Quando nasceu o restaurante pensei que o mais importante, depois da equipa, eram os fornecedores. De proximidade, de qualidade e únicos. Os restaurantes-mercearia são um futuro óbvio. Porque ajuda todos. A nós, que consumimos o produtos e a quem nos visita. Poderem comprar os produtos que usamos. Cada cliente, um por um, poder conhecer esse produto e o seu produtor. Do arroz, aos legumes, da carne às compotas e afins. Tal como nós, que cozinhamos e que sabemos o nome de cada um deles, que percebam o valor do que está no prato. De uma forma simples. Hoje, mais do que nunca, percebemos a importância de quem produz. De quem nos continua a alimentar no início de tudo. Mas não os reconhecemos. Porque não sabemos o seu nome. É aqui que os restaurantes no futuro vão ter que mudar. Vão ter que refazer essa ligação de impossibilidade que para muitos era o seu segredo e dar isso a conhecer para que eles, os que nos tornam possíveis, possam continuar a viver. Porque também eles estão a precisar de ajuda. E por outro lado, do outro lado, o cliente. Aquele que visita. Que fique mais preparado para saber o que está no prato. E dar valor a isso. Sem a sobranceria do saber dos chefes que conseguiram aquele ingrediente de forma mágica e por isso tão cara. Simplesmente porque assim, comeremos melhor. Com mais dignidade para todos. Com mais cadeias de valor como hoje lhe chamam. A verdade é que este simples futuro torna óbvio algo ainda maior. Os segredos da cozinha, os interesses locais, as relações unilaterais perdem noção nesta realidade. Os restaurantes de amanhã, os que sobreviverem, serão lugares de celebração. Mas ao mesmo tempo terão que ser lugares de valor. Real. E não só para os produtores que, em grande escala, conseguem o que outros pequenos não o conseguem. Porque afinal, o homem que vende carne tem nome, o produtor de arroz, tem nome, a senhora que faz as compotas, tem nome. E será nesta escala de sucessivos reconhecimentos que vamos todos conseguir superar este desafio único na nossa existência. Ou isso ou não teremos aprendido nada…