Já são 14 dias. Não importa. Serão muitos mais. Se continuar a escrever aqui, será bom. Quer dizer que estou bem de saúde. Penso assim. Em terra de gente tão forte, cheia de certezas e ideias. De resistência e de superação, sinto-me hoje muito pequeno. Não falamos disso porque temos medo. Mais medo a juntar ao medo que temos. Daquele pensamento que vem lá do fundo e de vez em quando ecoa mais forte: e se não conseguires? E se não for possível superar isto e retomar o projecto interrompido pela brutalidade desta coisa cruel? E se tudo isto durar tempo a mais do que consegues, verdadeiramente, resistir? Não há mal nenhum em pensar nisso. Ou em alternativas. Em pensar que isto, o que fazias até aqui, chegou ao fim e terás que recomeçar de outra forma, noutro lugar, a fazer outra coisa. Esses ecos chegam, de tempos a tempos, mesmo que não possamos admitir que os ouvimos. Não faz mal em dizer que se tem medo. Que não se sabe. Que se está perdido. Que não se sabe como sair daqui. Como resolver as mil e uma coisas que se tem entre mãos, incluindo a vida dos outros que trabalham connosco. Não faz mal dizer que já não se tem forças, nem que seja por um bocadinho. Somos feitos de carne, sangue, suor, luta e lágrimas. Somos feitos do peso dos dias. Somos feitos de tudo isso sejamos cozinheiros ou donos de um pequeno espaço que já esteve cheio de vida e que agora olhamos com desânimo porque só os nossos passos ecoam no lugar. Não faz mal. Nada disto faz mal. Nem não ter ideias para superar isto. Nem pensar que nenhuma das que nos passa pela cabeça terá realização prática porque o mundo está aflito. Não tem mal nenhum assumirmos perante nós a fraqueza da nossa humanidade. Isso não faz de nós menos ou mais. Enquanto pensamos em tudo isto é sinal que ainda estamos a lutar. Enquanto sentirmos esse medo, aquela voz que não nos deixa dormir descansados, enquanto tudo parecer que se desmorona à nossa volta, é sinal que ainda não desistimos e isso é bom. E enquanto estivermos assim, falemos uns com os outros. Sem a ideia que somos feitos de ferro e invencíveis pois do outro lado estará alguém a sentir e a pensar como nós. Que afinal somos tão frágeis. Uns só disfarçam melhor do que outros. Só isso. Como cada um conseguiu construir uma ilusão de si agora é tempo de partilhar a realidade de si. Porque é nessa fraqueza, nessa ausência de respostas que todos temos, que todos podemos encontrar o caminho. A solução nasce sempre quando batemos no chão e temos aquele tempo lá, fixos, a parecer que tudo acaba ali. Até que as forças começam a ressurgir e nos conseguimos refazer. Não faz mal, não acreditar que é possível, por um bocadinho…
