Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta. Sento-me enquanto uma tarte de pêra e chocolate está a descansar no forno. Percebo que agora, o cuidado é maior para aproveitar tudo. Até aquela fruto que quase ia parar ao lixo. Pergunto-me porque deixei de fazer massa quebrada em casa. Afinal, mesmo no final, não demora assim tanto tempo. Percebo que o tempo afinal, como sempre dizia, é o grande inimigo do cozinheiro. Mas as mãos sentem falta daquela pressão do fogo. Da conversa apressada. Do: Chefe, a mesa do fundo está à espera há mais tempo. E lá vem o tempo. No nosso restaurante até tinhamos aquele cartão na parede que me orgulhava: slowfood internacional. Ainda me lembro de, no início, haver clientes que pensavam que isso era sinónimo de tempos infinitos de espera. Não. Era só o tempo certo. Agora, agora tudo parece um pouco mais imperfeito. Porque agora, temos tempo para a massa descansar e para fazer as tais fermentações que desesperava qualquer um. Ou as marinadas. Tudo muito melhor. Tudo melhor porque sabemos que é preciso sair o mínimo possível e fazer render o máximo cada produto. Agora, agora dou por mim a lavar uns saquinhos de plástico com fecho para os aproveitar simplesmente porque, agora, é urgente. Aqueles ensinamentos das gentes de outros tempos fazem tanto sentido agora. Afinal, no final, os dias passam. Não deixo de cozinhar todos os dias. A cozinha faz-me bem. Nunca tive influências ou aquelas coisas das modas de produtos e disto e daquilo. Só seguir as receitas e sabores de outros tempos e modos. Para não se esquecerem. As gentes, os modos, os sabores. Depois, depois de tudo isto passar, daremos ainda mais valor a isso. Penso. Ao que sabemos que se não cuidarmos não deixaremos aos outros. O nosso legado gastronómico. Os tempos que vão chegar serão de uma dimensão imensa. Um desafio que, na minha geração, nascida nos anos setenta, nada mais será do que preparar caminho para os outros. Os meus filhos, os mais novos. Percebo que vinte e tal anos de vida activa só dão para isso. Não mais. E se conseguir isso, já será muito bom. O resto. O resto fica para os dias que ainda vão passar. Simplesmente…
