A vida leva-nos sempre mais longe e nos caminhos podemos prestar atenção ao que a providência nos traz.

Um dia, na Beira Alta, DOC Douro, saí manhã cedo à coca de espargos bravos. A minha guia era a minha amiga, companheira, cozinheira, professora, Mãe no Douro, Avó dos meus Filhos, Dona Fátima. Quem me conhece já ouviu falar mil vezes da Dona Fátima, mas é a primeira vez que trago as letras dela ao papel. A D. Fátima é uma daquelas pessoas extraordinárias que por vezes se cruzam connosco, e que se tivermos a bonomia de as ouvir, nos podem encher de ensinamentos, princípios, lições. Ela é um poço de Sabedoria. Tenho por ela um amor filial, e nunca me esqueço de lho dizer. Sou velho e ela mais velha, mas iremos os dois em paz sabendo bem o que nos une.

A sabedoria, ensinou-me a vida, sorte minha, é um equilíbrio perfeito entre o que se sabe e o que se não sabe. Quem sabe tudo não sabe nada, quem duvida de tudo não tem nada para ensinar. Já a sabedoria, pelo contrário, é um misto de saber falar e saber ouvir.

Nesse sábado de uma Primavera seca, fomos em busca dos fantásticos espargos bravos do Douro. Terra alta, esses 500m, e muito quilómetro para pouco espigo do “caviar do pobre”.

D. Fátima guiava-me. Cito-a. Por estes caminhos, dantes, não se encontrava nada. Estava tudo rapado. Havia pobreza e tudo se aproveitava, não é como agora. Estas ervas apanhavam-nas para o gado, ovelhas e cabras. Estas urtigas dão uma boa sopa. Estas ao lado não. São urtigões umas urtigas outras. Bem diferentes. (A mim pareciam-me iguais e igualmente peçonhentas, que me lembro bem do prurido nas mãos da minha infância.) 

E de muro em muro, de sombra em sombra, procurávamos o ouro da omeleta daquele dia, que seria abraçado pelos ovos caseiros das suas galinhas. Numa sombra mais húmida, afastados os tojos, por baixo logo vinha o verde amarelado de um espargueiro. Com uma foice de cabo longo, a Fátima logo o cortava cerce. Apanhávamos as pontas tenras, fosse a ponta das braças ou as grossas que despontavam do chão. O resto nascerá mais forte no ano que vem. Sabedoria dos anos, décadas. Muitas horas passaram, para apanhar, ano seco, um punhado de pontas. Devolvi a lição propondo que os espargos não deveriam ser cortados finos, que se perdia a textura crocante. Devolveu-me ela meses depois dizendo que tinha passado a partir os espargos — troços mais longos — com as mãos, que a faca os oxidava.

Em tudo isto vejo amor, e é com amor e saudade que escrevo esta recomendação: de vida, de paciência, de humildade, de sabedoria, de grandeza, uma imensidão de memórias e saudades que nunca nunca nunca poderei esquecer nem deixar de honrar.