A solidão exerce-se em omissão de actos e muitas palavras. Exerço a solidão, pratico o silêncio, em intervalos, e agora chego às palavras. Estou sozinho. Luto, luto, luto contra o amarfanho de um mundo que me quer esmagar, penso em resistir, nem sei como, mas resisto. Faço o que posso pelos meus, insto-os a lutar, agito as águas, o ar, o éter, o mundo. Digital. E continuo a trabalhar como me pedem, com as condições que posso e os meios ao meu alcance. Não estou morto, não quero morrer, não hibernei, nem me sentei no sofá com o telecomando à espera que tudo passe.

Vivo, combato, quero viver e quero ajudar a definir o mundo em que quero viver.

Agora, quando o dia se apresta a terminar, uso a alínea h, que me permite sair um pouco, atividade física, sem c, diz o decreto, moderno. Sozinho, sempre sozinho. Caminho sozinho e uso o telefone para falar, para ler, para escrever. Uso os olhos para ver, os ouvidos para ouvir. Quando vejo gente mudo a tempo de passeio. Ando quilómetros. Abro os olhos. Vejo quem sobra na rua. Desportistas de camisolas fluorescentes. Identifico-me mais com estes. Atividade, eu escrevo com c, ou com o h da alínea. Trabalhadores que regressam a casa. Ar cansado dos dias longos, soturno do medo, de viver com o medo e abraçá-lo como modo de vida, conformação de saber que o desfecho é inevitável mas não há alternativa.

E depois os outros. Os que já estavam na rua antes dos dias do medo. Os que estarão na rua quando o medo acabar. Os bêbedos que ali estão sempre, a todas as horas, agarrados ao pacote de vinho mais barato e cuja preocupação continua a ser, eu bem vejo, encontrar mais um pacote do vinho mais barato. Os sem abrigo, que agora, já faz tempo, têm como abrigo umas tendas baratas da Decathlon, sempre é um abrigo mas um pobre abrigo em tempos onde o isolamento é um luxo essencial. Esses conversam pacatos nos halls de céu aberto, definidos geometricamente pelas aberturas das tendas, reunidas em átrio pobre e exposto. Conversam como sempre conversaram, que a morte lhes mete pouco medo, mais a vida. Salve-se a proximidade de uma conversa humana, que o abraço pode ou não vir antes da última noite. Foram estes, mesmo estes, que lá costumo passar a pé e bem os vi, que salvaram o bebé do lixo. No meio da crise, do medo, da solidão e do silêncio, inspiro-me nestes, que um dia tiveram a humanidade redentora e hoje mantêm a urbanidade serenamente normalizadora.

Também o mal há-de passar e cá estaremos os vivos para tornar o mundo melhor. Por enquanto, lutemos. Em solidão, em silêncio e, chegando a altura, na sua ausência. O grito certo!