Digo a mim mesmo tantas vezes: não te esqueças. Não te esqueças que já estiveste sem chão. E que foi possível refazer a vida. A força que se repete, emerge disso. Mesmo quando sabemos que não se vê nada mais do que a impossibilidade. Temo a minha sorte. Mas temo a sorte de tantos. Leio que há restaurantes de luxo a vender “comida de casa”. Vejo que todos estão a fazer o que podem e sabem para se manterem vivos. Que todos vemos que o que se segue exigirá uma sobrevivência para a qual ainda não sabemos a solução. Eu sinto, ao contrário de muitos, que não vamos ser melhores. Que o sistema não mudará. Que afinal, iremos só seguir. Continuar a seguir. E por isso tudo será mais difícil. A verdade é que mudando o sistema começamos de novo. É mais doloroso mas mais fácil. Assim, dentro de algo que apenas suporta mas não se refaz, teremos que aguentar o que se passará dentro. Por dentro. Uns com mais capacidade de adaptação do que outros. Uns com mais margem de manobra do que outros. Acredito que seremos diferentes. No modo, na forma, no que poderemos fazer para continuar. Que nos adaptaremos. Os que vão sobreviver. Não seremos todos. Não sei se serei ou não um desses. Mas isso agora é só uma noção que importa como destino. Ou como razão. Afinal, nisto os grandes estão tão aflitos como os pequenos. E aqueles que apostaram mais estão mais aflitos. Ou tão aflitos como aqueles que não o fazendo terão que resistir à normalidade do correr dos dias. Seremos diferentes porque teremos que pensar no que fazer para pagar isto tudo. De um arranque em força e fúria passámos a abraçar o sobreviver. O pensar em sobreviver. Porque percebemos que, sendo restaurantes a onda embateu primeiro em nós mas depois vieram os outros todos. Quem nos fornece. Quem nos visita. E por fim, todo o sistema. Nós, que no inicio nos unimos, agora pensamos individualmente como fazer para segurar o barco. E sei que voltaremos a pensar em conjunto. Só não é agora. É quando perceberemos que aquilo que nos salvará será a capacidade de partilhar o que restará disto. E ainda falta tanto para essa lucidez. Por enquanto, o que temos e podemos fazer é isso. Resistir. Seja a tentar fazer, seja estando imóveis. Seja desistindo para podermos recomeçar. Mas resistir. A verdade é que quem já caiu, quem já o fez, sabe que a força necessária é só isso mesmo. O que é preciso. Essa força.