Já percebemos que isto vai demorar muito mais do que o podíamos pensar. E com isso, já percebemos que não vamos ficar bem. Não, não vamos. Vamos enfrentar uma mudança do mundo. Não, não é uma crise. É uma revolução. Logo, uma mudança. Quem parou já, como eu, não consegue resistir. Consegue guardar forças, somente. Quem continua, resiste com as forças que tem contra a onda, em coragem. Podemos ter a sorte de a onda ser um pouco menos intensa. Mas é uma onda, na mesma. E a cozinha, os restaurantes, serão as primeiras dunas a sofrer o embate. Acontece que isto é agora uma realidade no mundo. Nós, por cá, assentes nesse turismo emergente, sofreremos pela sua ausência. Ficarão os que cá estiverem. No fim disto. Com a vontade de refazer a vida que será lenta e difícil. Cada dia que passa, será assim. E a cozinha? Não será a mesma. Penso nisto. Aquela conversa da sustentabilidade e do aproveitamento, aquela conversa dos produtos e acima de tudo aquela conversa do luxo. Estaremos todos pobres. Mais pobres. Com menos e com aqueles próximos a precisarem de mais ajuda do que os grandes a quem a onda atinge mas de outra forma. Lá no alto, vemos as pessoas de outra maneira. De baixo para cima, é mais difícil sobreviver. Cozinharemos para ajudar. E para que nos ajudem. Porque se não dissermos que precisamos de ajuda não estaremos dentro da realidade. Os nossos erros serão de maior dimensão. As nossas falhas também. Mas cada ajuda será uma conquista. Cada pequeno produtor que sobreviver será de uma riqueza sem par. E se nós sobrevivermos, valorizaremos isso. Começando pelo simples, limpo e belo conceito de alimentar. Cada dia que passa percebemos a dificuldade disto tudo. Dos apoios que não servem. Da razão de ser de cada restaurante. Da transformação que ainda teremos que enfrentar. E ainda falta tanto. Não haja a ilusão que isto passa rápido ou a tempo de salvar o que resta. Não, isso não é a realidade. A realidade é que ainda será tudo mais duro, mais impossível, mais desesperante. Por muito complexo que este meu pensamento possa parecer, não é fruto de nenhum devaneio. É um alerta para mim mesmo. Prepara-te. O pior, a falta, a ausência, a dificuldade disto tudo ainda está para chegar. Só com essa lucidez se torna possível perceber o que teremos que fazer para nos adaptarmos ao tempo que será preciso atravessar. Na restauração como na vida…