“Tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um, se resume no tamanho de seu saber.”
Albert Einstein
Não é o depois que me preocupa agora. Preocupa-me o enquanto.
Sabemos que isto vai ser longo, muito longo.
Preocupa-me como uma parte da Comunidade, que apenas intuo significativa porque desconheço números, vai poder resistir.
Que parte do país vive de uma economia diária, frágil e sem direitos?
Basta ter o pagamento de um crédito em atraso, basta não ter conseguido pagar as contribuições e impostos no último mês ou trimestre, basta não ter contabilidade, a renda (sempre) atrasada…
Muitos nunca recuperaram da última crise. Dependendo da situação em que se encontravam quando ela aconteceu e quando se deu a “retoma” adaptaram-se, reconstruíram-se e reorganizaram-se ou viram-se atirados para um beco sem saída, ou sem reentrada no mercado “normal” de trabalho. Inventaram uma forma nova de ir levando a vida. São artesãos, biscateiros, vendedores de tudo e de nada, mulheres-a-dias, pescadores, nano-agricultores, pau-para-toda-a-colher em restaurantes e cafés ao fim-de-semana ou quando e só se o trabalho aperta e alguém da equipa falta. São o que conseguiram ser. Sobrevivem.
Continuam a ser pessoas, famílias inteiras. Quem sabe minimamente o que é trabalhar por conta própria, seja em que formato for, poderá ter uma ideia do que seja viver “normalmente” sem um salário ou qualquer outra forma de rendimento mais ou menos fixa e segura. Agora imaginemos fazê-lo nestas circunstâncias.
O futuro? Ainda não chegou e não sabemos. Mas e o enquanto?
Quantos portugueses não terão acesso a qualquer apoio, a qualquer uma das medidas excepcionais que se vão encontrando para apoiar a continuidade, para sustentar a espera, para diminui o impacto e evitar o descalabro completo?
Estas pessoas terão esgotado por estes dias os recursos de que dispunham. Se nas zonas rurais o acesso a comida vinda da solidariedade normal entre vizinhos poderá atenuar um pouco a necessidade, o mesmo não se passará nos centros urbanos, maiores ou menores.
Chamemos os bois pelo nome – quantas pessoas estarão neste momento a chegar ao ponto de não terem comida nem dinheiro para a comprarem e a saberem que não terão nos próximos tempos. E “tempos” poderá querer dizer um mês ou mais.
Não há maior medo do que o que provoca a ideia de fome, sabemos (sabemos?).
E então, que comportamentos podem acontecer?
É isto que me preocupa por estes dias.
O desespero de alimentar os filhos. A rede familiar que tantos não têm. Sozinhos.
Os invisíveis!
Não podemos ser selectivamente cegos.
Custa-me imaginar assaltos a supermercados. Mas imagino.
