Tínhamos certezas demais. De que amanhã o dia seria igual ao da semana passada ou melhor. Estávamos a crescer em clientes. Os que se repetiam e já conheciam a casa e os novos, que chegavam e tentávamos conquistar para o regresso. É tão importante regressar. Um restaurante isolado, onde nada mais há sem ser o nosso espaço, vive de regressos. Dos regressos de quem visita. De quem descobre. De quem ganhou o hábito de ir ali porque ali tem mais uns minutos de descanso.
Tínhamos certezas a mais. Já pensávamos no verão, na correria e como forma de manter a identidade construída a custo. Acho que ainda vai valendo essa esperança de volta a cada uma dessas ideias. Depois quebram-se as rotinas. Nós, ali no meio da serra, íamos aos mercados de Figueira da Foz, Condeixa, Penela e Miranda do Corvo. O pão era sempre comprado quente, daquele que sabíamos que era feito para nós, de forma única. Era uma rotina passar nas pequenas lojas, conversar pela manhã, ir ao talho a Montemor-o-Velho buscar as carnes de caça. E o café de manhã, tomado em equipa.
Tínhamos certezas das rotinas. Agora falta isso. Sente-se a falta das voltas que se fossem feitas com dez minutos de atraso já faziam com que fosse preciso correr mais um pouco. Mas havia sempre tempo para a conversa. O Benfica e os clientes. Os copos que faltavam porque se tinham partido mais dois. Aquelas coisas banais que dão vida a um lugar, a um restaurante.
Aproxima-se o fim de semana, altura em que a casa se enchia sempre e o telefone não parava de tocar, puxamos pelas forças de vir a refazer isto. Os lugares, os restaurantes principalmente, são feitos pelas pessoas que os habitam em instantes únicos. Felizes ou inquietantes, mas são as vozes, os sorrisos, as lágrimas, as conversas que dão vida aos lugares. Que são a vida destes lugares. E nós somos só aqueles que acolhem cada um desses momentos. Fazemos parte, sem fazer parte de nada. Mas fazemos e construímos as equipas que fazem acontecer cada uma dessas memórias de quem por lá passa, leva consigo. É a esperança de voltar a tudo isto que alimenta estes dias. Porque sem isto, desistimos de ser melhores. Que cada lembrança seja a nossa força para refazer tudo.
