É simples. O medo. Um cozinheiro sabe que uma imensa parte do que fazemos se baseia numa extrema confiança de quem come, em nós. Por isso, a história prova que ditadores e imperadores tinham provadores oficiais para cada refeição. Porque há uma relação silenciosa de confiança. Sempre houve. Que aquele que cozinha serve algo que não nos fará mal. O medo. Essa manta avassaladora que agora se instala em cada gesto que fazemos é o que cada restaurante terá que enfrentar no futuro. Isso e a conquista do espaço tecnologicamente seguro onde nos encontramos agora a com quase tudo à distância de um clique. Seremos diferentes. E vamos ainda enfrentar a maior crise económica da nossa vida. Algo tão similar ao estado de reconstrução do mundo no pós-guerra. Algo tão avassaladoramente gigante que ainda não percebemos bem onde estamos metidos. Ou começamos a perceber e por isso estamos a sentir que estamos perdidos. Um restaurante é um lugar de alimentação. Todos temos que nos alimentar. Sobrevivemos assim. O luxo e o ócio vão perder lugar nos próximos tempos em detrimento desse simples acto de sobrevivência. É quase sempre assim. Alimentar é dar alma para fazer. Para agir. Vamos passar por esse momento em que só isso será necessário porque só assim iremos refazer tudo. Pode parecer pessimista. Não é. Sou e sempre fui um optimista e sempre olhei para os problemas como algo que é preciso superar sempre. Resolver. Agora é a mesma coisa. Primeiro, no mundo da restauração, temos que perceber que o turismo como o conhecíamos estagnou. Depois, que o luxo será o último reduto da procura ou para um nicho cada vez menor e mais selectivo. Por outro lado, perceber que o esforço de reconstrução das nossas vidas exigirá uma restauração preparada para alimentar. Dar alma. Seja ela através do combate ao medo, seja pela nutrição, seja pela forma simples de pausa para reforço. Perceber isto não é só perceber que vamos entrar num mergulho vertiginoso a um fim do estado social como o conhecíamos. É perceber que, não seremos os mesmos. Não podemos ser os mesmos num mundo que se refaz. Cada vez que escrevo aqui, cada dia que passa, mais longe estou de conseguir refazer o que construí no último ano. Eu sou um desses pequenos que não sabe como fará e só tem aquelas imensas preocupações que agora todos temos. Mas há que perceber que tudo mudou. Só assim, só mesmo assim conseguiremos seguir caminho. A fazer o mesmo ou outra coisa. Primeiro sobrevivemos, depois adaptamo-nos e só a seguir continuamos. Ainda estamos na parte do sobreviver…