A cozinha portuguesa. Dizem que tem memória. Própria. Que agora, o luxo das desconstruções terá que dar lugar a outra coisa. A essa memória e coisas que tais. Mas que memória tem então essa gastronomia que tanto falamos. Das guerras e das pestes. E das festas e dos encontros. Do tempo das laranjeiras dos árabes de que já só temos ruínas e laranjas. Ou da azeitona. Ou dos figos que outros, os romanos, tanto adoravam. Ou do azeite de uma idade média que se tornou cultura dita do mediterrâneo mesmo que nós, desses mares, não teríamos sabido mais do que a memória de viagens feitas por homens que levavam mais do que traziam. A cozinha portuguesa, que agora, pedimos para nos salvar, é feita deste tempo em que estamos, agora. Percebemos os aproveitamentos. E a razão de dizermos que vem da pobreza. E a importância do silêncio. É nos momentos graves que os homens que pensam se calam. Porque tudo é de uma brutalidade que é preciso respeitar. A cozinha da qual nos afastámos é disso espelho. Do silêncio grave de quem a faz sabendo que o futuro é sempre um tempo de necessidade. Que não dominamos mais do que essa memória que nos é passada como nós, agora, passaremos aos que se seguem. No tempo em que vivemos percebemos isso. Desse silêncio solene que é forma e modo de respeitar o tempo presente. E procuramos salvação no que sempre lá esteve. E nós não conseguimos ver o seu valor até ele nos aparecer como salvação para o afundamento de uma restauração onde o eu valia mais do que o nós. Afinal, o que vamos precisar é de partilha. Do tacho que todos partilhavam, seja isto metáfora para o que quer que seja. Do vinho e do sorriso. Do brinde e do repetir tudo até nos saciarmos da saudade de tudo isso nestes tempos em que estamos verdadeiramente sós sem o conseguir estar. Depois, no fundo, depois de tudo isto, percebemos que quanto mais nos afastámos do que os outros nos deixaram como certo, mais será difícil voltar a esse porto seguro que é a cozinha portuguesa que nos foi legada. Mas é um caminho a fazer. Urgente. Para nos salvarmos…
