Em março de 2019, já me tinham falado do espaço onde acabei por aceitar o desafio de criar um restaurante em nome próprio. Era uma aventura, depois de passar por estruturas de grande e média dimensão. Ali, no que passei a chamar de “meu cantinho” podia levar a cozinha em que acredito. Assim o fiz. Era um lugar de memórias, é um lugar de memórias. De pessoas que passaram a vida a cozinhar. Mulheres e homens que, noutros tempos e de outros modos conseguiram sobreviver a tudo. Tinham a força da adversidade. E o tempo das coisas “certas” como dizia muitas vezes a quem nos visitava. Esse tempo e esse modo não eram de “pobreza” como tantos gostam de anunciar dizendo que a cozinha portuguesa é filha dessa falta. Não. É de um tempo e de um modo de vida que agora podemos perceber melhor porque estamos fechados num lugar único. Uma cozinha de casa, familiar ou comunitária pela ajuda e partilha. Pela adversidade de não se ter tudo, perto ou à mão de semear.
Percebemos que fazer render é também saber dar sabor ao que se tem. Ao que se tem que fazer para dar para todos, sem faltar aos outros. É uma cozinha de respeito, de ternura, se assim se pode dizer. Hoje, de portas fechadas, vamos partilhando todas as receitas que fomos fazendo ao longo do tempo lá “no cantinho” para uma memória futura. São receitas de conservação de outros tempos. Aprendi isso em tantas conversas que tive com tanta gente. Esses que agora, certamente, sabem mais do que eu de como aguentar estes dias de espera por um tempo que virá.
Não me arrependo de ter criado essa identidade ali. Essa arca de Noé de sabores e saberes que surpreendiam por tão esquecidos que estavam. Era muito recorrente ouvir dos clientes, vezes sem conta: “isto faz-me lembrar o que a minha avó fazia”. Era essa forma de trazer de volta a memória de um tempo que fazia sentido. Ali repousavam as receitas perdidas. Obrigavam a um exercício constante de olhar para os outros muito mais do que para nós. E com isso, dessa forma, percebemos mais este tempo. Que custa a passar de tão longo que nos parece mas que é só um soluço no decorrer da história. Perceber que afinal, no final, sempre soubemos sobreviver e fazer viver. E antes de mais pela cozinha, pelo que alimenta. E pelo que se dá ao alimentar. Sabíamos, afinal, muito mais do que pensávamos.
