restam os outros, no mesmo mar, com quem falamos e que vão bradando aos céus como nós. Dizia muitas vezes que o melhor de tudo era estar na cozinha. As visitas ao contabilista, as encomendas e a burocracia era tudo aquilo que me tirava forças. A cozinha, aqueles momentos deliciosos em volta dos sabores e da alegria que os clientes tinham em cada visita, isso sim, fazia tudo valer a pena. É a isso que me agarro para ter a vontade de não baixar os braços. Porque é mesmo isso que vale a pena a luta, a força e a esperança de continuar de portas abertas num futuro que não sei se próximo ou longínquo. Só sei, sinceramente, que seja futuro.