Agora percebemos que a pressa era inútil. Que a urgência era uma coisa relativa. Que só as pessoas importam. Como sempre importaram. O restaurante que decidi abrir fica confinado numa zona onde as casas se aglomeram em pequenas aldeias na encosta da serra. Nessas casas, a maioria delas abandonadas, reside uma população envelhecida. Esquecida, muitas vezes, voltada sobre as suas histórias. Eu e a equipa somos ali estrangeiros. Chegámos e respeitaram-nos pela luta que travámos contra o esquecimento do lugar que um dia eles também construíram. Penso nisto, porque todos os dias penso neles. E no que estranharam a mudança. Do inicial “não se vão aguentar no inverno” ao “parabéns por não terem desistido e terem conseguido dar a volta a isto”. São lições. Tudo isto são lições que agora repenso. Eles, os que lá ficaram, são os heróis. Porque nós lutámos um bocadinho. Eles, a vida inteira. E hoje só penso mesmo na minha equipa. Sempre os coloquei em primeiro lugar. Porque sem eles, sem as pessoas que atravessam o mundo ao nosso lado, nada é possível. A decisão que tomei, mesmo antes de muitos outros, foi porque o fiz ainda sem metade do que hoje já se sabe, foi para podermos perder tudo. Sim, perder tudo. Voltámos ao zero. Parece estranho mas não é. Só perdendo tudo mas resguardando o mais importante poderemos recomeçar. Salvaguardando-nos e aos que nos são próximos, a quem nos visitava, poderemos recomeçar. Mesmo que seja, novamente, um desafio do tamanho do mundo, como já foi, só assim, juntos, poderemos resgatar o lugar, as conversas, os sabores, os sorrisos, as histórias, as gargalhadas e os momentos que sempre desejámos que fossem únicos. Para nós e para os clientes. Gritam-me: e a economia? A economia é um espaço de tempo entre o que se espera e o que se tem. O que se tem, são só coisas. Mais ou menos. Quem já não teve sabe que pode perder tudo e ganhar tudo num instante. Mas precisa de forças. Mentais, físicas, morais e daquela alma que faz construir lugares para habitar. Um restaurante é um lugar que se habita. E se queremos continuar precisamos de perceber que a vida, neste instante, é uma pausa urgente, longa ou curta, para salvaguarda o resgate do futuro. Mesmo que seja preciso começar do zero. Porque afinal é sempre daí que a viagem remota…