Não, não vamos todos ficar bem. Nem bem. Nem seremos os mesmos. São horas a falar com os contabilistas, os juristas, a procurar informação. Não temos equipas para isso. Nem acesso directo a nada que outros vão tendo. Somos pequenos e tudo nos lembra dessa pequenez. Não contamos. Os nossos números são insignificantes. Lemos os apoios, relemos os apoios. Percebemos que são para todos menos para nós. São feitos para iludir. Nunca pedi nada para abrir, não pedi na altura de manter e agora, fechado, não esperava nada. Sabia que nada era o que havia e haverá. Deixamos a cozinha de lado e parecemos aqueles náufragos à procura de uma boia de salvação. Quando decidi fechar, percebi que essa era a urgência para colocar a salvo o restaurante e principalmente a equipa. Cada decisão que hoje tomei, porque há altura em que temos que antecipar a corrida que aí vem a um sistema que irá falhar a tudo e todos, custou-me a pele. Ardeu, na pele. Salva-me o que julgo ser a minha lucidez. O perceber que estou na praia como naqueles filmes americanos de muito má qualidade, a que chamam de catástrofe. Estou na praia, e vejo a onda a ganhar forma. Ainda estamos aí. Nesse momento em que ao longe a onda se forma. Depois, rebentará. Levar-me-á descontrolado de embate nisto e naquilo. E depois, quando achar que parou, vem o regresso da água ao mar que os especialistas dizem que é tão ou mais perigoso do que tudo o resto. É o que vejo. É o que minha lucidez me permite ver. E cada decisão que tomei, por mais que doa agora, foi para amarrar, abraçar, segurar tudo o que podia com todas as forças que posso e tenho. À equipa, aos recursos, às forças e ao futuro. Atar tudo com as cordas que tenho à disposição para ver, desejar ver, conseguir manter-me a conseguir respirar. A vida de um cozinheiro é feita disto também. Mais quando o negócio é próprio. Hoje, só sei que não vamos todos ficar bem. Hoje, o dia custou mais um bocado que todos os outros dias maus na cozinha juntos. Porque hoje, coloquei o sonho em suspenso. Agarrei tudo com a força que nem imagino que tenho e sustive a respiração…
