Posso pensar. Tenho esse direito. E se não voltar a abrir o restaurante? Se acabar por ali. Por aqui. Neste tempo. Porque as forças já não o permitem. Porque se torna impossível financeiramente. Porque, simplesmente, era preciso fazer tudo outra vez. Posso pensar. Tenho esse direito. Como todos temos esse direito. O direito a desistir. Como todos temos o direito ao seu oposto. Então, naqueles instantes em que paramos e pensamos, percebemos que há sempre essa opção. E que não tem mal. Porque bater no fundo, chegar ao chão, não faz mal. Faz mal é não fazer. Não ter feito. Não ter tentado. Não ter conseguido nem que fosse por breves instantes. E perceber isto é perceber que custará sempre muito essa decisão que será sempre a última. Mas que é preciso pensar. Que existe. Que não faz mal que exista. Um restaurante faz-se de uma luta diária entre o perfeito e o possível. Com as pessoas. E a procura de sabores. E de momentos. Há alturas em que isso se esvazia. Em que ficamos só com uma sala sem ninguém à espera que voltemos a fazer a força, a mover as montanhas, para levar lá pessoas. É preciso muita força. Sou muitas horas, muitas batalhas, muitos erros e muitos dedos apontados. Muitas opiniões. Muita gente que sempre trabalhou para outros a dizer que sabe o que é estar na nossa pele, que temos ali tudo nas mãos, todos os dias. E se for o fim? Que mal tem? Nenhum. Porque demos vida a um lugar. Porque servimos sabores que as pessoas vão recordar. Porque simplesmente criámos um restaurante e isso ninguém tira a quem o fez. A imensidão deste tempo, faz pensar nisso. Cada dia que passa, faz pensar nisso. Que não é possível mais do que sobreviver. Que são precisas forças que não se sabe onde estão. Imagino aqueles generais sentados a olharem para mapas e imagino o capitão na frente da batalha. Nós, agora, estamos todos na frente. Não há generais. Não percebemos o todo. Só o nosso todo que se perde ou ganha a cada movimento. Pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Afinal, o fim dá sempre início a algo. Resistir também pode ser isso. É quando nos vemos sozinhos, que pensamos verdadeiramente nisso. Mesmo que ninguém oiça. Mesmo sem dizer a ninguém. Mesmo sem a vontade de o admitirmos. Mas pensamos. E não faz mal…

(não perca a continuação deste artigo amanhã)