Fecho os olhos e vejo o espaço do restaurante. A sala alongada sobre o lago. Os vidros que refletem a luz. A pergunta que sempre os clientes faziam: “mesa à janela?” À qual nós dávamos as respostas de sempre: “todas as mesas são à janela”. O tempo não pára de passar. Chegamos ao fim do mês de Março. Lembro-me de no primeiro mês que abri passar algumas horas a fazer contas. Preocupado. Dava, não dava? Depois foi só lutar dia após dia. Ali, a beleza do espaço contrasta com o seu isolamento. Tudo era mais difícil. Até chegar o correio. Muitas vezes, como todos nós, acreditei que era possível fazer o impossível. Foi-se fazendo, dia após dia. As preocupações sempre estiveram presentes. A gestão era sempre feita no fio da esperança. Todos os projectos recentes são assim. Tentamos, erramos, voltamos a tentar, afinamos estratégias, temos compreensão e amizade de alguns, pressão e ruptura de outros. Tudo faz parte do mover as coisas para a frente. Agora, agora é diferente. Observo em silêncio os meus próprios pensamentos. Em primeiro lugar coloco a equipa. Ser dono de um pequeno projecto implica estar um pouco mais preocupado ainda por cima porque é um começo que se estava a sedimentar. Quanto tempo demorará isto tudo é a pergunta que passa mais vezes pela minha cabeça e como posso agir para apoiar a minha equipa. Eles sempre me apoiaram. Qualquer que seja a decisão, custa. Ninguém percebe melhor do que nós, num restaurante, esta ligação única entre as pessoas com quem trabalhamos. Depois vem tudo o resto. Os fornecedores, os compromissos passados, presentes e futuros, as despesas fixas e as que todos temos: a luz, as coisas mais básicas. E se isto dura mais dois meses como se faz? Oiço os grandes empresários a pensar e a dizer que não sabem como fazer e eles podem muito mais do que eu. Eu sou só uma pessoa que tinha, melhor, que tem uma ideia do que devia ser um restaurante. Eu sou verdadeiramente muito pequeno ao pé de outros. Mas o peso. O ar tem peso descobriu o meu filho ontem. E este ar deste tempo ainda pesa mais. Hoje, estou só preocupado. Com o que fazer, como o fazer e com o que farei. Seja qual for a decisão, as decisões que o futuro me obriga a tomar, há duas coisas a fazer: proteger ao máximo aqueles que trabalharam comigo e acreditar que não fica por aqui aquilo em que acredito…