(continuação do artigo publicado ontem)
E não faz mal. Não faz mal querer continuar e não saber como. Ver cada dia passar e pensar nas despesas. Que será, se tudo se arrastar mais, dívidas. E os pendentes. E as coisas por resolver. E o tempo. O tempo. O tempo que não pára de passar. Não faz mal querer e dizer vezes sem conta: resisto. Não desisto. Vou voltar a tentar. Não faz mal dizer isto mesmo sabendo que começar implica refazer tudo mas agora do “menos zero”. Porque algo ficará por fazer. Porque o dinheiro e as forças não chegam para tudo. Porque agora, aqueles erros que cometemos, reaparecem com mais força e contra eles será preciso combater com ainda mais garra. E depois, aquela sensação que nos acompanha do princípio ao fim: construí um restaurante e não o quero ver morrer. E não faz mal, segurar as coisas com as esperança. E que cada um escolha a melhor opção. Seja ela usar as forças agora, como o seja, usar e guardar para depois. Não há leis universais nisto. Nenhum de nós sabe se está certo. Sabemos que o mar revolto está assim para todos. E que não faz mal querer ter o sonho de o atravessar e chegar a bom porto. Mesmo que seja preciso chorar. Mesmo que seja preciso pedir ajuda. Mesmo que seja preciso pedir compreensão. Mesmo que nada disso venhamos a ter, saber que há uma força que não esmorece nem desaparece das mãos. Porque, afinal, edificou-se algo, um lugar, onde se foi um bocadinho feliz. Onde se fez algo. Onde cada pequena conquista é vivida com grandeza. E não faz mal. Pensar que se pode continuar. Mesmo que os outros nos olhem com dúvida. E nos acusem de todos os males. Ou de sermos optimistas. Ou de não respeitarmos a perda e a vida dos outros. Porque as lutas que se fazem para continuar são sempre contra algo ou alguém. Principalmente contra nós mesmos. Num silêncio avassalador. Com uma força imensa. Dizemos: é para continuar. E será. Resistir também é isto. Pensar que se consegue mover o mundo, nem que seja, só mantendo as coisas a funcionar. Não desistir. E não faz mal, acreditar que sim. É possível…
