Teremos medo. Uma parte de nós, mais consciente, terá medo. E os restaurantes como vão pensar nisso? Terão que ser os primeiros a rever todos os procedimentos de higiene, segurança e controlo. Teremos que ser mais exigentes e passar essa exigência a quem nos visita. Teremos que lutar contra ao medo com a certeza dos nossos gestos. De cada um dos nossos gestos na reabertura. E nesta fase antes, em que muitos são o serviço para outros tantos. Combater o medo, com as nossas atitudes. Afinal, os que sobreviverem, serão símbolo de esperança. E ser esse símbolo é tão importante. Porque se não soubermos celebrar, a vida terá perdido parte da sua beleza. Nisto a restauração terá um papel único e fundamental. Hoje é domingo de Páscoa. A quarentena correu num tempo de quaresma. E vem abril, o tal da liberdade. A nós, portugueses e a nós cozinheiros isto diz muito. Porque a Páscoa era a reunião de família. Agora, não é. Esta não será. Não teremos os restaurantes cheios de avós, mães e pais, filhos e gente a celebrar a reunião. Estaremos com as salas vazias. E ainda bem. Neste tempo, ainda bem. Foi a nossa acção que levou a que menos gente se pudesse encontrar. E isso é uma coisa boa. Mesmo sempre insuportável para nós, essa não reunião, salvará vidas. É tão estranho isto, mas é também, para quem o vê assim, um acto do mais cristão que há. Ou do mais humanista. Afinal, a nossa inação, a nossa impossibilidade, ajuda. Aquilo que nos pode matar enquanto negócio é o acto que pode, de facto, ajudar. A Páscoa é isso. Hoje. Essa celebração da ajuda. Do renascimento que será possível para os que nos visitavam mesmo que não o seja, para muitos de nós, que não teremos espaço, forças ou capacidade para sobreviver a este tempo. Hoje é domingo de Páscoa. Fico por aqui. Fazendo quase um mês que tenho o restaurante de portas fechadas. Neste domingo que esperava o riso das crianças, as conversas em sala cheia, os abraços e os sabores únicos partilhados à mesa. Fico feliz por não o fazer. Por muito que torne quase impossível que venha a regressar, sei que, ao respeitar o devir histórico deste tempo, posso celebrar a Páscoa e fazer com que quem nos visitava o possa também, porque não serei motivo de risco. Afinal, no final, a Páscoa é mesmo isto. Renasceremos, se assim tiver de ser…
