Esta expressão costuma ter um significado pouco literal, jocoso, de suave desdém. Por vezes vale a pena parar e prestar atenção aos significados literais. Eles existem, por muito que de tanta insistência nos significados metafóricos as metáforas pareçam agigantar-se e impor verdades suas ao que normalmente seria apenas, e simplesmente, a vida.
A vida vai correndo em metáforas caseiras, confinadas no espaço, que o tempo nos vai parecendo infinito. Acho piada à gestão de expectativas que a televisão e a rádio (por uma vez impondo a sua verdade à pseudo verdade das internets inter-tecidas, para evitar o chavão “redes sociais” que na minha área de investigação (simulação social) tem um significado bem mais literal do que o metafórico que ganhou força de comum: “o facebook e o resto”. Redes sociais, sendo bem claro, não são o facebook e o resto, redes sociais são a nossa família, os nossos vizinhos, os nossos colegas, os nossos amigos, os nossos governantes, os nossos alunos, os nossos compatriotas etc etc e um infinito de etcs, todos ligados a nós por muitas vias, muitos caminhos, muitos meios, muitos pesos. Fechar parêntesis.
Acho piada à gestão de expectativas que nos vai chegando de quem manda e/ou quem sabe. Para não nos meter medo, falaram de duas semanas. Nem se deram ao trabalho, no fim delas, de explicar que iam ser mais, não se sabe quantas mais. Falou-se de um pico em 14 de Abril (só aí seriam já bem mais de duas semanas), como se houvesse algum fundamento credível para esse facto (facto?!). Mesmo aí, seria um pico, um planalto, ainda longe do fim da quarentena (mas onde é que anda o meu A Peste, do Camus, quero relê-lo e já?). Agora já se fala do pico-planalto em fim de Maio. Estas são verdades científicas, que como todas vão evoluindo com o crescimento do nosso conhecimento? Penso que não: são verdades políticas, quiçá necessárias, que vão permitindo gerir a ansiedade de um povo confinado, manietado. Onde é o fogo?
A minha amiga Isabel (salve, Isabel) confessou humidade ocular quando hoje lhe levaram o pão à porta. Como a percebo. Também eu ontem abri a porta ao meu carteiro (uma senhora, porque é que a palavra carteiro não convida ao feminino?), recebi uma carta registada, cumprimentei-a de longe e por uma vez para além dos bons dias parei a agradecer o seu trabalho. Fechada a porta, rebentaram-me os olhos de lágrimas. Esta senhora arrisca a sua vida para nos trazer a normalidade. Não está a salvar vidas na frente do hospital, está a salvar o nosso modo de vida, a lutar por ele. Cada um de nós o fará à sua maneira, muitas vezes em casa, em renúncia. Outras vezes, como tenho visto cada vez mais e pouco a pouco, a fazer nascer um movimento de luta, de alternativa, um crescimento de um desejo de não ficar parado e actuar, agir, criar. Onde é o fogo? É aqui, é hoje, agora.
Os bombeiros também estão na frente de guerra, pau para toda a obra, com a sua formação genérica e específica a capacitá-los para entrarem em todos os combates, médicos, cívicos, até securitários. Gosto de andar a pé ao pé de casa e passo muitas vezes à porta do quartel dos Bombeiros do Beato, um quartel sui-generis, que parece ter o tamanho de uma loja, com os carros a ocupar a rua toda por manifesta falta de espaço interior. Nunca me esqueço de cumprimentar os que na rua se agrupam numa conversa, fumam um cigarro, esperam por ocorrências. Quantas vezes nos lembramos de dizer bom dia ao polícia, ao bombeiro, ao homem do lixo? Eu, sempre. Não me esqueço de quem faz o tecido das nossas vidas. Não olho para eles como quem vê o vazio. São pessoas. Sempre pessoas (a excepção são os tipos da EMEL, esses ignoro ou insulto mentalmente). Hoje usando a alínea h para higienizar a minha mente via pernas na calçada, passei pelo Beato. Não cumprimentei, fugi para o outro passeio. O fogo era num bidão, o lume crepitava, havia alegria, convívio, uma garrafa de vinho, um churrasco que se alinhavava. Emocionei-me. É aqui o fogo. As bombas caem mas nós estamos vivos, e os nossos guerreiros bebem mais um trago de vida no intervalo para respiração que as batalhas lhes vão deixando. Amanhã é tarde, daqui a bocado haverá fogo. Respiremos por agora um momento em paz.
