Ao domingo, havia uns certos rituais diferentes lá no restaurante. Chegávamos todos um bocadinho mais tarde (mesmo sem reconhecemos). Demorávamos um bocadinho mais a tomar o café. Tínhamos mais umas mãos para ajudar. Havia sempre mais qualquer coisa para servir de entrada. Dos caranguejos pequenos ao camarão da costa. Do pão com chouriço ao mel temperado. E escrevíamos sempre: tenha um dia feliz, nas redes sociais e era só isso. Era mesmo só isso que queríamos. Que quem lá fosse tivesse um dia feliz. Agora, com o passar dos dias, sentimos falta do movimento, das gentes que por lá passavam, das conversas, dos instantes e dos reparos. Percebemos que o cuidado que tínhamos era importante. Era importante cuidar de quem nos visitava com o desejo de passar um bom momento. Escrevo e imagino a sala agora vazia, em silêncio. Sem a lareira acesa ou aquela coisa do: “vá, falta meia hora para o serviço”. Imagino as águas que correm, o sol e o vento fresco que aparecia sempre quando eu ia dar um passeio a pé antes da correria do momento do almoço. E as flores que me disseram morrer no verão que afinal se fecham é no outono. Com o passar dos dias, enche-se tudo de silêncio. Só oiço o bater destas teclas como se fosse o som dos passos das memórias. Como se tudo isto fosse só um terrível pesadelo de quem lutou, errando muito mas combatendo o impossível, sempre, para criar um restaurante que fosse uma casa. Um lugar. E os lugares precisam de vida. O silêncio tende a matar cada espaço por o desabitar. Penso no que terei de fazer. Que ainda estamos longe do fim e não quero acreditar no pior nem no melhor cenário. Oiço falar em ajudas que sei que não servem nem vão chegar. Oiço um Estado que nunca cuida mas exige. Oiço falar que afinal é preciso recuperar. Nós sabemos que no final será preciso recuperar. Não sabemos, sentimos. Está no sangue de quem sempre lutou e lutará novamente. Só não venham com conversas e ajudas que só atrapalham. Sempre disse que na cozinha (e na vida) há dois tipos de pessoas: as que dizem “eu ajudo” e as que ajudam sem dizer nada. E é mesmo assim. Será assim no momento em que tudo isto chegar ao fim. Porque é preciso continuar…
