Devia de existir uma forma das pessoas perceberem que quem sempre foi forte perante os desafios tem momentos em que se sente verdadeiramente só. A sabedoria popular descreve isto de uma forma única: “candeia que vai à frente ilumina duas vezes”. Porque as certezas são muitas vezes tapadas por essa imensa solidão de ver o caminho quando os outros só esperam respostas para onde ir. Criar um restaurante passa por esse caminho a sós. Na decisão, só nisso. O resto, tudo o resto, quanto mais partilhado melhor. Penso nisto porque penso nos dias que se vão seguir a isto tudo. A lentidão de um regresso que se fará a conta-gotas. E o reedificar de um projecto que já tinha andado o suficiente para ganhar forma. A forma única que tinha.
Depois, sem qualquer razão, chegando de lado nenhum, veio este tempo. Uma interrupção abrupta, uma quebra, um murro, um muro. Qualquer coisa que se colocou no meio do tempo e que nos roubou a vida. Sim, a vida. Porque a natureza e os deuses são dotados desse poder estranho que nos coloca fora da realidade conquistada. Passamos a não saber o que fazer. Outra vez, mais uma vez. Não sabemos mesmo o que fazer e isso assusta. Nunca estivemos aqui, nunca este lugar foi habitado por nós e esperamos conseguir perceber a tempo, neste tempo, o que fazer.
Sabemos o sabor das coisas. Um restaurante é um lugar de sabores. No nosso caso, aqueles que sempre me disseram que era impossível de servir. O peixe fresco do dia. As carnes de caça da região. Os quilómetros feitos, que segundo muitos, iam cansar-me ou fazer-me desistir ao fim do primeiro mês. Depois, habitado esse lugar impossível, as pessoas habituaram-se. Começaram a chegar. A ver que afinal, a teimosia de um homem só bastava para fazer diferente. A ideia, essa, bebida pela equipa, ganhou forma. E força. Por isso, só por isso, percebo a cada dia que passa que se há alguém que conseguirá superar isto, somos nós, ali naquele restaurante perdido no meio da serra, sem nada mais do que o sonho…
