Uma coisa que um cozinheiro sabe é que o erro, esse monstro de muitas mãos, está sempre presente no dia-dia. E o imprevisto, seu irmão, acompanha-o sempre de perto. Sabemos que o impossível é só um lugar de passagem. Aprendemos isso, dia-a-dia, hora a hora, minuto a minuto. Neste tempo isso valerá mais do que todas as outras coisas. Esse saber não aprendido em lado nenhum mas que entra no corpo e no modo de pensar é o que nos faz conseguir superar tudo, renascer sempre e desafiar o que nos dizem ser, improvável. Sabemos ainda mais. Sabemos, com pouco, fazer muito. Até sabemos que algumas coisas podem não ser aquelas que precisamos mas damos a volta. Encontramos soluções. Quando se bate no chão deste tempo tão impossível só temos essas armas para lutar. Essa forma de ver o mundo e as coisas que nos torna quase intoleráveis. Porque sabemos que podemos encontrar uma saída. Há 17 dias que me sento um bocadinho a escrever estas linhas. Não sei qual a dimensão do que escrevo. Talvez sirva mais a mim do que a outros. Mas hoje só me apetece voltar ao início. Porque em Maio, fará um ano que me mudei para aquele lugar perdido no meio da serra. Por esta altura íamos em viagem de família. A conversa era sobre o medo e o nome. O receio do que seria preciso para tornar aquilo, aquele espaço em algo diferente. E o risco. Não era na cidade, não tinha nada à volta, não vivia ninguém muito perto, era preciso criar hábitos, público, mudar a lógica, e acima de tudo ficava distante dos locais de abastecimento normais. O nome foi dito em voz alta. Tantos. Todos e mais alguns. Sempre disso que um dia que tivesse um restaurante gostava que fosse indelicado. Ninguém gostava. Passou por Pedra, Água, acabou em Xisto. Fazia sentido. Depois foi um trabalho que sempre me acompanhou. As receitas de memórias. E os produtos de toda uma região. Os amigos que chamam de fornecedores estavam lá. A carne do Sr. Pedro, o peixe da Lurdes, etc e etc. Eram precisas as viagens mas era isso que dava sentido e forma à coisa. Cada ingrediente escolhido. Com alma, viagem e força. Agora, por mais um bocadinho, é disso que começo a sentir saudades demais. Daqueles pequenos bocadinhos dos dias que são feitos de pessoas e de sonhos. E da força para os criar. Do impossível, fazer. Só isso, fazer. É isso que nos vai tirar a todos do meio disto. Do impossível, fazer…