Os cozinheiros são feitos de fogo. E humor. E amor. É com humor que hoje pego nas palavras. Os cozinheiros fazem-se pelo fogo. Ora, com o restaurante fechado há mais de uma semana, sem perspectiva de retorno, cozinho em casa. E falta o fogo, porque em casa impera a placa vitroqualquer coisa. Percebo que deixei de saber fazer arroz. Eu que dizia que se cozinha pelo som, falhou-me aquele som do refogado que sabemos que está pronto mesmo sem olhar. Aqui, tudo é impossível: as facas, as tábuas — geralmente corto-me ou queimo-me sempre. Somos feitos daquela correria e das decisões no instante. Da pressão do tempo certo. Em casa e com todo o tempo do mundo, ou tudo corre muito bem ou então é a desgraça total. Cozinhar aquele borrego no forno, em vinho tinto e alho, que demora sempre um dia a fazer? Feito. Mas depois, fazer um arroz de cenoura, porque os pequeninos gostam: uma desgraça. A verdade é que somos feitos de outra massa. Daquela massa dos instantes impossíveis, do som e do movimento, dos gestos automáticos. Da rotina e dos outros que ajudam e sabem os nossos passos num espaço imperfeito onde nos movemos. Refaço algumas receitas. Já me pediram a açorda ou a mousse. Custa repetir cada um desses sabores porque trazem saudades dessa correria e da conversa à mesa que acabava sempre comigo a revelar a receita. Aqui, em casa, peço ajuda aos pequeninos. Dizem que o pai pica a cebola depressa e sabe fazer pão. É curioso que o tempo e cozinhando aqui em casa todos os dias, tem trazido um certo encanto. Um encanto perdido. Deixei-me levar para as receitas que já não fazia há bastantes meses. Os pastéis de bacalhau, que a batata até secou como manda a lei. O tempo. Disse tantas vezes a quem estagiou comigo: o grande inimigo do cozinheiro é o tempo. Agora, agora que escrevo, é também esse tempo que me interrompe. Tenho um esparguete ao lume e vai queimar…